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Estado de Minas INOVAÇÃO

Tecnologia acaba com papelada nas reuniões de empresas

Criada há dois anos, startup brasileira desenvolve software que digitaliza a gestão de conselho e comitês. Plano é expandir-se para a América Latina e triplicar vendas em 2020


postado em 31/01/2020 04:00 / atualizado em 31/01/2020 07:44

(foto: Gerd Atmann/Pixabay)
(foto: Gerd Atmann/Pixabay)

São Paulo – Os especialistas em empreendedorismo e em inovação costumam dizer que uma das formas de chegar a um bom produto é procurar identificar as demandas não atendidas, ou seja, as dores dos potenciais consumidores.

No caso de Eduardo Carone, a ideia de criar a Atlas veio de uma necessidade pessoal. O empreendedor tem em seu currículo a participação em 23 conselhos de administração de grandes empresas. Em um deles aconteceu um problema grave: numa das reuniões, foi aprovada a contratação do seguro de responsabilidade civil para os conselheiros. A decisão constou em ata, mas seis meses depois houve um problema na companhia e um juiz decretou o bloqueio de R$ 500 mil das contas dos conselheiros. Foi preciso recorrer à Justiça para reverter a situação.

O caso mostra que muitas vezes os conselheiros não acompanham se as decisões foram implementadas. Carone decidiu investir em um software, batizado de Atlas Governance, que torna todos os assuntos e decisões de diferentes tipos de conselho – como administração e fiscal – digitais.

Com a ferramenta, o conselheiro consegue acessar os conteúdos de qualquer dispositivo, em qualquer momento ou local, acompanhar as implementações das decisões, monitorar o que não foi colocado em prática e ser informado sobre o agendamento de reuniões. “Na época em que a solução começou a ser desenvolvida, pensei que se não tivesse nenhum cliente ao menos ela serviria para mim”, recorda.

A automatização da gestão de conselhos e comitês absorveu em um primeiro momento cerca de R$ 1,5 milhão, aportados por Carone. Em uma nova rodada, um valor semelhante foi aportado por um grupo formado por 21 investidores. Entre eles, constam nomes como Leonardo Pereira (ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários), Wilson Amaral (ex-CEO da Gafisa), Paulo Camargo (CEO do McDonald's América Latina), Diego Stark (executivo do fundo Southern Cross) e Julio Sergio Cardozo (ex-CEO da Ernest & Young).

A plataforma de governança corporativa foi fundada há dois anos. Apesar do pouco tempo de mercado, já é líder no segmento em número de empresas atendidas e em quantidade de conselheiros usuários. Em faturamento, no entanto, duas multinacionais aparecem na frente da Atlas. Entre os cerca de 100 clientes estão Shopping Iguatemi, Riachuelo, CVC Turismo, CCR Rodovias, Cyrela, Even, Banco Carrefour, Usina BeloMonte e Gasoduto Brasil Bolívia.

A expansão rápida contou com uma ajuda importante. Enquanto os concorrentes têm contratos em dólar, a empresa de Carone cobra em moeda local. Segundo o empreendedor, o potencial é grande. São pelo menos 120 mil CNPJs que têm características para usar esse tipo de serviço.

Expansão 


Atualmente, a Atlas atende a 10% das empresas listadas em bolsa. Sua área de atuação pode vir a incluir ainda cooperativas – são cerca de 8 mil no país –, associações, sindicatos, ONGs e oscips. Só o total de organizações sem fins lucrativos com arrecadação superior a R$ 25 milhões por ano passa de 80 mil. Em 2019, as vendas da Atlas chegaram a R$ 3 milhões e a expectativa para 2020 é ter vendas adicionais de R$ 10 milhões. Carone avalia que outros fatores pesam no crescimento do mercado em que a Atlas atua.

