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Estado de Minas COVID-19

Coronavírus: Com a população de BH em quarentena, restaurantes tentam superar crise

Alguns proprietários de estabelecimentos passaram a adotar o serviço de delivery, mas vários comerciantes ainda resistem à funcionalidade


postado em 20/03/2020 19:58 / atualizado em 20/03/2020 22:55

Restaurante no bairro Fernão Dias atende cliente seguindo às normas do decreto(foto: Matheus Adler/EM/D.A Press)
Restaurante no bairro Fernão Dias atende cliente seguindo às normas do decreto (foto: Matheus Adler/EM/D.A Press)
Começou a valer nesta sexta-feira (20) o decreto assinado pelo prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que restringe o funcionamento de vários estabelecimentos comerciais, como casas de shows, shoppings, academias, entre outros, para conter o avanço do novo coronavírus (COVID-19). No caso de bares, restaurantes e lanchonetes, a norma é mais flexível, com as permissões de realizar vendas e entregas nos locais, desde que os funcionários manuseiem os alimentos e bebidas, além do delivery. O serviço, no entanto, diverge entre os comerciantes.

Flávio Machado Vilela é proprietário de um restaurante self-service no Funcionários, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ele conta que as taxas cobradas pelos aplicativos são altas, que impactam bastante na margem de lucro em cima dos produtos. É o principal motivo dele não adotar o delivery em seu estabelecimento. Geralmente é cobrado do comerciante 27% do valor de uma marmita, por exemplo. Vamos supor que ela custe R$ 30. O valor destinado à empresa do app, neste caso, é de R$ 8,10.

No primeiro dia de validade do decreto, Flávio abriu as portas e serviu marmitas a alguns clientes de empresas ao redor do estabelecimento. No entanto, vários deles já informaram ao proprietário que irão trabalhar de casa a partir da próxima segunda (23). Com uma queda de 90% no movimento, Vilela pensa em manter o restaurante fechado, por enquanto. Com alguns funcionários de férias, o empresário manteve alguns colaboradores, sobretudo do setor de limpeza. Mas ao que tudo indica, não trabalharão por muito tempo. “Pretendo vender marmitas na segunda, mas não vale a pena ficar aberto para vender 10 marmitas, por exemplo”, lamentou.

Quem também não concorda com a política de taxas dos aplicativos é Juliana Nyrrha. Proprietária de um self-service, ela destacou a alta concorrência nos apps. O estabelecimento dela está cadastrado em um desde semana retrasada, e não registrou nenhum pedido por lá. Mas para driblar a crise durante a quarentena voluntária da população, Nyrrha escalou um de seus funcionários que possui moto para fazer as entregas. 

“Desde o decreto, fizemos um contato direto com os clientes para entregar. Escalamos um de nossos garçons que tem moto para fazer as entregas. O valor da entrega varia dependendo da distância. Tem outros estabelecimentos que trabalham com delivery. Mudei meu negócio em 12 horas. É toda uma logística. Hoje (sexta) foi bom, tive alguns problemas, mas todos entenderam”, disse Juliana, satisfeita com os resultados obtidos no primeiro dia da restrição.

“Eu vendo uma média de 180 pratos e vendemos 60, até o momento. Foi até bom para o primeiro dia”, ressaltou.

Maki Samgawa também prefere apostar em um serviço de delivery fora dos aplicativos. Dono de um bar de comida japonesa sem peixe cru, no Carmo, ele confessa que passou dificuldades para implementar o sistema de entregas a domicílio em função da não experiência. O empresário contou com a expertise de um entregador para dar fluidez aos pedidos.

A expectativa para os próximos dias, no entanto, é incerta. Foram apenas 13 pedidos na última quinta. Maki analisa medidas para tentar sobreviver no mercado. “Está tudo sendo conversado e estudado. Dependendo da semana que vem, estudo a possibilidade de colocar todo mundo em aviso prévio”.

Nessa sexta, a reportagem do Estado de Minas flagrou a Guarda Municipal na porta de um restaurante na avenida Getúlio Vargas. Os agentes orientavam o proprietário do estabelecimento, Adilson Souza Carvalho, sobre o funcionamento depois da validação do decreto. Apesar de concordar com a atitude da prefeitura como cidadão, Adilson lamentou a queda brusca de receitas.

“Proibiram de abrir, e minha receita a partir de hoje cessa. Mas não cessou o IPTU, apenas postergou. Então não tem como quitar as despesas porque minha receita acabou. O problema maior é que eu tenho 16 empregados. O que fazer com eles? Até para demiti-los eu tenho um custo. É caro. Minha folha de pagamento gira em torno de 35 mil por mês, mais 20 mil reais de custos fixos. Eu tenho que vender durante o mês para bancar tudo isso”, desabafou.
 
Guardas municipais orientam proprietário de restaurante em primeiro dia de decreto(foto: Leandro Couri/EM/D.A press)
Guardas municipais orientam proprietário de restaurante em primeiro dia de decreto (foto: Leandro Couri/EM/D.A press)
 

E para quem entrega?!

Tiago Aredes, de 27 anos, percorre as ruas da região da Pampulha em dias úteis para entregar pedidos, enquanto a região da Savassi é a preferida dele para trabalhar nos fins de semana. No entanto, o jovem, que atua em três aplicativos, percebeu queda nas entregas.

Entregadores ficam próximos ao aguardar pedidos em porta de restaurante(foto: Matheus Adler/EM/D.A Press)
Entregadores ficam próximos ao aguardar pedidos em porta de restaurante (foto: Matheus Adler/EM/D.A Press)
Além disso, Aredes também enxergou redução no número de entregadores nas ruas. Vários deles entram no grupo de risco do coronavírus, como por exemplo, portadores de doença respiratória crônica. Apesar de o decreto da prefeitura prezar pela segurança, Tiago detectou algumas falhas.

“No nosso caso, por mais que tomamos precaução, tem restaurantes que acumulam um monte de entregadores na porta. Tem vez que ficam 20 esperando pedido. Ainda não é uma medida 100% eficiente. Tem serviços que não podem parar, como supermercados, mas o delivery é complicado. Não vejo como um serviço de extrema importância. Se for para juntar entregador na porta de estabelecimento, é arriscado. Eu tomo meus cuidados: afasto uns dois metros da pessoa, evito de ter contato direto, como aperto de mãos, ficamos um pouco suspeitos com dinheiro. Mas infelizmente não é todo mundo que tem essa consciência”, concluiu.


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