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Estado de Minas

Número de internações provocadas por acidentes de trânsito dispara na capital

Em 4 anos, foram gastos R$ 45 mi com pacientes, valor suficiente para erguer um hospital. Atendimento a acidentados em motos sobe 50%, aumentando dramas em leitos do HPS


postado em 17/01/2012 06:00 / atualizado em 17/01/2012 07:30

Enfermaria de politraumatizados do Hospital João XXIII: atendimentos relacionados a motos subiram de 500 para 750 por mês, em média(foto: CRISTINA HORTA/EM/D.A PRESS )
Enfermaria de politraumatizados do Hospital João XXIII: atendimentos relacionados a motos subiram de 500 para 750 por mês, em média (foto: CRISTINA HORTA/EM/D.A PRESS )


Muita gente define a experiência como nascer de novo, mas sobreviver a um acidente de trânsito não é sinônimo de batalha encerrada. Pessoas que resistem à violência do tráfego nas cidades e rodovias estão apenas nos primeiros passos de um longo caminho em busca da reabilitação e retomada de funções simples, como andar, falar ou executar tarefas corriqueiras do dia a dia. E o número de vítimas com esse desafio não para de crescer, lotando hospitais e representando uma pesada conta para o sistema de saúde. Somente de janeiro a novembro de 2011, 4.729 pessoas ficaram internadas em unidades de saúde de Belo Horizonte para se recuperar de traumas provocados por acidentes, segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS). O balanço de 11 meses do ano passado, referente ao último dado disponível, já é 17% maior do que todas as 4.054 internações de 2010 e supera em 44% as de 2009, quando 3.289 vítimas precisaram ficar internadas após desastres de trânsito. Para além dos números estão histórias de pessoas que lutam para superar sequelas físicas, traumas psicológicos e frustrações pela perda da capacidade de produzir.

O crescimento na ocupação dos leitos em decorrência dos acidentes se reflete nos cofres públicos. Com cada vez mais vítimas, a Secretaria Municipal de Saúde estima que nos últimos quatro anos (entre 2008 e junho de 2011) cerca de R$ 45 milhões foram gastos somente com internações dessa natureza. O recurso, segundo a própria secretaria, seria suficiente para construir pelo menos seis Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) ou um hospital de médio porte, com até 200 leitos. Os atendimentos do tipo também têm crescido nas UPAs da capital. Menos complexos do que os serviços de emergência dos hospitais, os procedimentos saltaram de 14.444, em 2009, para 16.394 em 2011, até novembro, o que representa um aumento de 13,5% no período. Esses serviços geram, conforme a secretaria, gastos anuais de R$ 8 milhões.

Da mesma forma, o número de acidentes se acelera. Dados do Departamento Estadual de Trânsito de Minas Gerais (Detran-MG) mostram que os 16.822 acidentes registrados na capital em 2010 (dado mais recente disponível) superam em 7% os dados de 2008, quando foram registradas 15.719 ocorrências. Explicações para o fenômeno são muitas, de acordo com o diretor do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Júnior. “Obviamente, houve crescimento da população e da frota, mas vejo que o trauma provocado pelos acidentes de trânsito, considerados uma doença epidêmica, é negligenciado pelo governo. Faltam fiscalização e punição severas, além de investimento em educação para as questões de mobilidade, que devem ser trabalhadas desde a infância”, afirma.

Dirceu Júnior lembra ainda como o aumento da frota de motos e dos acidentes com esses veículos têm influenciado na elevação das internações. “O crédito para a compra da moto está cada vez mais facilitado. Além disso, as regras para obtenção da carteira de habilitação A, para motociclistas, não traduzem a realidade do trânsito nas ruas. Despreparados, eles se envolvem cada vez mais em acidentes”, completa o especialista, alertando também para a falta de transporte público de qualidade, levando cada vez mais gente a optar pelo deslocamento sobre duas rodas.

Epidemia

O que se vê nas ruas se reflete em serviços como o do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, onde o atendimento prestado a vítimas de acidentes de trânsito envolvendo moto cresceu 50% no ano passado. “Trabalhávamos com uma média de 500 vítimas por mês no início de 2010 e, em 2011, chegamos a aproximadamente 750 motociclistas mensalmente”, afirma o cirurgião-geral do setor de Emergência, Paulo Carreiro. Um deles, o técnico em eletrônica Magnum de Souza Martins, de 25 anos, não vê a hora de fazer a última das quatro cirurgias às quais terá de se submeter e voltar para casa. “Sei que ainda precisarei de muita fisioterapia, pois ainda não há estimativa de quando voltarei a andar. Já tive dias de desespero, chorei muito e estou arrependido do que fiz, porque foi pura imprudência. Mas estou confiante. Minha recuperação está sendo muito boa”, contou o rapaz, internado em um dos leitos do Hospital Maria Amélia Lins, na Região Centro-Sul da capital.

Ao falar do acidente, na madrugada de 13 de novembro, ele se emociona. “Eu havia ido ao aniversário de uma amiga e exagerei na bebida. Perdi a noção. Quando voltava para casa, acho que cochilei e bati em uma caçamba de entulho parada na rua. Quebrei todo o meu lado direito”, disse. Magnum teve fraturas no joelho, fêmur e bacia, braço e tórax. Teve ainda perfuração no pulmão e guarda uma grande cicatriz no lado direito do peito. “Às vezes a gente acha que pode contar com a sorte, que somos homens de ferro. Precisei me arrebentar todo para aprender a lição”, disse.


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