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Estado de Minas DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Guerreira trabalhadora

Discreta como uma mineira, forte e resistente como uma nordestina, a médica baianeira %u2013 como se intitula %u2013 comemora 40 anos de fundação da sua rede hospitalar


07/03/2021 04:00

Norma e José Salvador Silva (sentados) com os filhos Henrique, Maria Norma, Márcia e Renato(foto: Pedro Vilela/divulgação)
Norma e José Salvador Silva (sentados) com os filhos Henrique, Maria Norma, Márcia e Renato (foto: Pedro Vilela/divulgação)


Simpática, delicada, gentil e com uma aparência quase frágil. Essa pode ser a impressão que se tem da médica ginecologista e obstetra Norma Moraes Silva, ou apenas Norma Salvador. Sim, ela é extremamente simpática, delicada e gentil, mas nada frágil, ao contrário, sempre foi uma mulher forte, decidida, trabalhadora, empreendedora e, acima de tudo, mãe exemplar. Decidiu fazer medicina em uma época em que os pais não permitiam, porque “mulher não pode ser inteligente, tem que ser professora, se casar e ter filhos”. Conseguiu apoio na força de sua mãe. Venceu dois cânceres, sem nunca alardear o problema e nem mesmo se fazer de vítima. Ao lado do marido, o médico e empresário José Salvador Silva, construíram quatro hospitais em Belo Horizonte, estão construindo o quinto em Salvador, e criou uma família unida, com quatro filhos, 10 netos e oito bisnetos. Norma é o exemplo de mulher que queremos homenagear no Dia Internacional da Mulher.
 

"Minha mãe é o esteio do meu pai. Esposa, mãe, médica, avó, sempre se dedicando plenamente. Sem a dra. Norma, o dr. Salvador não teria alcançado sucesso completo"

Renato Salvador

 
 
Como é essa história de ser meio mineira e meio baiana?
Nasci em Feira de Santana, a porta de entrada do sertão, chamada a Princesinha do Sertão, que fica a 108 quilômetros de Salvador. Depois de Salvador, é a maior cidade do estado, e recebeu esse nome por causa de uma feira de gado muito concorrida que tinha lá. Quando se vai para qualquer estado do Nordeste tem que passar por Feira. Sou baianeira, porque minha mãe era mineira, apaixonada por Minas, e meu pai, Armando Moraes, baiano. Maria Julieta Moraes, que faleceu em 2000, foi minha grande companheira, minha amiga, uma grande mulher. Gostava muito de ler, gosto que passou para todos os seus filhos, e nos criou com muito amor e carinho. Meu pai era caixeiro-viajante e fazia a rota Juazeiro-Januária. Minha mãe era de Januária, mas tem uma história: minha mãe biológica era Maria Pia, irmã de Julieta. Maria Pia faleceu 45 dias depois de eu ter nascido, porque teve febre puerperal, e meus avós paternos e minha tia me assumiram. Talvez seja por isso que virei obstetra, para nunca mais deixar uma mulher morrer de parto. Quando eu tinha 2 anos, meu pai foi visitar minha avó, em Januária, e me levou. Minha avó ficou louca comigo. Lá ele perguntou para a minha tia Maria Julieta – que era amicíssima de minha mãe biológica, com dois anos de diferença –, se ela queria se casar com ele. Ela ficou em dúvida, mas minha avó disse para ela que nunca mais me veria, porque meu pai me levaria embora. E ela respondeu que veria sim, porque se casaria com ele. Acho que foi nessa hora que ela decidiu se casar. Casaram-se em Januária e foram morar em Feira de Santana. Tiveram quatro filhos homens. Por 26 anos, fui a única mulher na família: única neta, filha, sobrinha, até nascer minha prima. Eu era endeusada na família, mimadíssima. Tudo que eu queria, eles deixavam. Era uma rainha. Toda segunda-feira, meu avô chegava com um presente para mim. Mamãe falava que ele ia me colocar perdida. Ele respondia que não sabia até quando ia viver, e morreu cedo, aos 64 anos. Mas quem eu considero minha mãe, que eu amo e admiro, que me educou e ensinou tudo, foi Julieta.
 
