Publicidade

Estado de Minas DIA DO TRABALHO

Mais expostos ao coronavírus, trabalhadores informais dão lição de vida

Sem poder se proteger em casa, pessoas que trabalham sem registro estão garantindo o nível do emprego no país, mas não têm o que celebrar hoje


01/05/2021 04:00 - atualizado 01/05/2021 07:20

(foto: Jair amaral/EM/D.A press)
(foto: Jair amaral/EM/D.A press)

A gente precisa trabalhar para sobreviver

Vítor Francisco da Silva, pipoqueiro

Personagens centrais do chamado mercado invisível, aquele das profissões sem registro e reconhecimento, à margem de proteção social, os batalhadores informais não costumam ser lembrados nem mesmo neste sábado, 1º de maio, Dia do Trabalho, que marca a luta por melhores condições no mundo.

Pode ser um feriado como qualquer outro para esses trabalhadores, que continuam a ser um dos grupos afetados duramente pela pandemia de COVID-19, passado mais de um ano dos primeiros casos de contaminação pelo coronavírus.

São eles, com todo o esforço, que estão mantendo algum dinamismo na geração de empregos no Brasil, segundo dados divulgados nessa sexta-feira (30/4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número de empregados sem registro no país alcançou 9,796 milhões no período de três meses entre dezembro de 2020 e fevereiro último. A categoria cresceu em 62 mil pessoas na comparação com o trimestre anterior, de setembro a novembro do ano passado, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.

(foto: Jair amaral/EM/D.A press)
(foto: Jair amaral/EM/D.A press)

Trabalho pra comer e só, mas também tem dias que falta até para isso

Anderson Moreira de Araújo, engraxate

 
Com o aumento, os informais passaram a representar 11,4% do total de 85,899 milhões de pessoas trabalhando no Brasil. A crise sanitária que mantém grande parte dos brasileiros no isolamento, é também a que os expulsa para as ruas. É nessa estatística do IBGE que surge Anderson Moreira de Araújo, engraxate há 35 anos, e que ganha a vida na Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, com licença de trabalho da prefeitura.

Ele conta que há um ano teve de parar de trabalhar por quatro meses e enfrentou prejuízo devastador em casa. “Sobrevivi com as minhas economias porque não tive direito ao auxílio (auxílio emergencial pago pela União). Agora, o movimento caiu 80% e praticamente não tenho renda. Trabalho pra comer e só, mas também tem dias que falta até para isso”, lamenta.
 
Anderson mora com a mulher e três filhos – um casal de gêmeos adultos. A mulher dele está desempregada, enquanto os filhos mais velhos trabalham na área de telemarketing e em salão de beleza, respectivamente. “Eles ajudam a pagar as contas. Se não fosse eles, estaria perdido”, afirma o engra- xate. Anderson se preocupa com a pandemia. “Não posso parar, e tenho tomado a devida precaução. Uso máscara e álcool em gel.”
 
A rotina não é diferente para Vítor Francisco da Silva, de 42, que trabalha há 19 anos com a venda de pipoca e amendoim torrado também na Praça Sete, sob regulamentação da PBH. Ele tem medo de contrair o vírus e adota os cuidados sanitários recomendados. “Perdi 50% da minha venda. A gente, que trabalha na rua, é muito exposto ao vírus, mas me protejo o máximo que eu posso. A gente precisa trabalhar para sobreviver”, afirma.

No início da pandemia, Vítor teve de parar de trabalhar por mais de dois meses. “O dinheiro que eu tinha guardado começou a acabar e as contas não paravam de chegar. Tive que voltar a trabalhar. Estava devendo 3 meses de aluguel e aos poucos fui pagando tudo”, disse.
 
Para conseguir manter o sustento, ele alterou os horários de trabalho.  Antes, chegava à Praça Sete por volta de 10h e encerrava a jornada por volta das 18h. Hoje, acorda todo dia às 4h30 e trabalho até 19h30”, conta. O maior medo de Vítor é contrair o coronavírus no transporte público. “Os ônibus estão todos cheios. Não tem distanciamento entre as pessoas”, disse angustiado.

Recolocação


Para a presidente do Conselho Regional de Economia de Minas (Corecon-MG), Tania Cristina Teixeira, a crise no emprego se estenderá enquanto não houver investimento efetivo do governo na geração de vagas e na proteção de grupos de trabalhadores mais vulneráveis.

“Vivemos um ciclo bastante preocupante, inclusive, com o aumento do número de pessoas que estão em condição de miséria, de vulnerabilidade. Precisamos de uma política similar à do presidente dos Estados Unidos (Joe Biden), que destina recursos e ampara quem estão na miséria e na carência absoluta. Isso está sendo feito por meio do resgate de algumas relações de trabalho mais formalizadas e com algumas garantias”, afirma.
 
A falta de oportunidades para recolocação no mercado de trabalho é um drama que pode ser mais duradouro do que se imagina, na ausência de um cenário de controle da pandemia de COVID-19 e de medidas para estimular a economia. De acordo com dados do IBGE relativos aos meses de dezembro de 2020, janeiro e fevereiro deste ano, durante um ano da pandemia, 7,8 milhões de empregos foram eliminados no país.
 
Sem oportunidades, 400 mil cidadãos entraram na fila do desemprego entre dezembro de 2020 e fevereiro deste ano. Para sobreviver aos efeitos da pandemia de COVID-19, muitos deles recorrem às atividades informais. Agora, são 14,4 milhões de pessoas desocupadas no país, maior número já visto desde 2012, data de início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
O IBGE apurou que a ocupação tem se mantido também graças aos trabalhadores por conta própria, que  passaram a somar grupo de 23,6 milhões de brasileiros, representando 27,53% do total de ocupados no país. Essa alternativa deu trabalho a 716 mil pessoas a mais entre dezembro de 2020 e fevereiro último, acréscimo de 3,1% frente ao período de setembro a novembro do ano passado. O trabalho doméstico com e sem carteira assinada permitiu o ingresso de 117 mil nessa atividade entre dezembro de 2020 e fevereiro último.

Em Minas


 A participação dos trabalhadores por conta própria e daqueles empregados sem carteira também ganhou expressiva importância no emprego em Minas Gerais. Os dados mais recentes da Pnad Contínua para as regiões e os estados são os do trimestre encerrado em dezembro de 2020. Esses dois grupos é que estão permitindo algum aumento da ocupação no estado.
 
Dos 9,303 milhões de pessoas ocupadas em Minas, 25,1% são trabalhadores por conta própria, contingente de 2,331 milhões. Esse grupo cresceu em 132 mil na comparação com o trimestre de julho, agosto e setembro de 2020, acréscimo de 6%. O número de empregados sem carteira alcançou 1,082 milhão no período encerrado em dezembro, 67 mil a mais, perfazendo aumento de 6,6%.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade