Continue lendo os seus conteúdos favoritos.
Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Criadora de arte, realizadora de sonhos

Mineira que conquistou o mundo com sua arte ainda dança aos 90 anos


postado em 12/05/2019 05:06

(foto: Maurício Maia/Divulgação)
(foto: Maurício Maia/Divulgação)

A mineira Maria Ângela Abras Vianna, mais conhecida como Angel Vianna, desde menina queria ser artista. Perfeccionista, tudo o que fazia era da melhor forma possível: excelente aluna, ótima pianista, exemplo de filha e muito boa escultora. Porém, era inquieta. Sabia que queria mais e foi na dança que se descobriu. Começou no balé clássico e foi ali, driblando a família, que encontrou seu caminho e voou tão alto que criou seu próprio estilo. Do balé clássico passou para o balé moderno e para a dança contemporânea. Da expressão corporal, como era chamada nos anos 1970, para a Metodologia Angel Vianna/MAV. Hoje, possui uma faculdade de dança que leva seu nome, que terá até mestrado. Está com uma exposição sobre sua vida no Rio de Janeiro e em breve será lançado um livro sobre ela. Foi casada com um dos ícones da dança no Brasil, o também mineiro Klauss Vianna.

Como era sua família?

Sou a terceira filha entre quatro, Violeta, Nicolau e a caçula Wadia Alice. Como na maioria das famílias libanesas, minha mãe Margarida se casou com o primo Nicolau Elias Abras, tudo em família. A família Abras trabalhava no ramo de tecidos, tínhamos uma no Centro da cidade, a Loja Abras e Cia, na Rua dos Caetés.

O que gostava de fazer quando era criança?
Desde criança, tinha muita necessidade de arte. Uma das coisas que realmente lembro era que tocava piano com o professor Francisco Masferrer, um excelente professor de piano. Queria ser uma belíssima concertista! Tudo na minha ideia foi sempre querer ser alguma “coisa” além da técnica, queria ser uma artista.

Gostava de estudar?

Muito. Tentei fazer tudo da melhor maneira. Na parte do piano, o que mais aprendi foi justamente a ouvir. Em cada coisa que estudei, busquei conhecer a importância daquilo que estava fazendo e o porquê.   Fui uma aluna dedicada. Fiz os primeiros estudos no Grupo Afonso Pena. Em seguida, segundo a tradição na época, estudei em regime de internato para meninas no Colégio Santa Maria, de freiras dominicanas.  Nessa época, por gostar muito do colégio, cheguei a desejar ser freira... Depois, estudei em um colégio misto, o Instituto Padre Machado, onde conheci Klauss (Vianna). Lembro com muito carinho do grande mestre Otto Lara Resende.

Quando percebeu que gostava de dança?
Quando saí do ginásio e fui estudar dança. Apareceu uma professora de dança em Belô (Belo Horizonte), que veio acompanhando o marido, o maestro Arthur Bosmans, e me matriculei.

Seus pais apoiaram ou enfrentou oposição? Como lidou com isso?

No início, foi tudo escondido, pois esse negócio de dança, bailarina, não existia na minha família, existia uma boa pianista. E para burlar a vigilância do meu pai fazia aulas escondida, com a desculpa de que iria fazer ginástica acompanhada de um amigo da família.

Como foi estudar com Carlos Leite?
Foi fantástico! Muito especial. Começamos em 1948, a primeira turma do Carlos Leite do Ballet Minas Gerais. Fiquei fascinada pela dança. Foi assim que começou a se formar a primeira turma, eu, Vítor, Klauss Vianna, Dulce Beltrão, Sigrid Hermany... Com Carlos Leite aprendi a amar a dança. E a pessoa que mais me acompanhava nas aulas era a Marilene Martins, a Nena, minha grande amiga, não só da dança, mas da vida.

