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Estado de Minas entrevista/Juliana Boechat, 60 anos %u2013 Patrícia Nicácio, 59 anos - Decoradora

Amor pelo trabalho

Mineiras com quase quatro décadas de mercado no design de interiores mostram que estão totalmente atualizadas e que a experiência é um ponto positivo


17/01/2021 04:00

(foto: Leca Novo/divulgação)
(foto: Leca Novo/divulgação)


As amigas e sócias Juliana Boechat e Patrícia Nicácio se conheceram na faculdade, e têm muito em comum: ambas nasceram em cidades do interior – Juliana é de Governador Valadares; Patrícia, de João Monlevade –,  são  filhas caçulas e  únicas filhas mulheres, sempre quiseram ser decoradoras por influência de suas mães e ambas têm a mesma fé em Deus. Parece que o universo conspirou a favor delas e todas essas “coincidências” as atraíram e a dupla já trabalha em sociedade há quase quatro décadas, com muito sucesso. Com o olhar sempre voltado para a inovação, elas comandam a NB Projetos com muita harmonia. Seu estilo vai do clássico ao moderno, do simples ao arrojado, sem nunca perder a inspiração, e sempre com muito bom gosto. Já ganharam alguns prêmios, entre eles o 3º lugar nacional do Prêmio Deca – Um Sonho de Banheiro – Categoria residencial, em 2005. Seus trabalhos aparecem também em livros como Decorator show houses III e Interiores, do fotógrafo Jomar Bragança.
 
Como foi sua infância? 
Patrícia – Até os 12 anos em João Monlevade, muito feliz, mimada por todos, inclusive pelos irmãos. Tinha muitas amigas que estavam sempre na minha casa.
Juliana – Infância de cidade de interior. Gostava de brincar no quintal, subir em árvores e tinha muitos bichos de estimação. Adorava ir para a fazenda, acordar cedo e tirar leite das vacas.

Quando criança, o que queria ser quando crescesse? 
Patrícia – Decoradora. Minha mãe tinha fábrica de cortina, móveis e estofamentos. Meu pai, além de construtor, tinha loja de móveis e estofamentos, junto com minha mãe. Fabricavam colchões, cortinas e praticamente cresci nesse meio. Minha mãe já amava decoração, colecionava revistas, e quando nos mudamos para Belo Horizonte, em 1974, ela contratou um decorador para fazer nosso apartamento. Quando ia fazer 15 anos não se usava mais baile de debutante, mas eu e minhas amigas decidimos que faríamos um. Um pouco de farra mesmo, muito mais do que pela pompa e circunstância que eram os bailes. O pessoal do cerimonial perguntou o que cada uma queria ser e eu respondi com a maior convicção, decoradora, e disse que faria o curso na Fuma. Uma cunhada tinha feito um cursinho na Fuma, então eu já conhecia.Queria ser ousada e escolhi um modelo de vestido branco todo com flores verme- lhas. Quando ficou pronto, detestei, e foi a maior correria para conseguir comprar um pronto, porque naquela época eram poucas as butiques que vendiam vestido de festa. Queria ser decoradora, mas não tinha coragem de ousar demais.
Juliana – Sempre quis ser decoradora. Minha mãe sempre foi focada em decoração de casa, ela gostava de modificar tudo. Acabei tomando gosto também. Puxei isso dela.

Quando se conheceram? 
Nos conhecemos na faculdade, então Fuma, em 1980, em janeiro, no cursinho.

Quando e como surgiu a ideia de trabalharem juntas?
No último ano da faculdade, em 1983, montamos nosso escritório.

Como foi esse começo? 
Começamos fazendo tudo, em um apartamento cedido pelo pai da Patrícia, e tínhamos, além de uma sala de espera para clientes, montada com móveis da extinta loja Know Hzow, três pranchetas onde fazíamos os projetos. Na verdade, fazíamos tudo, até que um dia ganhamos uma secretária eletrônica. Fazíamos do cafezinho ao atendimento de clientes em lojas.
 

"Não queremos perder nossa essência, que é dar curadoria para o nosso cliente. Fazer não apenas uma decoração indo na loja e comprando, mas buscar algo diferente "

 

Tiveram muita dificuldade? 
Sim, no início era tudo novo, poucas lojas, poucos fornecedores, e a profissão não era tão bem-vista, diziam que era coisa de madame. Mas superamos tudo e até hoje enfrentamos dificuldades, e vamos aprendendo a superar e aprender com cada uma. Mas isso nos fez saber escolher melhor os fornecedores e pessoas com as quais trabalhamos.

Vocês chegaram a ter uma mais uma sócia?
Sim, Mônica Lemos. Fomos sócias por 25 anos. Ela saiu em 2008, porque mudou de cidade.

Estão há quase 40 anos juntas. Se olharem para trás, o que mudou nesta trajetória? 
Mudou praticamente tudo, desde a forma de trabalhar, que era papel e prancheta, e agora é tudo em computadores. Mudamos de endereço duas vezes, e fomos nos aprimorando, crescendo e aprendendo mais. Isso é uma coisa que é para sempre, estudar, aprender, modernizar, atualizar e, com isso, crescer em todos os aspectos.

O que sentem depois de tantos anos juntas trabalhando com decoração?
Nossa trajetória é traçada por memórias de muito afeto. Fazemos o que fazemos porque acreditamos que muito mais do que encontrar soluções para os nossos clientes, transformamos os seus lares em um espaço de história e aconchego. Amamos o que fazemos. É gratificante ver o resultado de um trabalho e perceber que conseguimos encantar uma casa. Nessa hora, comprovamos que alcançamos nossa missão. Nós duas somos muito tementes a Deus, temos a mesma fé, é outro ponto que nos une muito. Por isso, toda segunda-feira começamos a semana fazendo uma reunião de oração, na qual oramos por cada cliente e por cada projeto. Isso é muito importante para nós também.
 
Nenhuma de vocês nunca pensou em fazer arquitetura?
Tanto eu quanto a Juliana detestamos matemática, por isso nunca pensamos em fazer arquitetura, mas temos arquitetas no nosso escritório, por isso mesmo somos um escritório de arquitetura e design de interiores.

Vocês usam muita cor na decoração de vocês, isso é um diferencial. Foi sempre assim? 
Sempre usamos cores, elas nos encantam, fomos influenciadas por Eraldo Pinheiro e Norah Fernandes, através da antiga loja Pau Brasil. O Eraldo sempre teve a mentalidade da história de Minas, sempre valorizou o barroco, as cores de Minas. Usava tons terrosos, verdes, amarelos. Ele gostava muito de cor e sabia usá-la. Fizemos uma mostra uma vez, no antigo Via Marquez, chamada “A cama e seus amantes”. A cama era amarela, de veludo, e a colcha em patchwork, por causa do artesanato mineiro. Nossa cultura tem uma história colorida por trás. Infelizmente, às vezes somos mal interpretadas porque gostamos de cor. Mas já fomos abordadas por colegas mais novas pedindo para ajudar no uso das cores. O que percebemos é que nem todo mundo sabe usar cor, porque é difícil mesmo, e muitos têm medo de arriscar. O filho do Zanine Caldas nos disse que seu pai amava usar cor em seus projetos. Oscar Niemeyer também, só que as pessoas não percebiam porque as fotos da época eram em preto e branco. A Cláudia Dodd, da Pé Palito, junto com um grupo, está fazendo um estudo sobre Niemeyer e o uso de cor que vai dar o que falar. Mas não fazemos só projetos coloridos. Atendemos ao desejo do cliente. Afinal, a casa tem que ter a cara e a personalidade de quem vai morar nela, nosso papel é transformar esse sonho em realidade com a personalidade do cliente, bom gosto e conforto.

Como os clientes recebem isso? 
Às vezes se assustam, mas quando mostramos a harmonia que existe entre as cores se encantam, mas temos aqueles que não se adaptam, então fazemos como eles preferem. Sempre o cliente em primeiro lugar.

Ano passado, começaram a fazer filmes mostrando alguns trabalhos do escri- tório. Falem um pouco disso.
Todo profissional tem que estar em constante mudança e atualização. Temos quase 40 anos de experiência, isso não significa estar parada no tempo, muito pelo contrário, quer dizer que agregamos experiência, cultura, bagagem, isso é valor para qualquer profissional, e juntamos tudo isso às novas tecnologias e tendências de mercado. A bola da vez é se mostrar, é falar diretamente com as pessoas, porque passa mais credibilidade. E o vídeo traz essa modernidade. Precisamos estar presentes nas novas mídias, faz parte da comunicação atual. Escolhemos a fazenda, que sonhamos fazer um trabalho diferente ali, com um cliente que sempre nos escutou e foi um trabalho de anos, bastante gratificante. Foi uma ótima maneira de mostrar nosso trabalho. Temos um escritório de muitos anos, mas que é atual, com jovens compondo nossa equipe, e essa troca de conhecimentos é fundamental.
 
Vocês valorizam e incentivam o uso da arte e mostram para o cliente a importância de investir nela. Sempre fizeram isso?
A arte nos surpreende, e acreditamos que um lar tem que surpreender sempre quem mora e quem visita. Sempre tentamos introduzir a arte nos nossos clientes, sim. Arte boa tem sempre o seu lugar, usamos, na maioria das vezes, a arte contemporânea, e geralmente são telas. Infelizmente, o mineiro tem um pouco de resistência com escultura. Os clientes mais jovens já gostam mais das fotografias.

Vocês usam muitos móveis de designers brasileiros em seus trabalhos. Quem vocês destacam?
Encontramos no design a maneira única de expressar nossa identidade artística. Ele nos motiva, e nada melhor do que um design que representa nossa cultura e nossas raízes. Podemos destacar Jorge Zalszupin, Sergio Rodrigues, Carlos Motta, Niemeyer, Joaquim Tenreiro, Zanine Caldas, entre muitos. Um marco de valorização do mobiliário de design brasileiro foi a abertura das lojas Espasso nos Estados Unidos – uma em Nova York e outra em Los Angeles, que só vendem móveis brasileiros. Hoje, já têm loja em Miami e em Londres. O hotel Four Seasons, de Nova York, passou por uma reforma, e todas as cadeiras são de designers brasileiros. Isso é um sucesso.

A Feira de Milão virou referência. Isso não padronizou muito a decoração? 
Depende do olhar do profissional. Nosso propósito é ajudar o cliente a realizar o seu projeto de forma personalizada e inesquecível, por isso os projetos são diferentes, com personalidade. Cabe ao decorador imprimir esse diferencial em seu trabalho. Mas não podemos negar que padronizou sim.

O que dá para tirar de proveito dessas mostras, sem perder a personalidade nos projetos? 
Sempre agrega. O design, tendências, cores, ambientação, arte, tudo que envolve uma mostra, inclusive os eventos paralelos.

Vocês participam de várias mostras de decoração aqui em Minas. Dá retorno de clientes ou vocês fazem mais pelo institucional do escritório?
A nossa participação em mostras fez toda a diferença, fizemos sete mostras na Casa Cor, como vitrine, e daí os clientes passaram a nos valorizar mais como profissionais. Além dessas mostras, participamos também de concursos, palestras e temos publicações em revistas.

Como foi o trabalho no ano passado, com a pandemia e o isolamento social? 
2020 foi marcado como um dos mais desafiadores para a nossa história. Aprendemos a ressignificar a forma como trabalhamos, passamos a estar mais conectadas, mas, sem dúvidas, não perdemos o nosso maior combustível, que é o amor pelo que fazemos. Foi muito difícil no início, mas aos poucos fomos nos adaptando e nos reinventando, e descobrimos uma nova maneira de trabalhar. E parece que vai continuar assim por mais um tempo. O mundo mudou, a maneira de trabalhar também. Vivemos mais dentro de casa e o olhar do cliente para seu lar também mudou.

Quais são os planos de vocês?
Queremos realizar novos projetos e queremos focar na arquitetura em 2021, e trabalhar de forma mais direta com as construtoras. Também pretendemos continuar nosso trabalho nas redes sociais, mostrando o que fazemos, porque o resultado alcançado em 2020 foi muito positivo, e é um trabalho sem volta. Mas não queremos perder nossa essência, que é dar curadoria para o nosso cliente. Fazer não apenas uma decoração indo na loja e comprando, mas buscar algo diferente para o cliente. Esse sempre foi nosso objetivo e queremos investir cada vez mais nisso. E nos modernizar e atualizar cada vez mais, sem perder a nossa essência e no que acreditamos. 


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