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Estado de Minas Reinvenção de nossas tradições

Sempre-vivas e o artesanato de flores de Minas buscam novos mercados

Comunidades que coletam flores da Serra do Espinhaço e artesãos de outros polos do estado trabalham para renovar design e ampliar consumo


27/08/2021 04:00 - atualizado 26/08/2021 23:55

Coletora de sempre-vivas na comunidade de Pé de Serra em Diamantina: selo concedido pela ONU ajudou a amenizar efeitos da crise sanitária e econômica
Coletora de sempre-vivas na comunidade de Pé de Serra em Diamantina: selo concedido pela ONU ajudou a amenizar efeitos da crise sanitária e econômica (foto: Valda Nogueira/Divulgação)


A resistência às crises cíclicas da economia brasileira faz parte da história das comunidades que preservam a centenária tradição mineira da coleta das flores sempre-vivas na porção meridional da Serra do Espinhaço, região do Vale do Jequitinhonha. Como a expressão bem define, essa beleza natural representa o conjunto da diversidade da flora local capaz de manter sua estrutura, coloração e firmeza após a colheita e o processo de secagem, imprimindo originalidade ao artesanato típico.
 
Artesanato feito de flores sempre-vivas agora conta com iniciativas como a busca de parcerias com escolas de design
Artesanato feito de flores sempre-vivas agora conta com iniciativas como a busca de parcerias com escolas de design (foto: Elisa Cota/Divulgação)
O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) tem registradas em seu Cadastro do Patrimônio Cultural 12 populações que desenvolvem esse sistema agrícola tradicional, reconhecido como parte do programa Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (Sipam) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A certificação foi concedida no começo de março de 2020, quando a COVID-19 havia sido recentemente declarada emergência nacional de saúde pública e o vírus assustava com o surgimento dos primeiros casos de contaminação e as informações ainda preliminares sobre como combater a doença.
 
Consumidor das flores artesanais, entre outros produtos da arte popular, voltou à loja de Sabrina Albuquerque, que programa ampliar os estoques
Consumidor das flores artesanais, entre outros produtos da arte popular, voltou à loja de Sabrina Albuquerque, que programa ampliar os estoques (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Passado quase um ano e meio, a coleta das sempre-vivas se mantém, assim como o artesanato, avançando com algumas iniciativas para inclusão em mercados de consumo e desenvolvimento de design do artesanato, por meio de parceria com escolas para criação de peças e mais produtos. Sinais de recuperação são também vistos nas casas de Piedade dos Gerais, distante 100 quilômetros de Belo Horizonte, polo produtor de flores artesanais, que já atravessaram as fronteiras do país para ser vendidas nas lojas da gigante varejista espanhola El Corte Inglés e em mercados de Omã, no Oriente Médio.
 
Reunidas no grupo batizado de Gente Nossa, 15 artesãs estão produzindo flores em chitão, malha, fuxico e crochê, entre outras técnicas e materiais, com a meta de levar ao menos 10 mil unidades à 32ª Feira Nacional de Artesanato, marcada para 7 a 12 de dezembro próximo, no centro de convenções Expominas, em Belo Horizonte. Os relatos à reportagem nesta matéria, que encerra a série “Reinvenção das nossas tradições”, publicada desde domingo pelo Estado de Minas, mostram como a dedicação, coragem para readaptação e mudança contribuíram para a continuidade de ofícios antigos e carregados de identidade cultural.
 
A reabertura das atividades econômicas neste ano, a retomada de viagens e do turismo já começam a ser sentidos na demanda pelo artesanato variado e de grande riqueza de detalhes de Minas, segundo Cláudia Aparecida da Silva Santos, gerente do Centro de Artesanato Mineiro. “O momento é de recuperação e que se amplia com o retorno das feiras e eventos”, afirma.
 
Estão anunciados e liberados três grandes eventos dedicados à mostra do artesanato brasileiro nos próximos meses. O 14º Salão do Artesanato – Raízes Brasileiras será realizado de 1º a 5 de setembro, em Brasília, com versão on-line e presencial. A Feira Nacional de Artesanato deve receber cerca de 3 mil artesãos de todo o país e público de 90 mil visitantes, com protocolos sanitários, e versão digital, de 7 a 12 dezembro. A 21ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) tem data marcada para 10 a 19 de dezembro, no Centro de Convenções de Olinda, na Região Metropolitana de Recife (PE).
 
Os turistas têm sido os principais clientes do artesanato de Minas. Nas instalações do Centro Mineiro de Artesanato, dentro das dependências do Palácio das Artes, em BH, além das sempre-vivas são vendidos buquês de flores confeccionadas em tecidos, como chita, de Cataguazes, na Zona da Mata mineira. A representação da flora do município se juntou ao contexto histórico e à religiosidade que o produto traduz.
 
Antes de chegar às prateleiras do varejo, esse delicado artesanato surgiu das mãos de mulheres de Cataguases que desejavam enfeitar a Igreja de Santa Rita, lembra Cláudia Santos. “São produtos com identidade cultural e que têm uma história também levada e reconhecida pelo consumidor”, diz.

Transformação Entre as comunidades tradicionais apanhadoras de flores e que obtêm da coleta e venda das sempre-vivas a sua principal fonte de sustentação, os efeitos da crise sanitária foram intensos, tendo provocado queda de renda ao redor de 50% durante o longo período de fechamento do comércio e do sumiço dos turistas. O reconhecimento como patrimônio agrícola mundial pela FAO/ONU ajudou as famílias, ao permitir melhor acesso a políticas sociais e programas de compras governamentais de alimentos, outra atividade a que elas se dedicam, observa Maria de Fátima Alves, uma das coordenadoras da Comissão de Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex).
 
