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Dom e amor pela profissão

A ginecologista e obstetra Cláudia Navarro é a primeira mulher a assumir a presidência do CRM-MG


postado em 25/11/2018 05:06

(foto: gladyson rodrigues/em/d. a press)
(foto: gladyson rodrigues/em/d. a press)



Cláudia Navarro escolheu, aos 13 anos, que queria ser médica apesar de não ter nenhum profissional da área na família. Nunca teve uma segunda opção de curso. Entrou na Faculdade de Medicina da UFMG aos 17 anos e não se considera uma “nerd”, apenas uma aluna aplicada e credita ao Colégio Santo Antônio o seu bom preparo acadêmico. Não se arrependeu em nenhum minuto de sua escolha, e a decisão da especialidade – ginecologia e obstetrícia, com atuação em reprodução humana – ao desejo em ajudar a mulher e o prazer de trazer um filho ao mundo. Ao lado do marido, José Carlos Duarte Lemos, e mais dois sócios, tem a clínica de reprodução humana Life Search. Sempre atuou em instituições de classe, o que a levou a ser conselheira do CRM e eleita e a primeira presidente mulher da representação regional máxima da profissão.

 

De onde acha que veio a referência para ser médica?
Não sei dizer. Minha mãe trabalha no Tribunal Regional do Trabalho, meu pai atuava no comércio. Não tenho nenhum parente direto médico, mas aos 13 anos sabia que queria ser médica, tinha essa certeza e nunca mudei de ideia e nem tive uma segunda opção de cursos. Meus colegas, por exemplo, faziam vestibular para duas áreas, o que mais queriam na UFMG e a segunda opção na PUC. Eu fiz apenas medicina. Se não passasse, tentaria no ano seguinte.

Como tinha tanta certeza tão nova assim?
Desde a adolescência estava focada na medicina. Medicina ou você é ou não é, não existe dúvida em ser médico. Se tiver dúvida, não será um bom médico. Quando tem certeza será um bom profissional. É um dom, você nasceu para a medicina.

Você é de Belo Horizonte? Onde estudou?
Sou nascida e criada aqui. Estudei no Instituto de Educação e depois fui para o Colégio Santo Antônio e aos 17 anos entrei na UFMG.

Entrou muito nova. Podemos dizer que você é uma “nerd”?
Não me considero nerd. Sempre me considerei uma boa aluna e o Santo Antônio é um colégio muito bom, que tinha uma aprovação muito alta na UFMG, por isso não entrava em pânico. Pensava que se o índice de aprovação do colégio na Federal era alto e eu uma boa aluna, acho, que conseguiria passar, e realmente passei aos 17 anos. Nunca pensei em outra carreira.

É casada?
Sim, casei-me com um médico, José Carlos Duarte Lemos, também ginecologista, e tenho um filho, Zezinho Navarro, que nunca pesou em ser médico, fez arquitetura e hoje mora em São Paulo.

Por que escolheu essa especialidade?
A ginecologia porque tem a ver com o feminino, com ajudar a mulher, estudar a mulher, o pensamento da mulher. No começo mais a ginecologia do que a obstetrícia. Mas a obstetrícia também é muito cativante, ajudar as pessoas a virem ao mundo. Em 30 anos de formada, nunca perdi o encanto com isso, quando pego uma criança é como se fosse a primeira e isso é muito bonito. Quando estava terminando a residência comecei o mestrado na área de reprodução humana e a partir daí não parei mais. O professor Aroldo Camargos, um grande mestre, me convidou para fazer o mestrado com ele e sua influencia e referência me levaram para essa área da reprodução humana. Depois fiz doutorado na área e segui minha carreira.

Nunca pensou em seguir a carreira acadêmica?
Nunca. Amo a clínica, o contato com a cliente, e a academia demanda dedicação exclusiva. Trabalho no Hospital das Clínicas, na área de reprodução humana, mas sempre dei muita importância para a clínica, sempre gostei muito de atender em consultório, amo o contato com as pacientes. Às vezes, sou convidada para dar algumas aulas e algumas palestras.

O tratamento para quem não consegue engravidar é doloroso. Como é passar por isso?
Muitas vezes é difícil, mas temos que estar preparados para dar suporte para a paciente. Mostrar que aquela falha e aquela tristeza são momentâneas, porque o resultado virá, se não veio naquele momento, virá no próximo. E nas vezes em que você vê que não há mais jeito, que chegou o momento de parar o tratamento, temos que mostrar para a mulher e para o casal que a única realização não é através da maternidade. Existem outros legados que aquele casal pode deixar, outras realizações que aquela mulher pode fazer que não seja, necessariamente um filho. Temos que procurar fazer com que aquele casal saia bem, e que consiga virar aquela página da vida deles, sem que a não maternidade e paternidade sejam uma frustração para o resto da vida. Vocês não poderão ter um filho, mas existem vários outros legados para dar ao mundo. Mostrar isso para eles é importante.

Existe um percentual de sucesso?
Sim, mas depende principalmente da idade da mulher, do tempo da infertilidade, da causa. Hoje temos uma chance muito alta de sucesso de gravidez quando a cliente procura mais cedo, descobre o motivo mais rapidamente.

Como estão sendo essas gravidezes acima dos 40 anos, que ocorrem atualmente?
Muitas vezes essa gravidez é natural, mas é mais difícil porque a qualidade do óvulo cai. Muitos casos são com a ajuda da ciência e às vezes as pacientes não comentam.