Norma Salvador
Norma Salvador
 

Cresceu em Feira de Santana?
Meu pai tinha uma loja em Feira de Santana, morávamos lá, e íamos sempre para a fazenda do meu avô Manoel. Mas ele morreu cedo e nos mudamos para a fazenda, porque meu pai assumiu os negócios. Fui criada na fazenda, que era como um arraialzinho, tinha muitos festejos, tinha uma igrejinha com missa uma vez por mês. Na idade de estudar, minha mãe me mandou para casa da minha avó materna, em Januária, para fazer o primário no Grupo Escolar Bias Fortes, onde minhas tias davam aula, onde fiquei por três anos. Eles nos visitavam sempre. Meu avô materno também era um grande fazendeiro na região. Acho que por isso gosto tanto de fazenda.
 

"Minha mãe, sempre muito afinada com meu pai, nos demonstrava em toda oportunidade a preocupação com a harmonia de nossa família, a importância de estarmos juntos, de saber que, maior do que o interesse individual, é nossa união"

Henrique Salvador

 

O que gostava de fazer quando era criança?
Toda semana, meu avô Manoel me dava uma boneca que eu acabava abrindo para operar. Brincava de médico com elas, do nada, porque na família só tinha um médico. O irmão da minha avó Zuzu, dr. Ramos, era famoso, e foi embora morar em Paris. Fui a primeira médica da família. Minha mãe falava com meu avô: “Seu Moraes, não dá mais boneca para ela porque ela abre todas”. Não adiantava nada. Eu era levada, andava a cavalo, e as brincadeiras eram de menino, porque só tinha irmãos. Acordava às 5h para ir com meu pai para o curral tirar leite da vaca, e tomava o leite ali mesmo. Meu pai criava de tudo na fazenda, não comprávamos quase nada. E eu gostava muito de estudar.
 

"Um exemplo da minha mãe que me norteou muito foi de como ela conseguia equilibrar todos os seus compromissos como médica com as necessidades da casa, o atendimento aos quatro filhos e ao marido. Dava conta de tudo, sempre bem disposta, com gosto e alegria"

Maria Norma Salvador Ligório

 

Quando voltou para a Bahia?
Voltei para me preparar para o curso de admissão. O padre Hamilton sugeriu de mandarem para o colégio interno Nossa Senhora das Mercês, das irmãs ursulinas, em Salvador. Fiquei sete anos lá. Fiz admissão, ginásio e segundo grau. Sai decidida a fazer medicina. Imagina, naquela época, 1950, uma mulher querer fazer medicina. A família do meu pai se reuniu para não deixar. A minha mãe foi a única que brigou por mim, bateu o pé, e meu pai concordou porque ela era uma mulher muito forte. Mamãe peitou a família toda, disse que ninguém tinha que se intro- meter. A opção era eu fazer a faculdade em Belo Horizonte, porque minha avó materna estava morando aqui com minhas tias, porque eu tinha 18 anos e meu pai não me deixaria morar em república em Salvador. O medo deles era eu vir para cá, me casar e não voltar. Meu pai impôs uma condição: eu faria o vestibular, e se não passasse de primeira voltaria e estudaria para professora. Concordei, mas fiquei em uma angústia enorme.
 
O projeto do Hospital Mater Dei, em Salvador(foto: Divulgação)
O projeto do Hospital Mater Dei, em Salvador (foto: Divulgação)
 

E como foi no vestibular?
Cheguei a Belo Horizonte atordoada, porque não conhecia nada daqui, e tinha a obrigação de passar. Uns amigos me indicaram um professor de física para me dar aulas particulares, Getúlio Juarez Ferreira – marido de Lígia Mattos –, disciplina na qual era mais fraca. Fiquei com tanto medo de ver o resultado do vestibular que mamãe e tia Nori foram ver o resultado e acabaram tomando o trote no meu lugar. Passei.

Foi na faculdade de conheceu o Salvador?
Foi, mas tem uma coincidência aí. Fazíamos vestibular no Instituto de Educação. Salvador resolveu ir com alguns amigos ver quem estava prestando prova – ele entrou no curso um ano antes –, e foi na sala onde tinha feito a prova e eu estava sentada na carteira em que ele tinha sentado. Me achou bonita e disse aos amigos que se casaria comigo. Como não sabia meu nome, quando as aulas começaram ficava na porta da sala para me ver, mas eu tinha ido para a Bahia comemorar em família, e cheguei uns dias atrasada. Ele achou que eu não tinha passado. Depois ele me viu. Um dia, algumas amigas me apontaram ele na escola, e disseram que uma delas era apaixonada por ele.
 