“As vendas ainda não se recuperaram, considerando que estamos em crise econômica e que as flores não são produtos de primeira necessidade. As comunidades se valeram da sua histórica resiliência em períodos de crise”, afirma. Além de medidas visando à inclusão em mercados e criação de produtos com assessoria de escolas de design, previstas no Plano de Conservação Dinâmica, – elaborado por organizações ligadas a governos e da sociedade civil –, está sendo discutida proposta de assistência técnica para a agroecologia e agroextrativismo.

Essência da venda presencial


Pesquisa realizada neste mês pelo Instituto Centro Cape, organização não governamental que promove a Feira Nacional de Artesanato (FNA), mostrou cenário ainda complicado de recuperação para o setor. Da amostra de 148 artesãos ouvidos de Minas e outros estados, 37,2% estão vendendo de 10% a 20% do volume comercializado em 2019. Outros 23% não veem reação do negócio, permanecendo, na prática, sem faturar.
 
Quase 47% têm usado as redes sociais para vender seus produtos, mas boa parte, de 34,5%, não vendem pela internet. Tânia Machado, presidente do Centro Cape, vê tendência de retomada das vendas, que dependem do comportamento da demanda do comércio lojista, do turismo, e da volta das feiras e eventos. “As vendas pela internet nunca serão o principal canal do artesão. O consumidor tem de se identificar com a peça, sentir a emoção que leva à compra, quer saber da história daquele produto e valoriza o diferente”, afirma.
 
Amanda Guimarães, analista do Sebrae Minas, concorda, observando que a entidade tem oferecido capacitação para vendas e marketing digital, áreas nas quais boa parte dos artesãos tem pouca experiência, assim como na etapa do escoamento da produção. “Esse público se reinventou e passou a participar das redes sociais. A presença digital cresceu , mas veio para somar e não excluir ou substituir o comércio presencial”, afirma.
Nas investidas no mundo da internet, Tânia Machado diz que tem tentado mostrar aos artesãos a necessidade de persistirem na divulgação e comércio pelas redes sociais, alimentando todo dia a presença de seus produtos em busca das tais curtidas que vão transformar usuários em clientes. (MV)

Milhares de modelos em produção


O retorno das encomendas, embora devagar, após cerca de seis meses de suspensão de pedidos, e a liberação da Feira Nacional de Artesanato (FNA) em dezembro reacenderam as esperanças de Luciani Ribeiro de Amorim, coordenadora do grupo de 15 artesãs de flores Gente Nossa, de Piedade dos Gerais. Outra boa notícia foi a decisão da prefeitura local de reativar o espaço dedicado aos trabalhos artesanais na Casa da Cultura do pequeno município, de 5 mil habitantes.
 
As vendas realizadas tanto em Minas quanto em estados como Rio de Janeiro são resultado de encomendas, das quais boa parte contratadas em feiras. Na última década, a exposição das flores nas edições da FNA, em BH, garantiu contratos e vendas durante todo o ano às artesãs, inclusive o fornecimento, em 2012 e 2013, à rede El Corte Inglés e a clientes conquistados à época em Omã.
 
Com essa dinâmica, as dificuldades, de fato, foram grandes desde o ano passado, com pedidos dos lojistas paralisados por ao menos seis meses devido ao período de fechamento do comércio, como medida necessária para conter o avanço da COVID-19. A recuperação passou a ser observada neste ano, após a reabertura das atividades econômicas, e anima o grupo, em sua maioria composto de mulheres dedicadas à arte por paixão e busca de renda complementar para a família, com 50 a 60 anos de idade.
“A gente não para e agora cuidamos do estoque para o fim do ano. É um trabalho que leva tempo e exige preparo de tecidos com antecedência”, diz Luciani Amorim. Com modelos variados, cores fortes e uma presença muito particular no ambiente, as flores de Piedade dos Gerais têm sido demandadas pelos clientes da loja de Sabrina Campos Albuquerque, em BH, que mescla trabalhos de três dezenas de artesãos de Minas e outros estados com presentes da chamada indústria criativa.
 
O movimento tem crescido, segundo lojista, após a flexibilização da circulação de pessoas neste ano, a rebertura do comércio e, ainda, o avanço da vacinação, embora lenta no Brasil. “A demanda tende a crescer. O produto artesanal é uma peça que tem história e identidade”, diz Sabrina Albuquerque. Decidida a ampliar a participação do artesanato no estoque, a lojista afirma que a arte popular oferece ainda a diversidade e, depois da pandemia de COVID-19, a sensação de acongecho que o consumidor passou a buscar, com a sensibilidade aflorada pelos efeitos da própria crise sanitária. (MV)

Uma ‘revolução’ mineira


Antigos ofícios em Minas Gerais, parte deles reconhecida como patrimônio cultural e histórico do estado, têm revelado a capacidade de preservar a tradição, com medidas que renovaram as formas de oferecer esses trabalhos ao público consumidor, resistindo aos duros efeitos da COVID-19 sobre a economia. Contudo, a recuperação ainda é difícil e exige grande esforço. Foi o que mostrou a série de reportagens “Reinvenção das nossas tradições”, publicada pelo Estado de Minas  desde domingo.



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