Você é da dança livre, moderna e contemporânea. Como foi aprender o balé clássico?
O balé clássico foi o início de tudo. Eu me divertia muito. Não imaginava que seria capaz de fazer um trabalho tão perfeito nesta técnica, mas, quando estudo algo, quero aprender de verdade. Era muito importante entender o balé, saber o por quê das coisas. O Carlos Leite foi fundamental na minha vida. Mas não imaginava o tanto que a minha dança iria mudar: do balé clássico para o balé moderno e a dança contemporânea. Da expressão corporal, como chamávamos nos anos 1970, para a Metodologia Angel Vianna/MAV. É um conhecimento que tem a ver com a percepção da estrutura óssea, da pele, a grande liberadora de tensões e os sentimentos, uma percepção da totalidade do corpo.

Como foi a aceitação deste novo estilo de dança?

Nosso trabalho, meu e do Klauss, nos anos 1970, aqui no Rio, era conhecido como expressão corporal. No meio da dança fomos chamados de “os intelectuais da dança” e o meio da dança tradicional, ou seja, do balé, não considerava o que fazíamos como dança, era uma “não-dança”. O período de estranhamento maior foi nesta fase, basicamente dos anos 1970. Estávamos inovando, tanto no campo da dança quanto no teatro. Colaborei muito com o campo da saúde e principalmente da saúde mental. Vale ressaltar que, na década de 1980, foi criado o curso técnico em bailarino contemporâneo e, no início da década de 1990, o técnico em reeducação motora e terapia através da dança (uma das grandes inovações da Escola Angel Vianna). Esse curso foi pioneiro na formação de bailarinos que se inseriram na área da saúde, com posto concursado na rede Sarah Kubitschek, por exemplo. Esses cursos faziam parte da Escola Angel Vianna (1985), que hoje faz parte da Faculdade Angel Vianna. Na década de 1980, passei a chamar meu trabalho de Conscientização do Movimento e Jogos Corporais. O que hoje, no século 21, é conhecido como Conscientização do Movimento e Jogos Corporais: Metodologia Angel Vianna.

O que levou você a fazer belas artes?
Entrei para a escola do Guignard porque as artes me fascinavam em geral. Era no Parque Municipal, bem livre. Tinha o Franz Weissman que dava escultura, o Guignard com pintura e outras tantas pessoas, como o Sansão Castelo Branco... eu adorava a escultura. Fiquei encantada com o trabalho das mãos na escultura e uma frase do Weissman me marcou para sempre, quando perguntei a ele: “Professor, o senhor me ensina a fazer escultura?” E ele respondeu: “Não, Angel, vou te ensinar a utilizar o material para que você faça o seu próprio trabalho, porque a escultura quem faz é você...”

Qual o estilo de escultura que você faz?
Em barro e argila, com o molde de cimento, ferro e madeira. Para a sustentação, punha-se uma parte de madeira. Veja só, o primeiro trabalho que fiz na escola de belas artes e que foi premiado no 1º Festival Universitário de Arte foi um pé de bailarina, com todos os músculos possíveis e imagináveis de uma colega de dança do Carlos Leite. Porque achava o pé dela firme, com uma “batata da perna” forte. Já tinha um trabalho anatômico na escultura e queria aprender mais sobre isso, um trabalho de tocar, de saber como se move.

Como e quando conheceu o Klauss?
Conheci Klauss quando estudei em um colégio misto, o Instituto Padre Machado, na década de 1940. Depois, nos reencontramos nas aulas de balé do Carlos Leite e, em 1955, nos casamos. Éramos grandes amigos, de uma amizade profunda, de contar tudo. Foi tão forte que virou casamento.

Foi difícil a decisão de abrir o Ballet Klauss Vianna?
A Escola Ballet Klauss Vianna foi o início de tudo. Participei ativamente da criação da escola e do Ballet Klauss Vianna (1959-1963), onde assumi diversas funções: dei aulas, dancei, coreografei, administrei, criei figurinos. O momento mais marcante foi quando dancei Neblina de Ouro (1959) de Klauss. Uma coisa muito especial. Me lembro de um sentimento tão forte ao dançar – que me fez chorar em cena –  junto com o público que assistia (inclusive minha mãe).

