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Estado de Minas ENTREVISTA/RICARDO VALADARES GONTIJO VALLE

Criaturas enigmáticas ganham vida nas histórias criadas por menino de 10 anos que se lançou como escritor

Cacá lançou o segundo livro, 'Necromance e a conquista do planeta dos dragões' durante a 19ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro


postado em 08/09/2019 04:00 / atualizado em 05/09/2019 16:30

(foto: Lucas Coelho/Divulgação)
(foto: Lucas Coelho/Divulgação)


De um dia para o outro, ele apareceu com o primeiro livro pronto. O texto, já completo, estava escrito a mão em um caderno. Ricardo Valadares Gontijo Valle, chamado também de Cacá, de 10 anos, surpreendeu até mesmo a mãe. Em uma família de engenheiros, ninguém esperava encontrar um menino com talento para escrever. Para ele, números só se for para contar os livros que planeja lançar até o fim da vida. Numa conta rápida, chegou à soma de mais ou menos mil. Mineiro de Belo Horizonte, Cacá sempre gostou de se envolver com tudo o que estimula a sua imaginação, seja museu, livraria, biblioteca, cinema ou teatro. Dono de uma curiosidade aguçada e uma criatividade que ultrapassa os limites do real, o menino se voltou para as histórias de ficção, pensando na liberdade de transferir o que tiver vontade para o papel.

Entre tantos personagens descritos no primeiro livro, O bestiário das criaturas, todos com nomes enigmáticos e poderes destruidores, o seu favorito é Shi Tzu Ctrax, “um criminoso de escala cósmica”. Mas o escolhido para ser protagonista do segundo livro é Necromance, “o primeiro ser que existiu no universo”. Cacá lançou Necromance e a conquista do planeta dos dragões no último fim de semana, durante a 19ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Lá, também apresentou ao público (a maioria crianças e adolescentes) a edição atualizada da obra anterior, que ganhou novos personagens. Já confortável com a carreira que escolheu, o menino encara com naturalidade as sessões de autógrafo e sonha com o dia em que será reconhecido como “o maior escritor do mundo”.
 
Você sempre gostou de ler e escrever?
Sim. Quando a minha avó me ensinou a ler, tinha uns dois ou três anos. Eram livros sobre Paris, Veneza, Roma, lembro também dos que mostravam meios de transporte. Sempre a chamava para ler para mim. Ela tem uma biblioteca cheia de livros na casa dela e me incentivou muito a ler. Gostava muito dos livros de mitologia, sobre Grécia e Roma.

De onde vem a sua inspiração?
Filmes, livros e quadrinhos, como Star Wars, Harry Potter e Desafio Infinito, da Marvel. Também adoro fazer teatro. Gosta de encenar e entrar no personagem. Às vezes, tinha aulas em casa com os meus amigos, mas agora fico encenando comigo mesmo. Faço do meu jeito, que é melhor que o do professor. Coloco mais encenação, mais ação, e dá certo. Gosto de viver o personagem.

O que você mais gosta de escrever?
Gosto de escrever sobre ficção. Na ficção, posso criar qualquer coisa.

Você imaginava publicar um livro tão cedo?
Sim, imaginava. Estava fazendo uma encenação e pensei: porque isso não vira um livro? Sim, um livro! Aí dei o livro para a minha mãe e ela gostou. Escrevi a mão.

Onde você prefere escrever?
Pode ser em qualquer lugar e em qualquer horário. Até no aeroporto eu crio. Sempre ando com um caderno e uma caneta e vou anotando as ideias.

De onde vem personagens?
Vem da minha mente. A minha mente não tem limites.

De onde surgiram os nomes dos personagens?
Comecei a escrever letras aleatórias e fui criando os nomes. Inventei, por exemplo, Mordonac, que é um demônio dos mares, com nove cabeças. Ele faz redemoinhos ao redor da boca para afundar navios e guarda o maior tesouro do rei Teres. Alguns nomes são conhecidos, como Minotauro. Fiz o personagem exatamente igual à mitologia, um cara com cabeça de touro que vive num labirinto na ilha de Creta.

Como você descreve o lugar onde essas criaturas vivem?
Pode ser em qualquer lugar nos infinitos universos. Podem existir um, dois, um milhão ou infinitos de cada personagem. Alguns são únicos, como Necromance e Shi Tzu Ctrax, mas não posso falar, senão vou dar spoiler.

Os dragões-serpente são maioria em O bestiário das criaturas (sete no total). Por que criar tantas espécies desses seres?
Na verdade, criei um monte de dragões, só que queria que eles fossem mais esguios, para que ficassem mais diferentes. Então, essas criaturas são uma mistura de dragão e serpente. Alguns voam, rastejam, outros podem entrar debaixo da terra.

Com qual personagem você mais se identifica?
Com o Shi Tzu Ctrax, um dos primeiros que criei. Tinha uns cinco anos, só que na época ele era ridículo, basicamente igual ao Darth Vader. Aí criei novas ideias até ele virar o que é hoje. O Shi Tzu Ctrax corre super rápido, lança raios, pode andar através do tempo e tem uma espada que corta qualquer coisa. Depois ele vai pegar as oito joias do poder, matar o Necromance, ficar muito poderoso e dominar o universo inteiro. Mas isso é um livro futuro.