Era mito a questão de que depois dos 40 a chance de ter filho com problema é maior?
Não era mito, é uma realidade. O que temos de mais moderno para cercar essa realidade é o diagnóstico pré-implantacional. Tem vários casais que procuram a clínica para fazer uma fertilização in vitro, selecionar o embrião, fazer o estudo genético dos embriões e só transferir para o útero os embriões cromossomicamente normais. Faz isso antes de engravidar. Depois de 43, 44 anos é muito difícil pegar óvulos, a não ser que a mulher tenha congelado seus óvulos mais cedo. Hoje, tem muita mulher de 25, 30 anos congelando seus óvulos.

Sempre foi ativa nas entidades médicas?
Sempre fui. Logo que acabei a residência médica, a convite do professor Aroldo, que era presidente da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia de Minas Gerais (Sogimig), entrei para a diretoria,  onde fiquei por dez anos. Quando a entidade fez 60 anos fui a presidente de lá, também a primeira mulher na presidência. O engraçado é que em 60 anos nunca tinha tido disputa para a presidência, neste ano foi a primeira e única vez  com duas chapas e eu ganhei, com 78% dos votos. E foi muito bom, eu era nova, tinha menos de 40 anos, fui muito respeitada pelos meus pares e dizem que fiz um mandato muito bom. Peitei muita gente e muitas entidades. Lutei por muitos direitos.
Depois, fui para a diretoria da Associação Médica, fui para a vice-presidência da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Em 2008, entrei como conselheira no Conselho Regional de Medicina.

Como é ser conselheira do CRM?
É uma experiência totalmente nova, não tinha noção como seria. Sabia que era um trabalho muito sério, mas não tinha noção da profundidade e complexidade do trabalho. Gostei demais.  Toma muito de seu tempo, é de extrema responsabilidade, no dia da plenária saímos de lá exaustos, é muito difícil porque julgamos colegas. Aprendemos muito de medicina, porque temos que estudar muito os casos e os processos. Lá são poucas mulheres, mas somos muito respeitadas pelos conselheiros,  não existe a menor discriminação. Somos respeitadas de igual para igual, sem diferença.

E como foi o convite para assumir a presidência do CRM-MG?
É um convite, mas há uma eleição, mas sem disputa. Este ano surgiu a oportunidade, assumi há um mês e meio e ainda não vi nenhuma dificuldade em estar nesta função como mulher. Não vejo muita diferença entre um homem e uma mulher, acho que foi continuação de minha função de conselheira, uma consequência da minha função desses últimos 10 anos. Mas não podemos deixar de falar que é um diferencial e uma quebra de tabu de 60 anos. Tenho que agradecer muito ao meu marido, porque para assumir um cargo desses tem que ter uma estrutura muito bem montada, muito forte, porque não depende só da mulher, mas do casal. São muitas viagens, muitas saídas, muitas reuniões. Se do seu lado não tem uma pessoa que confia plenamente em você e a apoia, isso não seria possível. Se cheguei aonde cheguei, devo muito a ele, que sempre foi um grande incentivador, que sempre me deu muita segurança e apoio.

Quais são seus planos e projetos para o Conselho?
No Conselho temos dois públicos-alvo: a sociedade e os médicos mineiros. No caso dos médicos, tentar lutar por melhores condições de trabalho e retornar à dignidade da medicina em Minas e no Brasil. Tudo que puder fazer por uma medicina mais digna para os médicos, condições de trabalho, e não estamos falando em dinheiro, absolutamente. Estamos falando em aparelhagem, local digno, medicamentos para exercer a profissão com dignidade. Com relação à sociedade, é melhorar o atendimento. Para isso, agir junto aos financiadores da saúde, em níveis municipal, estadual e federal, para ter um melhor financiamento nos três níveis para que a população mereça uma assistência digna. A população como um todo, não existe medicina de pobre e de rico, não existe medicina de quem tem Revalida e quem não tem. As pessoas merecem uma assistência médica única, com médicos formados, com diplomas revalidados, com capacidade de atender, que possam fazer os exames que acham que necessários, que possam prescrever a medicação de que o paciente precisa, sabendo que esse paciente terá acesso ao remédio, seja ele da classe A, B, C ou D. O Conselho de Medicina tem que lutar por isso. Temos que lutar por uma carreira de médicos do estado. Por que não tem médico nos rincões de Minas? Porque ele não tem nenhuma garantia, o médico é indicado pelo secretário de Saúde, se troca o secretário, ele está na rua. Não existe segurança, não existe concurso. Por exemplo, se um médico é contratado para o Vale do Jequitinhonha, paga um bom salário. A mulher larga o emprego, os filhos saem da escola e mudam para a região. Alguns meses depois, muda o secretário, eles cancelam o contrato do médico e nomeiam outro, amigo do novo secretário. O médico quer uma carreira igual à de um promotor, um juiz. Faz concurso, vai lá para regiões mais distantes, depois de um tempo vai para outra cidade, e vai mudando até chegar a Belo Horizonte.

E a questão da especialidade?
A lei que rege a medicina, a 3268, diz que depois que forma e recebe a carteira de CRM  o médico pode fazer qualquer coisa que rege a medicina, desde que ele se responsabilize pelo que  fez. O que enfatizamos e defendemos cada vez mais é a especialidade médica, porque ela é de extrema importância. Se for fazer uma cirurgia plástica, faça com um cirurgião plástico; vai fazer um procedimento dermatológico, faça com um dermatologista; procedimento oftalmológico, vá a um oftalmologista. Isso é fundamental, porque o profissional estudou a fundo a sua área específica e está apto para lidar com as questões mais do que o médico geral, ou de outra especialidade. Isso é importante que a população saiba. O site do CRM-MG é aberto e tem a relação de todos os médicos mineiros, com a sua especialidade. Recebeu uma indicação de um médico, faça uma consulta no site.

 


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