Publicidade

Estado de Minas ENTREVISTA/FERNANDO FRANCO - COFUNDADOR E PRESIDENTE DA PROVI

"Pessoas precisam de oportunidades", diz CEO do mercado de crédito estudantil

Fintech de financiamento educacional abre crédito até mesmo a estudantes negativados


postado em 19/02/2020 04:00 / atualizado em 19/02/2020 09:01

Para Fernando Franco, há demanda no mercado, a despeito do Fies: empresa pretende financiar R$ 80 milhões neste ano(foto: Provi/Divulgação)
Para Fernando Franco, há demanda no mercado, a despeito do Fies: empresa pretende financiar R$ 80 milhões neste ano (foto: Provi/Divulgação)

São Paulo – Fernando Franco, cofundador e CEO da Provi, começou a trabalhar no mercado financeiro pouco depois de se formar em engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o renomado ITA. Passou por Itaú BBA, Credit Suisse e BTG Pactual, mas logo percebeu que sua vocação era empreender.

Ainda sem ter em mente o que gostaria de fazer, percorreu alguns países da Europa, os Estados Unidos e a China para estudar o mercado de crédito. Foi em Xangai, durante um Congresso, que surgiu a ideia de oferecer crédito, mas com uma classificação de risco própria, que levasse em conta variáveis nada convencionais.

E foi justamente este novo olhar que permitiu o surgimento da Provi. Em seu primeiro ano, a startup emprestou pequenos valores para pessoas negativadas. Agora, o foco é financiar quem pretende fazer cursos rápidos para impulsionar suas carreiras. Confira a entrevista:

Você é CEO de uma fintech de financiamento educacional e diz que a empresa tem como propósito transformar carreiras. Como isso ocorre?
Buscamos momentos em que o crédito pode alavancar a vida das pessoas. Um desses momentos está ligado à educação. Dessa forma, vamos atrás de escolas e cursos que tenham alto potencial transformador. O aluno, ao se formar, terá adquirido novos conhecimentos que permitirão que tenha uma renda mais elevada do que tinha antes de fazer o curso. Na maioria dos casos, esse aluno não considerava o financiamento uma opção e acabava não fazendo o curso de que gostaria.


''O Fies já não consegue atender à demanda por educação no Brasil. Ainda que se façam parcerias com bancos e instituições privadas, o gap educacional no país é enorme''




Vale a pena financiar cursos de curta duração e alta intensidade?
Vale, por vários motivos. Nem todas as pessoas podem parar de trabalhar ou querem ficar sem trabalhar durante os quatro ou cinco anos de uma graduação. Além disso, em diversos cursos de graduação também existe um distanciamento entre o que é ensinado e o que é aplicado no mercado de trabalho. Soma-se a isso a alta taxa de vagas que não são preenchidas por falta de qualificação no Brasil. Nesse contexto, os cursos de curta duração e alta intensidade resolvem tanto a questão de formar profissionais mais rapidamente como a defasagem entre o que é aprendido nas faculdades e o que se aplica no dia a dia, uma vez que esses cursos se moldam às necessidades do mercado de trabalho.

Por que um engenheiro formado pelo ITA e com uma carreira em grandes bancos decidiu empreender nesta área?
No mercado financeiro, eu percebi como o crédito pode ser transformador na vida das pessoas, mas também pode destruir se não for usado da maneira correta. Quando usado para alavancar momentos de transformação, ele tem impacto muito positivo. O grande problema é que, independentemente do motivo que levava a pessoa a tomar o crédito, a precificação do produto é a mesma, seja para educação, para uma viagem ou apenas para fazer compras. Isso não faz sentido.


''As carreiras relacionadas à tecnologia e à pesquisa de dados seguem em alta. Os alunos que escolhem cursos nessa área têm um retorno mais rápido do mercado de trabalho''




Quando você percebeu que o melhor caminho para o seu negócio era investir em financiamento educacional?
Percebemos nessa divergência uma oportunidade de oferecer crédito de uma forma diferente, de mudar a relação do brasileiro com esse tipo de produto e ainda ter um impacto positivo na sociedade. Eu sabia que queria fazer crédito com propósito, e chegar ao financiamento educacional foi apenas uma questão de tempo.