O casal Norma e Salvador brindando a inauguração da primeira unidade Mater Dei, em 1980(foto: divulgação)
O casal Norma e Salvador brindando a inauguração da primeira unidade Mater Dei, em 1980 (foto: divulgação)
 

Quando se aproximaram?
Eu nunca pensei em namorar com ele. Quando estava no terceiro ano e ele no quarto, fomos nos aproximando. Sabia que eu gostava muito de poesia e foi assim que ele chegou. Ficamos  amigos. Eu sempre gostei muito de ler, e ele mais ainda. Só começamos a namorar quando eu estava no quarto ano. Tivemos umas briguinhas por causa da diferença de gênios, somos muito diferentes, mas deu certo por isso, eletricidades contrárias se atraem. Minha formatura foi em 8 de dezembro de 1957, e nos casamos no dia 14, para aproveitar que toda a minha família e amigos estavam aqui. Naquela época, era tudo muito diferente. Era proibido entrar no carro de um rapaz sozinha, e Salvador tinha carro. Minha mãe me escrevia cartas pedindo para eu tomar cuidado. Como o mundo mudou. Tenho 63 anos de casada, e dois anos e 9 meses de namoro e noivado.
 

"Sonhava encontrar uma mulher especial, linda, com quem pudesse dividir meus projetos, minha vida. Tive sorte! Encontrei Norma na Faculdade de Medicina. Mais que tudo, fui encontrado por Norma. Minha grande companheira e parceira. Herdamos de nossos pais o gosto pelo trabalho, os hábitos simples, o prazer de madrugar e caminhar, a coragem, o bom humor, a humildade diante dos erros, a solidariedade, a admiração e o respeito pela natureza"

José Salvador Silva

 

Sua geração vivenciou muitas mudanças no mundo. Como foi acompanhar e se adequar a todas elas?
A medicina me ajudou muito, minhas clientes me ensinaram demais, mais do que eu a elas. Conversávamos muito sobre casamento, namoros. A mulher era inferiorizada. Líamos muito, fazíamos muitas reuniões com médicos, políticos e fomos aprendendo. Sempre convivemos com um meio mais intelectualizado, que pensava mais à frente. Isso ajudou bastante. Tivemos um grande mestre, Henrique Horta, que nos ensinou muito sobre ética e medicina.

Sofreu preconceito na faculdade por parte dos colegas e dos professores?
Na sala do vestibular, eles falavam que tínhamos ido lá tomar o lugar deles, mas depois que entramos na faculdade, não. Eram 108 homens e quatro mulheres na sala de aula. Eu sou a única das minhas colegas que ainda está viva.

Os filhos chegaram cedo?
Cedo até demais. Henrique nasceu em outubro de 1958, adiantado. Como não existia pílula, o controle era por tabela, eles vieram em escadinha, Renato, Maria Norma e Márcia.

Salvador já tinha o sonho de fazer um hospital?
Desde a faculdade ele tinha o sonho de crescer. Uma vez, me disse que depois que nos formássemos iríamos construir um hospital. Eu sempre apoiei, era o ideal dele, e se tornou o meu também. Mas foi difícil, porque começamos do nada.

Como foi começar a vida de médica com filhos pequenos?
Sempre tive um ideal e um desejo muito forte de cumprir uma missão. E pude contar com boas ajudantes. Cada filho que nascia, minha mãe vinha e ficava três meses comigo. Quando era só o Henrique, colocava ele no moisés e levava para o Hospital Vera Cruz, para eu fazer os partos e lá tinha a irmã Maria Júlia que tomava conta dele para mim. Coloquei os meninos novinhos no Colégio Alcinda Fernandes, que era dirigido por uma baiana, de quem fiquei muito amiga. Acabei me tornando médica de lá. Elas seguravam muito os meninos enquanto eu estava no consultório.

Trabalhava muito?
Muito. Trabalhei em quase todos os hospitais de Belo Horizonte, dava plantão no Sindicato dos Empregados de Comércio, no Iapfesp, era médica do Colégio Alcinda Fernandes, fundei o ambulatório da Igreja Nossa Senhora do Carmo e outro no Belvedere, atendia por cerca de duas horas na Igreja do Carmo. Tem horas em que olho para trás e me pergunto como dava conta tendo quatro filhos. Parei de atender clinicamente no ano passado.

Trabalhando tanto foi aprendendo o que dava certo e errado para implantar no hospital?
Claro, aprendíamos vendo os erros dos hospitais onde trabalhávamos. Quando nós pensamos em construir um hospital, primeiro tentamos fazer um, junto com Henrique Horta, mas ele era muito novo e ninguém quis entrar. Então, fomos para o Vera Cruz, que era ótimo. Depois fundamos o Hospital Santa Mônica, com um grupo de colegas, vendemos participação do hospital para nossas clientes. Mas foi um fracasso, por má administração.