O autor aponta Shi Tzu Ctrax como o seu personagem favorito(foto: Reprodução)
O autor aponta Shi Tzu Ctrax como o seu personagem favorito (foto: Reprodução)

Por que você escolheu contar a história do Necromance no segundo livro?
Porque o Necromance é um personagem bom, as pessoas iam gostar dele. Mas ainda não posso apresentar do jeito que ele é, primeiro tenho que criar os livros sobre o nascimento da velocidade, a ascensão do gelo, a origem do ninja negro, a estratégia suprema. Depois ainda tenho que fazer a saga da corrida do ouro e a saga da dominação total vermelha, cada uma com sete livros. Só depois disso que vem o livro sobre a origem verdadeira do Necromance. O Shi Tzu Ctrax também não é o que parece, vai acontecer uma coisa terrível com ele. Só posso te revelar quando lançar a segunda edição da saga Com as oito tudo posso, que fala sobre as oito joias do poder, uma das melhores sagas para mim, senão a melhor.

Quantos livros você planeja lançar?
Um dia posso pensar em mil livros, então o resto do trabalho vai ficar para o meu filho. Espero que até morrer já tenha lançado a saga Com as oito tudo posso. Para chegar lá, preciso escrever uns 50 livros. Vai ser difícil chegar no fim da saga, mas esse é o meu objetivo.

Necromance é o personagem principal?
Só até Shi Tzu Ctrax matá-lo.

Qual deve ser o seu próximo livro?
Primeiro tenho que terminar a saga do Necromance, então, provavelmente, o terceiro livro será Necromance e a demonição do reino tecnologia. Agora que vou começar a pensar nele. Já sei a história de mais de mil livros de cor, mas ainda não escrevei. Por enquanto, faço mistério sobre quem vai aprisionar o Necromance, mas eu já sei. Alguém vai aprisioná-lo na prisão infernal suprema, onde ele vai ficar preso em seis universos paralelos. Vai ser quase impossível resgatá-lo, cada parte do corpo dele vai estar em um lugar. Cabeça de um lado, braço do outro, perna do outro e a bariga no inferno. Até que alguém, que não posso falar quem, vai resgatá-lo.

Já pensou em fazer um jogo baseado nos livros?
Sim, já estou criando um jogo com esses personagens, no estilo do War (jogo de tabuleiro de estratégia, com o objetivo de conquistar territórios).


No primeiro livro, você descreve as oito joias do poder. Qual gostaria de ter?
A joia da morte. Vamos supor que um colega me irritou, é só falar agora você não existe mais, está morto. Ah, tive uma ideia melhor, prefiro a joia da destruição. Se algo me irritou, vou lá e pulverizo. Posso pulverizar a televisão se o programa estiver chato. O único problema é que a joia da destruição não pode destruir matéria orgânica.

O que te irrita de verdade?
Fazer prova. É um saco ficar lá duas horas sentado, não termina nunca. Então, quando tivesse prova, usaria a joia do caos. Ia desfigurar a prova e todas as respostas apareceriam.

E as ilustrações, também saíram da sua cabeça?
Sim, passei para o ilustrador todos os detalhes. Tudo veio da minha cabeça. Mandava mensagem falando para ele fazer de tal jeito, está legal, tem que melhorar isso, pode colorir mais.

O que achou do resultado?
Ficou ótimo no fim, mas demorou muito. A ilustração que gosto mais é do Shi Tzu Ctrax. Ficou muito parecida com a minha figura de Lego.

O que você está achando de dar autógrafo?
Já dei uma vez em Belo Horizonte, agora no Rio de Janeiro, e ficou ótimo. Acho muito legal poder escrever no livro de alguém. Só coloco o meu nome escrito com carinho.

O que as pessoas falam para você sobre os livros?
Falam que o livro ficou ótimo e que já querem o próximo. A maioria são meninos da minha idade, meninas também, mas tem muita gente mais velha que gosta de ler.

De que forma você tenta incentivar os meninos da sua idade a ler?
Falo que é bom escrever também. A minha dica é escrever o que está pensando, e não o que as pessoas falam para você escrever.

Em qual escritor você se espelha?
Não tem nenhum específico.

Além da sua avó, Ana Lúcia, você agradece no livro a outras pessoas. Quem são elas?
A minha mãe, que me incentivou muito. Quando mostrei o meu primeiro livro, ela ficou apaixonada e falou que queria publicar. Léo Acurcio me ajudou muito, ele me dava muitas ideias. Alair foi o senhor econômico, ele que investiu dinheiro em mim. Também tenho que agradecer pessoas do teatro que me ajudaram muito, Davi Coperman, Davi Maciel e Vinícius Vianelo.

O que pensa para o futuro?
Me imagino numa sala e um tanto de gente chegando, tirando foto e falando: ele é o maior escritor do mundo, o mais incrível de todos. Além disso, penso em fazer algum curso, mas ainda não sei qual.
 


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