O que levou vocês para a Bahia?
Durante o 1º Encontro de Escolas de Dança do Brasil, organizado por Paschoal Carlos Magno, em 1962, em Curitiba, levamos o pas-de-deux “Marília de Dirceu” (em que eu dançava) e uma aula-demonstração com dez alunas (de 10 a 16 anos) da nossa escola em Belô. Foi uma aula com Klauss e a musicista Susy Botelho. E o Rolf Gelewsky, então diretor do curso de dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fez uma proposta de irmos para Salvador para lecionarmos balé clássico, a partir da nossa pesquisa do movimento. Era um convite bastante interessante, trabalhar numa universidade, mas tínhamos que largar nossa escola em Belô e o Balé Klauss Vianna, que tinha conquistado o prêmio de “Melhor Personalidade Artística do Ano” de 1961. O Rolf me convidou para a companhia dele (Grupo Juventude Dança). A Bahia foi fantástica. Estar lá, aprofundar os estudos com a música, a parte anatômica, o contato com a capoeira, o candomblé. Mas, depois de dois anos, na hora de assinar o contrato, comecei a perceber que Klauss não conseguiria dar continuidade à sua pesquisa coreográfica. E a Nena (Marilene Martins), que já estava no Rio de Janeiro, foi a pessoa que mais me estimulou a conhecer a cidade de perto. Fiquei muito curiosa.

Como foi o recomeço no Rio de Janeiro?
Me deu uma curiosidade de vir para o Rio, não uma curiosidade à toa. Desde a infância, o Rio me surpreendia de tanto o meu pai falar que era uma cidade perversa. Ele não me deixava vir aqui sozinha, apenas com pessoas da família.

Como foi a abertura do Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação?
Em 1975, já tinha estourado um bom trabalho da “expressão corporal” e o Klauss falou sobre abrir uma escola onde pudesse desenvolver esse trabalho. Junto com Tereza D’Aquino, abrimos o Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação, em Botafogo, a primeira escola no Rio de Janeiro. Chamavam, na época, de “O corredor cultural do Rio de Janeiro”.

O Grupo Teatro do Movimento começou com o Grupo Brincadeiras, em 1975, formado por pessoas que acompanhavam as minhas aulas de expressão corporal, desde a época em que trabalhava no estúdio de Tatiana Leskova. A segunda formação já foi a do Grupo Teatro do Movimento – que realizou a pesquisa “Significado e função de uma linguagem gestual” entre 1977 e 1978, investigando o gestual do carioca em escolas, academias, comunidades e espaços urbanos. Queria muito retomar o grupo de Belô (o Ballet Klauss Vianna). Foi à convite do secretário de cultura, Paulo Afonso Grisolli, que formamos o grupo. Foi o início do movimento da dança contemporânea aqui no Rio, com obras marcantes como a coreografia “Domínio Público”, de Oscar Araiz, em 1976, que recebeu o prêmio de melhor coreografia no Concurso Nacional de Dança da Bahia. Coreografei “Construção”, em 1978, com música do Egberto Gismonti. Era a construção da vida, do ser humano, do espaço, da música, da própria dança brasileira. Essa história será contada no livro “Grupo Teatro do Movimento: um gesto expressivo de Klauss e Angel Vianna na dança brasileira” escrito por Marina Magalhães (doutoranda na Universidade de Lisboa) e Joana Ribeiro (professora da Unirio, que publicou um livro sobre o Klauss), com lançamento ainda este ano, durante o Seminário da Faculdade Angel Vianna, em setembro, no Rio.

Como foi perder um companheiro de vida e de trabalho?
Prefiro não falar sobre esse assunto. A passagem de Klauss Vianna, vítima do coração, foi uma perda grande para todos.