Qual é o diferencial de sua empresa? Como é possível financiar cursos para desempregados negativados?
Não olhamos apenas o presente da pessoa, mas também o potencial futuro do curso que ela está escolhendo, onde pretende trabalhar, qual área irá escolher. Tudo isso é levado em conta. Não existe mágica, é só trazer fatores para a equação que antes eram deixados de lado. As pessoas precisam de oportunidades e sabemos que profissionais mais qualificados têm maiores chances de se recolocar no mercado de trabalho.

'' No mercado financeiro, eu percebi como o crédito pode ser transformador na vida das pessoas, mas também pode destruir se não for usado da maneira correta''




Quais cursos têm um melhor retorno financeiro?
As carreiras relacionadas à tecnologia e à pesquisa de dados seguem em alta. Com o mercado aquecido, os alunos que escolhem cursos nessas áreas têm um retorno mais rápido do mercado de trabalho.

Que benefício a Provi oferece para as escolas que se associam à empresa?
Além de trazer um novo formato de pagamento mais acessível para os alunos, o que faz com que mais pessoas façam os cursos, a Provi também adianta os recebimentos da escola, permitindo uma maior previsibilidade de fluxo de caixa e assumindo toda a inadimplência. Sabe aquela parte chata de cobrar e cuidar das questões financeiras? Fica com a gente. Dessa forma, a escola consegue focar seus esforços em aprimorar a parte pedagógica dos cursos.

Qual a expectativa de financiamento para 2020?
Para este ano, queremos ampliar o impacto na vida de pessoas. Dessa forma, o objetivo é fechar o ano com mais de R$ 80 milhões financiados.

Você acredita no Fies ou acha que o melhor caminho é o financiamento privado dos estudos?
Acredito que promover acesso à educação é uma necessidade latente do Brasil. Não acho que tenha que ser ou um ou outro. Quanto mais soluções que viabilizem educação para quem quer estudar, melhor para o brasileiro.

''Não olhamos apenas o presidente da pessoa, mas também o potencial futuro do curso que ela está escolhendo, onde pretende trabalhar, qual área irá escolher. Tudo isso é levado em conta''



Nos últimos anos, o Fies vem registrando índices elevados de inadimplência. Isso não é um problema grave para o programa?
O Fies já não consegue atender à demanda por educação no Brasil, embora continue sendo uma alternativa de crédito. Ainda que se façam parcerias com bancos e instituições privadas, o gap educacional no Brasil é enorme. Além disso, o Fies está focado em cursos universitários, só que precisamos de mais. São 11 milhões de pessoas desempregadas, a grande maioria não consegue investir quatro anos em uma formação.

Na sua visão, portanto, os cursos rápidos representam uma alternativa viável para quem não tem condições de dedicar muito tempo aos estudos.
Os cursos rápidos e intensivos são uma alternativa para essas pessoas e para o país. Sabemos que temos como agregar conhecimento na vida das pessoas e transformar suas carreiras. Acreditamos no potencial dessas pessoas.

É mais barato financiar um curso com a Provi do que com grandes bancos?
Sim. Como a gente garante a finalidade dos recursos, que só serão utilizados para educação mesmo, conseguimos colocar no modelo diversas variáveis a respeito do mercado de trabalho, do curso, do que a pessoa pretende fazer quando se formar, que normalmente o banco não olha. E, por isso, nosso financiamento é mais atrativo.

A Provi tem um produto específico para médicos que precisam estudar para a prova de residência. Por que investir nesse segmento e como funciona?
Sabemos que os problemas relacionados a dinheiro e educação não existem apenas na ponta do acesso à educação. Outro problema é da própria conciliação de estudos e trabalho e algumas pessoas acabam tendo que mudar os rumos dos estudos por precisar trabalhar. No mercado de medicina isso é uma realidade para os alunos que estão no fim da faculdade ou no começo da residência. Muitos deles simplesmente não conseguem focar nas provas ou desistem de fazer os exames por enfrentar dificuldades financeiras. Permitir que esses profissionais tenham essa folga financeira fará com que se dediquem mais aos estudos, se especializem e consigam uma renda potencial futura maior do que se não fizessem a residência. 

 



Publicidade