“Quando se fala em governança e compliance, são mercados com tendência crescente de atenção por conta dos problemas de corrupção e de desvio de recursos. Com a Lava- Jato, denúncias envolvendo a Petrobras, por exemplo, todo o mercado avalia que precisa ter governança e compliance mais fortes”, explica.
 
(foto: Atlas/divulgação)
(foto: Atlas/divulgação)

''Lançamos o software com determinadas características, mas a própria demanda dos clientes o alimenta e leva a novas funcionalidades''

Eduardo Carone, fundador da Atlas

 

 

Transparência 


No caso de situações como a tragédia de Brumadinho (MG) em uma unidade da Vale, a percepção nas empresas sobre o aumento dos cuidados com a governança é a mesma. “Sem essas ferramentas, a exposição é gigantesca, porque os conselheiros podem simplesmente não ter identificado e mitigado enormes riscos que as empresas correm”, explica o empresário. Em momentos como esses, segundo Carone, “as empresas olham para dentro e pensam que poderia ter acontecido com elas.”

Grande parte do crescimento dos últimos anos tem a ver com empresas que querem ter governança e transparência maiores com o mercado. Esse comportamento tem relação, na opinião de Carone, com uma maturidade maior nos negócios.

Para atingir o crescimento nas vendas em 2020, Carone trabalha com a expectativa de iniciar a internacionalização dos negócios na América Latina em mercados como México, Colômbia, Argentina e Chile. Para isso, a Atlas deverá passar por mais uma rodada de investimentos, com aporte estimado entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, na metade do ano. A decisão de expandir a operação surgiu da demanda de clientes que já são atendidos no Brasil, mas têm negócios na região. Para 2022, o empreendedor espera chegar aos Estados Unidos.


Demanda


Algumas das soluções que fazem parte do software da Atlas sugiram da demanda dos clientes. Por exemplo, a necessidade de restringir o acesso a algumas informações das empresas. É o caso de conselheiros que têm participação em diferentes companhias e que podem estar em uma situação em que haja conflito de interesse.

“Por exemplo, um conselheiro da Vale indicado pela Bradespar não pode votar em uma matéria sobre quem vai fazer um financiamento”, exemplifica. Hoje em dia, recursos da ferramenta da Atlas possibilitam classificar uma pauta como restrita e impedir o acesso por esse ou aquele integrante do conselho. “Lançamos o software com determinadas características, mas a própria demanda dos clientes o alimenta e leva a novas funcionalidades.”

Atualmente, segundo Carone, a maior parte das empresas com pelo menos 100 funcionários tem ao menos um conselho consultivo. Mas a variação de conselhos vai além: fiscal, comitê de recursos humanos, comitê de auditoria, comitê financeiro, comitê de partes relacionadas e comitê estratégico.

Mas a adesão grande aos conselhos não significa necessariamente que haja uma modernidade nos processos. Há empresas que ainda encadernam os livros das atas. Carone explica que em muitas delas essa parte do negócio é a última etapa analógica a sobreviver. Além disso, a maior parte dos conselheiros é mais experiente. Portanto, menos acostumada a ferramentas tecnológicas. A idade média desses profissionais é de 56 anos, segundo o presidente da Atlas, mas há caso de centenários na ativa.

Segurança  


Softwares usados pelas empresas em seus conselhos, como o da Atlas, podem não apenas criar calendários de eventos e fazer a gestão de agendas, mas garantir a segurança das informações. Carone explica que hoje é possível colocar marcas d’água nos documentos e saber quem baixou um arquivo, em que dia e hora. A ferramenta ‘dedo-duro’ permite rastrear alguma tentativa de vazamento de informações confidenciais e até quem simplesmente não fez o dever de casa e deixou de consultar as informações do livro digital.

A digitalização das tarefas garante ainda mais praticidade para os conselheiros. Há livros que chegam a ter 300 páginas que precisam ser lidas em um mês. “Carregar as versões impressas não é nada prático. Com o software, você lê tudo em um tablet e faz buscas como se fosse o Google, porque está tudo indexado.”





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