Não desanimaram depois de duas tentativas fracassadas?
Não, aprendemos com os erros. O Mater Dei começou com um monte de sócios minoritários. José Marinho, Marcílio, Wilson Eustáquio, Wilson Batista, Helvécio, Danilo Marinho, eram os principais. Quando precisávamos injetar mais dinheiro eles não quiseram, preferiram ganhar dinheiro no overnight, e foram saindo, vendendo as cotas para nós.

Os filhos não cobravam sua presença?
Quando falávamos que íamos trabalhar eles não achavam ruim, quando falávamos que íamos para o cinema eles choravam. Mas eles iam muito com a gente para o hospital.
 

"Minha mãe sempre foi um exemplo à parte: não apenas como médica devotada e reconhecida, também como mãe e companheira de seu marido em todas as dificuldades e obstáculos. Sempre trabalhou muito, deu plantões, fez partos a qualquer hora do dia ou da noite, participou de congressos, sem deixar de lado sua casa, seus filhos e seu marido. Até hoje fico admirada com a mágica que ela fazia para conseguir tudo isso"

Márcia Salvador Geo

 

Seus filhos são muito unidos. Como foi essa criação?
Criamos os meninos com muito amor e muita disciplina. E ensinamos através do exemplo, com muita liberdade de conversa. Para estimular a leitura, nosso presente de aniversário era que cada um lesse um livro, e no almoço do aniversário tinham que contar a história e fazer uma crítica. Com isso, aprenderam a tomar gosto pela leitura, e treinaram a falar em público. Começaram cedo, e os livros eram de acordo com a faixa etária. Henrique e Renato começaram a trabalhar com 14 e 13 anos, quando o Salvador deu um caminhão para eles tomarem conta. Quando alguma cliente ligava para casa e eu não estava, o Henrique receitava pelo telefone. Tem febre? Novalgina. Tem dor? Baralgin. Foram criados em um ambiente de medicina e vendo que nós amávamos o que fazíamos, porque sempre chegávamos felizes em casa. Como todo irmão, às vezes brigavam, e podiam brigar, mas depois tinham que pedir desculpas e abraçar um ao outro. Nas férias, íamos para Feira de Santana. Salvador nos levava de carro, porque a passagem era muito cara, ficava um dia e voltava para traba- lhar. Era uma viagem de 16/18 horas. Só parávamos para colocar gasolina. Levávamos tudo, até peniquinho para os meninos. Fazíamos uma dinâmica de grupo na viagem, quando todo mundo falava o que pensava um do outro, o que alguém tinha feito, que o outro não gostou, inclusive sobre Salvador e eu. E depois ninguém podia ficar com raiva um do outro. Era para corrigirmos e ficar mais amigos. Demorava umas quatro horas. Podia até me xingar e xingar o pai, mas não podiam ficar com raiva e nós não castigaríamos.

Como você recebia isso?
Nos preparávamos para isso, mas às vezes eu me assustava. E servia para eu corrigir algumas atitudes que tinha. Isso também nos uniu muito. E fazemos isso até hoje, no Conselho de Família, do qual sou presidente, e nos reunimos uma vez por mês, com a presença também dos netos.

Por que acha que escolheram medicina?
Foi uma escolha natural de cada um. Nunca falamos com nenhum deles para fazer medicina, mas quando estavam no ginásio levávamos para ver um parto, uma cesariana. O Renato, quando viu sangue, desmaiou, e disse que não dava mesmo para trabalhar com isso. Como o Salvador já tinha trabalhado muito com construção, o Renato escolheu engenharia. Nossa vida com os meninos foi com o binômio: amor e disciplina. A casa vivia cheia de amigos, jogando bola. A vida era muito saudável, íamos muito na fazenda.
 
Você ama fazenda. Vai toda semana e faz questão de cuidar das coisas?
A primeira fazenda foi herança do pai de Salvador, em Baldim, terra natal dele, Fazenda Serra Verde. É mais distante, mas íamos lá com frequência. Deixava os meninos lá passando as férias com o irmão de Salvador, e voltava para trabalhar. Hoje, o Salvador é quem vai lá. Depois de muito tempo compramos a fazenda de Confins. Vou quase toda semana e faço questão de cuidar da horta, colocar a mão na terra. Tenho um grande pra- zer. Aprendi muito com meu avô e meu pai, para mim não é trabalho, é prazer. E os meus meninos gostam tanto que hoje cada um já tem a sua própria fazenda. Na vida a gente gosta do que a gente conhece.

