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Estado de Minas

Brasil mostra o seu talento

Estilista cearense que decidiu subverter a moda masculina representa o país em mostra na Inglaterra que lança novos nomes espalhados pelo mundo. Exposição vai até o dia 24


postado em 10/02/2019 05:04

Ruanda(foto: thais mesquita/divulgação)
Ruanda (foto: thais mesquita/divulgação)



Não há fronteiras para a moda brasileira. Que o diga o cearense David Lee, de 27 anos, selecionado para participar da sétima edição da mostra International Fashion Showcase (IFS), em Londres, que tradicionalmente apresenta novos talentos ao mundo. A partir de amanhã, o público poderá visitar a exposição com o trabalho de 16 designers dos cinco continentes, do Canadá ao Sri Lanka. Estilista autodidata, o representante do Brasil propõe um novo olhar para a moda masculina.
Nascido em Fortaleza, David se prepara para mostrar no centro de artes Somerset House uma moda casual que combina referências de sportwear, alfaiataria e militarismo. As peças se diferenciam com recortes localizados, bolsos aparentes, estampas e muitas cores. “Faço uma roupa bem dinâmica, em que consigo desde algo básico até extrapolar para o experimental”, detalha. “Geralmente, trabalho com tons mais vibrantes e solares, que representam a marca. O amarelo é bastante marcante e aparece misturado com pink, vermelho e laranja.” Interessado em contrastes, ele utiliza tecidos pesados como sarja a tramas mais delicadas como o crochê.


Pela primeira vez, os candidatos do IFS tiveram que enfrentar uma seleção rigorosa, que durou quatro meses (até então, todos recebiam convites via embaixada). Isso porque a proposta do projeto agora é, de fato, identificar nomes que estão ajudando a construir o futuro da moda, e não apenas escolher representantes dos países. “A Inglaterra tem uma vinculação forte com uma moda jovem experimental. Se eles escolhem um representante brasileiro, é porque enxergam a nossa potência dentro de um leque de criadores atuais”, comenta Eduardo Motta, curador da exposição de David.


Os organizadores também mudaram a forma de apresentação dos trabalhos. Cada designer tem que ocupar uma sala com uma instalação que mistura roupas e outros elementos representativos do seu país. A exposição brasileira, de nome Suspensão, reúne sete looks suspensos e envolvidos por uma estrutura inspirada na imagem de um barco em construção em um estaleiro. A iluminação, em tom alaranjado, acende e apaga sem parar. “A ideia é apresentar, de forma expressiva, o universo do David e traduzir a potência do seu trabalho, que é local e global, industrial e artesanal”, acrescenta Motta.


O crochê surge naturalmente como protagonista. “Primeiro, para reforçar a ótica de ressignificar a moda masculina utilizando algo delicado do universo feminino. Depois, porque é o que me define como cultura, tem muito a ver com o meu estado”, justifica o cearense. As peças que evidenciam o trabalho manual, incluindo casaco, colete e jaqueta, foram desenvolvidas em parceria com a artesã Cristina Maia. David conta que elas são bem volumosas e remetem aos conceitos de amplitude e conforto. Algumas demoraram mais de uma semana para sere finalizadas.


Há algum tempo, o estilista tenta dar mais destaque ao crochê em suas coleções. David aproveita a exposição em Londres para mostrar que não quer que ele apareça apenas nos detalhes, e sim numa peça inteira. Além de suéter, a marca com sede em Fortaleza já lançou regata, camisa de manga longa e top.


No fim das contas, o trabalho do cearense ultrapassa os tecidos. Não fala apenas moda, mas do que se espera do homem de hoje. Através da roupa, David quer apresentar novos referenciais de masculinidade e ajudar a construir novos comportamentos. “Penso em um homem sensível, moderno, livre, muito decidido e seguro. Que usa a roupa como afirmação e entende que ela não vai interferir na sua sexualidade”, analisa. Por enquanto, a maioria dos clientes estão no eixo Rio-São Paulo, mas ele já tem planos de abrir mercado por aqui (inclusive, participar do Minas Trend).

AUTODIDATA David cresceu vendo a avó costurar, mas não imaginava que seria estilista. Na época do vestibular, dividido entre moda e arquitetura, ele acabou se apaixonando pelo trabalho com roupas. “Acabei não entrando na faculdade e me construí autodidata. Fiz curso de desenho de moda no Senac e comecei a participar de concursos de novos talentos, que me colocaram de frente com as particularidades da roupa, como modelagem e costura”, detalha o cearense, que se orgulha de ter sido finalista em seis competições. Por ter vencido o Prêmio Novos Talentos GQ + Reserva, ele lançou no mês passado uma coleção cápsula para a marca de moda masculina.


Consultor do Senac em Porto Alegre, o mineiro Eduardo Motta conheceu David quando escrevia um livro sobre alfaiataria e não pensou duas vezes em indicá-lo para a seletiva do IFS. Focado em descobrir talentos locais que tenham potencial de linguagem global, ele enxerga que o cearense tem uma visão de contemporaneidade na moda muito precisa. “Sempre falo que o David conhece a base do trabalho, mas consegue ir além para criar uma linguagem própria. Ele surpreendeu todos nós pela dimensão que deu ao crochê. É algo exuberante, com um colorido forte, volume e pontos incríveis”, destaca. A participação do Brasil na mostra tem o apoio do Senac Ceará.


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