Como foi o processo de fundação da sua faculdade?
A Faculdade Angel Vianna abriu em 2001, com os cursos de bacharelado e licenciatura plena em dança. Setenta alunos se inscreveram no primeiro vestibular e duas turmas foram compostas, em sua maioria, por ex-alunos e professores da escola. Hoje temos cerca de 300 alunos, 200 na graduação e 100 nas pós-graduações (lato sensu). Vem gente do Brasil todo e do estrangeiro para estudar na FAV. Hoje em dia, temos egressos atuando em cursos superiores em dança em várias universidades nacionais e no exterior. Quem me ajudou muito neste processo, as grandes colaboradoras para a criação da Faculdade Angel Vianna foram: Dulce Aquino (UFBA), Julieta Costa Calazans (Uerj), Helena Katz (PUC/SP), Ausonia Bernardes (Unirio) e Ângela Ferreira (UCAM). Atualmente, a FAV está sob a vice-direção de Márcia Feijó e coordenação de graduação de Ana Bevilaqua.  Durante este processo, foi muito importante ter recebido o título de “Notório Saber” em 2003, pela UFBA.

Quais os cursos você oferece?
Oferecemos dois cursos de graduação (bacharelado e licenciatura plena em dança) e seis de pós-graduação/especialização: corpo, educação e diferenças; preparação corporal nas artes cênicas; sistema Laban/Bartenieff; terapia através do movimento; danças de salão e a metodologia Angel Vianna/MAV. Temos ainda dois cursos técnicos em bailarino contemporâneo e em reeducação motora e terapia através da dança. Afora cursos livres e oficinas. Temos um site novo, que vale a pena ser visto: www.angelvianna.com.br.

Ainda dá aulas?
Sim. E também danço muito. O que precisar fazer eu faço. Gosto muito de criar aulas novas. Aulas em que descubro o corpo, porque gente é como nuvem, sempre se transforma. Estou sempre inventando coisa nova.

De todos os trabalhos que fez, qual você destaca?
Difícil escolher um trabalho, cada um é cada um e especial. Todos os trabalhos foram importantes, como: “Movimento Cinco: Mulher” (1987), coreografia de meu filho Rainer Vianna; “Divina Comédia” (1991), de Regina Miranda; os solos “Angel, Simplesmente Angel” (1997) e “Memória em Movimento (1998); “Inscrito” (1999), de Paulo Caldas; “Impromptus” (2002) e “A Tempo” (2007), de Alexandre Franco; “Qualquer Coisa a Gente Muda” (2010), de João Saldanha; “Ferida Sábia” (2012), de Ana Vitória; e “O Tempo Não Dá Tempo” (2018), de Duda Maia. Em 2016, estreei o espetáculo “Amanhã é outro dia”, dirigido por Norberto Presta, com a colaboração de Andréa Elias, onde conto um pouco da minha vida. Tem também filmes como “Em três atos (2015), de Lúcia Murat, e “Figuras da Dança: Angel Vianna”(2010), de Inês Bogéa e Moira Toledo, e os novos filmes que estão sendo lançados, como “Angel Vianna, voando com os pés no chão”(2018), direção de Cristina Leal, e “Movimento do Invisível”, de Flávia Guayer e Letícia Monte, produzido pela Espiral, com estreia no canal Curta, no segundo semestre deste ano. Adoraria se a exposição do Itaú Cultural e os filmes fossem exibidos em Belo Horizonte.

Como se sente com a exposição que abriu dia 9, no Paço Imperial, que é uma mostra de toda sua vida?

Estou muito feliz. É a continuidade da Ocupação Angel Vianna, uma iniciativa do Itaú Cultural São Paulo, em 2018, só que agora aqui no Rio, no Paço Imperial. A curadoria foi da coreógrafa Ana Vitória, que lançou minha biografia  em 2005. Na exposição, a minha trajetória na dança brasileira é contada a partir da família, escolas, pedagogia, parte criativa, tudo que fiz nestes 90 anos. A exposição traz momentos importantes da minha vida, com muito material de vídeos, fotos, documentos, esculturas, desenhos, pinturas, cartas, textos e manuscritos do meu acervo pessoal.

Tem algo que ainda gostaria muito de fazer?
Sim, várias. No momento, estamos preparando um mestrado profissional em dança na Faculdade Angel Vianna. Um sonho que se realiza. Gostaria de agradecer a todas as pessoas que vêm colaborando comigo há tanto tempo e dizer como o ser humano é único e especial.


Publicidade