Em fevereiro de 2022, será inaugurado o Hospital Mater Dei de Salvador. A escolha da cidade foi por ser seu estado de nascimento?
Pode ter contado um pouco, mas não foi por isso. Fizemos um estudo aprofundado para ver onde deveríamos implantar o novo hospital. Salvador é a terceira capital do país, passou Belo Horizonte. É a entrada para o Nordeste, e faltavam leitos na região. Diante de toda essa falta de fluxo e necessidade, tornava-se importante e viável ter um hospital de porte ali. Mas não posso esconder minha felicidade e orgulho de ser na Bahia. Muitas pessoas de lá ligam para mim dizendo que escolhemos por minha causa, não foi, mas deixe que pensem.

Quando olha para trás e vê o que conseguiram fazer e ainda estão fazendo, desde que entrou na medicina em uma época que era dominada por homens, o que sente?
Orgulho, mas nos preocupamos por causa da situação do país e do mundo, das mudanças todas, mas confiamos e vamos pra frente. Pergunto a Deus “será que fui capaz disso?”. Mas tenho que tirar o chapéu para os meninos (Henrique, Maria Norma e Márcia), não porque são meus filhos, mas o que eles estão fazendo... O que o Henrique está fazendo é admirável. Outro dia, Maria Norma disse que não conhece uma amiga que trabalha o tanto que eles trabalham. É verdade, é de segunda a segunda. Tem dias que Henrique chega às 5h para ope- rar. Fico impressionada com a resistência deles. Mas graças a Deus conseguem conciliar e ter tempo para a família e para o lazer, como eu sempre fiz. Eu trabalhava muito, mas sempre coloquei em primeiro lugar minha família, meus filhos. Médica tem muitas, mas mãe é só uma para meus fi- lhos. Se um deles precisasse de mim, eu largava tudo e ia atendê-lo.

Você preside o Conselho da Família. Qual a finalidade?
Faz parte da Rede Mater Dei de Saúde, é um órgão de governança corporativa que objetiva a longevidade das empresas fami- liares. É mais uma ferramenta nos esforços de que a instituição perdura, mantendo os valores e preceitos que a criaram e que a fazem coesa e única. As reuniões visam equilibrar os interesses da família, definir limites entre esses interesses familiares e empresariais. Promover um ambiente familiar saudável e propício para a administração de conflitos e assim preservar nosso legado e valores familiares. É o Conselho de Família que planeja a sucessão familiar, a transmissão de bens e herança, desenvolvimento dos membros, etc. Quem nos ajudou nesse processo foi a professora e consultora Elismar Álvares, da Fundação Dom Cabral. Sou a presidente e tenho Júlia e Flávia, minhas netas, como vice-presidentes, me ajudando nessa tarefa.

Você venceu duas doenças graves. Como foi isso, principalmente sendo médica?
Quando os meninos estavam no exterior, na faixa entre 18 e 15 anos, eu descobri um câncer no estômago. Não me contaram, Salvador falou que era úlcera, mas precisava operar. Mas eu sabia. Tentei protelar para quando eles voltassem, mas não podia. Graças a Deus a cirurgia foi um sucesso tão grande que tirou tudo, não precisei fazer quimioterapia. Faço muitas endoscopias, e está tudo bem. Depois de décadas, tive um câncer de mama. Percebi um nódulo, fizemos a biópsia e deu que era benigno, mas uma assistente do Henrique pediu para estudar um pouco mais o meu caso, e duas horas depois voltou e pediu para eu fazer outra biópsia, e aí sim, deu o resultado correto. Para falar a verdade, não me assustei, encarei o problema com tranquilidade. O Henrique queria me levar para operar com um professor dele, mas eu não aceitei, pedi que ele fizesse a cirurgia. Confio demais nele, mas depois que passou eu pensei no que eu tinha feito com ele, coitado.

Apesar de tudo que já construíram, acha que ainda falta alguma coisa?
Falta o hospital crescer mais, sair de Minas, incentivar os meninos para a perenidade do nosso legado. Isso me preocupa. Você sabe que só 10% das empresas familiares sobrevivem à terceira geração, e nossa terceira geração, eu tenho certeza, está imbuída desse legado. Porque mesmo os que não fazem parte da direção e da gestão do hospital tem entusiasmo e amor por ele. 


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