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Estado de Minas

Moda politizada

Desfile de formatura dos alunos do curso de moda do Centro Universitário Una evidencia desejo da nova geração de levar para a passarela assuntos que precisam ser discutidos


postado em 16/12/2018 05:07

(foto: bruna correa/divulgação)
(foto: bruna correa/divulgação)



Nada pode ser mais verdadeiro que se voltar para a sua realidade. Na 15ª edição do UnaTrendesetters, desfile de formatura de moda do Centro Universitário Una, as roupas não mostravam apenas tendências, mas colocavam em discussão temas que envolvem os estilistas. “Ficou muito evidente que os alunos queriam falar sobre questões que os incomodam, que mexem com eles. Dessa forma, os desfiles soaram quase como um protesto”, define a coordenadora do curso Renata Canabrava.


Não havia um tema definido para o desfile, mas, coincidência ou não, os alunos acabaram expressando questionamentos e desejos através das roupas. Por isso, a coordenadora não tem dúvida de que esta edição do UnaTrendesetters ficou marcada por mostrar uma moda mais politizada. “Esses meninos não estão só preocupados em fazer roupa. Eles voltam o olhar para a sua realidade e se tornam capazes de agir de maneira diferente. Assim, podem mudar o seu entorno. Acho que isso tem potencial para ser muito transformador”, acrescenta Renata.


O hip -hop deu o tom do desfile da marca Breu. “Sempre quis desenvolver um tema ligado à periferia e aos negros, porque nasci nesse meio. A coleção tinha que ter algo a ver comigo”, comenta Brenda Vieira. Mas ela não ficou restrita ao aspecto cultural do movimento. Na passarela, a estilista fez questão de mostrar que o hip hop não era apenas um estilo de música, mas um ato de revolução e protesto, que lutava pelo direito dos negros em um lugar de muita violência.


Brenda utilizou amarelo neon, misturado com preto, para destacar algumas roupas, da mesma forma que o hip-hop chegou para jogar luz na questão dos negros. Já a estampa com marcas de tiros e manchas de sangue fazia uma crítica ao cenário de violência nas periferias. Além disso, Brenda escolheu trabalhar com malha, moletom e outros materiais comuns. “A minha intenção era mostrar aos moradores da periferia que eles podem se vestir bem e com estilo, sem precisar usar roupa de grife”, acrescenta Brenda. A estilista criou até um tecido com faixas refletoras.


Como a marca se identifica com a moda de rua, a modelagem das roupas, incluindo casaco, macacão, calça e blusa, era mais ampla. Apenas um vestido marcava a silhueta.


Criador da Enri.Co, Carlos Henrique dos Santos Júnior também escolheu dar voz aos negros em seu desfile. “Sempre vou falar sobre negros. Já vivi tantos anos apagado, porque não me encaixava no padrão, que, no momento em que tenho voz, quero trabalhar a questão da representatividade”, justifica. O estilista defende que todos devem se sentir representados na moda.


Batizada de Vozes da Resistência, a coleção apresenta uma proposta diferente para a moda masculina, misturando alfaiataria com sportwear. “Quis unir dois mundos – favela e asfalto. Por isso, levo a estampa que retrata uma comunidade para algo muito clássico, como o blazer. Utilizo também cetim de vestido de noiva”, detalha. A estampa de uma das jaquetas deixa em evidência a foto de um morador do Morro do Papagaio que trabalha como gari.

CANOS O estilista privilegiou materiais alternativos, incluindo o plástico, que aparece em uma capa transparente. “Trabalhei muito com vivo nos acabamentos. Dessa forma, faço menção aos canos que ficam do lado de fora das casas nas favelas”, conta. As cores escolhidas (laranja, amarelo, rosa e verde) eram para valorizar a pele dos negros. Não que a marca seja exclusiva para negros, mas Carlos avisa que as suas roupas sempre vão contar um pouco da sua história e do que ele acredita.


Para Vanessa Paiva, da marca Flor de Mandacaru, nada mais autêntico do que falar do Nordeste. Filha de piauiense com cearense, ela decidiu exaltar a cultura dos nordestinos através da roupa. “Falta valorizar mais o Nordeste, que tem uma cultura tão rica. Sou apaixonada pela simplicidade e alegria do povo de lá”, comenta a estilista, que dividiu a criação com a colega Camila Costa.


A coleção se inspira na história de Maria Bonita, desde a infância até a morte, para falar sobre a mulher do Nordeste. Bordados, detalhes em crochê, modelagem com cintura marcada, para reforçar a feminilidade, e o uso de cores do cangaço, como vermelho e bege, se destacaram na passarela.


Entre as peças mais emblemáticas, uma releitura da roupa da cangaceira atingida pelo incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Era um vestido que ela usou no cangaço. Queimamos a barra e os punhos de verdade, fizemos um bolso no formato do prédio destruído pelo incêndio e bordamos com pedrarias na cor de fogo”, detalha. Além disso, as palavras descaso, omissão e negligência foram bordadas na saia como forma de protesto pela destruição do acervo no museu.


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