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Essa coisa de energia

Usamos desculpas para encobrir preconceitos e ideias passadas


postado em 13/01/2019 05:06

 

 

Tenho como compromisso coordenar um brechó beneficente todo final de ano. Já em janeiro começamos a pedir, recolher e receber peças de todo tipo para serem vendidas normalmente  em novembro. A cada ano me apaixono mais por essa atividade e descubro o quanto nós guardamos relíquias em nossos armários que para nós já não têm muita graça e função, mas que nas mãos de outros viram preciosidades. Com o passar dos anos eu mesma aprendi a selecionar e a comprar peças por onde vou. Não há uma única viagem que eu faça na qual eu deixe de incluir em meu roteiro os brechós do lugar.              
Da última vez, passei umas semanas na Inglaterra, mais precisamente em Brigton, uma cidade ao Sul de Londres para onde se vai em 50 minutos de trem. Em suas principais ruas existem várias lojas que comercializam peças de segunda mão, a maioria delas mantidas por entidades beneficentes como Cruz Vermelha e voluntários que assistem hospitais infantis e de câncer. Bonito o trabalho deles.


 Nota-se isso ao observar o cuidado que se tem com a exposição das mercadorias e a organização das lojas que se encontram em pontos comerciais muito valorizados, ao lado de lojas, de grandes redes e cafés sofisticados.  Quem entra nelas? O mesmo tipo de pessoa que você vê no trem, nos ônibus, nos táxis, nas ruas. Gente vestida de forma bem tradicional, que nossa mania de enquadrar logo chamaria de secretária e executivo ou ainda de madame, assim como pessoas vestidas de maneira descontraída e arrojada. Como numa loja dessas é possível se ver de tudo para todo gosto, todo mundo pode encontrar algo que agrade por preços mais agradáveis ainda. Mas para isso é preciso ao menos entrar lá e vasculhar o estoque.       


Digo isso porque numa destas investidas me lembrei de uma amiga que me disse que não usa roupa usada porque tenha preconceito, mas porque acredita muito “nessa coisa de energia”. “Tenho medo da energia que vem com a peça.  Às vezes a pessoa que usou tinha energia ruim, sabe?”. Claro que sei, também acredito muito “nessa coisa de energia”, mas na minha, pensei e explico.       

 
 Qualquer um de nós percebe quando alguém muito negativo, deprimido, se aproxima. Nos incomoda. Incomoda entrar numa casa fechada, escura, cheia de entulho, desorganizada, suja. Aquilo tudo nos pesa a vista, arrepia a pele. Assim como nos sentimos bem ao entrar numa casa arrumada, onde entra a luz do sol, na qual vivem pessoas que, apesar de seus problemas e tristezas, são positivas e otimistas. Quando a energia é boa todo mundo     quer ficar por perto. Mas não são as peças nem as casas que produzem e alimentam a energia aconchegante ou repugnante.  


Se soubéssemos quem são todos os que nos antecederam nos quartos de hotel, nas mesas de restaurantes, todos os que antes de nós experimentaram as roupas que compramos em lojas renomadas, todos os que alugaram os carros que usamos em nossas viagens, ficaríamos assustados.


Mas não. Não nos preocupamos com isso porque largamos nossas malas nos quarto de hotel numa alegria tão grande de estarmos ali que nem nos damos conta deste tipo de coisa. Nos reunimos aos amigos nos bares em torno de mesas que teriam muito o que contar numa alegria tão grande que não temos nenhum interesse em ouvi-las.


Estreiamos nossas peças de roupas e calçados nos achando lindos que nem paramos pra pensar numa bobagem dessas. Ao comprar uma casa usada também não apresentamos este tipo de preocupação, mesmo depois de termos assistido a dezenas de filmes de terror que ajudam a alimentar a ideia de que onde morava gente “ruim” se torna assombrado eternamente. Por que então fazemos isso com as roupas? É preciso que se respeite as escolhas e as razões dos outros, sem dúvida. O que leva alguém a comprar ou não uma peça usada, diz respeito apenas à pessoa, a mais ninguém.


A questão que coloco é que nos agarramos a justificativas que muitas vezes mascaram algo muito mais amplo. Usamos desculpas para encobrir preconceitos e ideias ultrapassadas até mesmo para os parâmetros que escolhemos adotar. Fazemos isso muitas vezes por medo de enfrentar a nós mesmos e descobrir que é nossa própria energia que sobrecarrega aquilo que usamos.


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