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Estado de Minas AGRONEGÓCIO

Setor de etanol se anima com perspectivas de crescimento

O ano tende a ser positivo para as usinas graças ao programa de incentivo RenovaBio e ao cenário de produção e consumo em alta


postado em 17/01/2020 04:00 / atualizado em 17/01/2020 08:20

Com o preço da gasolina nas alturas, o álcool combustível é a opção dos motoristas na hora de abastecer nos postos (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Com o preço da gasolina nas alturas, o álcool combustível é a opção dos motoristas na hora de abastecer nos postos (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

São Paulo – Depois de subir 11,5% nos postos de combustíveis, maior aumento de preço desde 2015 – para a alegria dos empresários do setor –, o mercado brasileiro de etanol deverá registrar um crescimento importante da produção e da produtividade.

Pelos cálculos da União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica), que representa as usinas. a safra deste ano vai superar os 590 milhões de toneladas, 3% acima dos 573,2 milhões de 2018/2019. Detalhe: a produção será ampliada mesmo com uma área 2% menor – graças à melhor produtividade das lavouras, com a incorporação de novas tecnologias, e do clima favorável. Com isso, o ano deve quebrar um recorde histórico, com cerca de 35 bilhões de litros, mais de 7% de crescimento – sendo aproximadamente 10 bilhões de anidro e 25 bilhões de litros de hidratado.

“A indústria sucroalcooleira vive um momento de grande oportunidade, com cenário positivo para investimento, demanda global crescente e aumento significativo do consumo interno”, afirma o economista Paulo Venâncio, especialista em biocombustíveis da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Biocombustíveis 


Soma-se a esse cenário o RenovaBio, política de incentivo específica para o mercado de biocombustíveis. Com ele, os produtores que adotarem as boas práticas receberão uma espécie de pagamento pelos serviços ambientais.

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o RenovaBio vai gerar benefícios e novos investimentos ao produtor e fomentará o seu interesse em produzir mais. “O programa representa um grande marco para o setor sucroenergético do país”, afirma o economista Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME). “O RenovaBio surge como uma grande oportunidade de mais geração de renda nas regiões produtoras.”

Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, o RenovaBio será o grande motor do desenvolvimento do setor neste ano.  As principais companhias do setor, como Raízen, Cofco, Amaggi, São Martinho e Bonsucro, que certifica 4% da área de cana no mundo, estão ampliando seis investimentos em produção de etanol, inclusive feita a partir do milho. O país começou o ano com oito fábricas em funcionamento e seis em construção, mas possui outras 10 fábricas em fase de projetos.

Incentivo  


Na avaliação do economista Plínio Nastari, CEO da Datagro Consultoria e representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Energética no MME, a criação de uma política de incentivo ao setor, com foco em proteção ambiental, dará um grande impulso ao setor dentro e fora do país. “Nas metas de descarbonização estarão os ganhos do setor. Desde 1975, nunca houve uma referência que indicasse a direção da produção de biocombustíveis do Brasil. Agora temos”, afirma Nastari. “O RenovaBio é muito importante para o país porque vai nortear os investimentos.”

Atualmente, o setor sucroenergético brasileiro conta com 444 usinas, que respondem por um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 156 bilhões, segundo o dado mais recente do Cepea. As cifras, no entanto, podem ser muito maiores. Existem 90 usinas em recuperação judicial, afetadas por problemas de gestão ou pela política de controle de preços da gasolina nos últimos 15 anos – que resultou, principalmente, na perda de competitividade do etanol e gerou endividamento excessivo das empresas.

Trilhões

Para o MME, no entanto, há um horizonte positivo para as empresas do setor e para o etanol. Com o RenovaBio, em 10 anos essa política pode adicionar cerca de R$ 1,2 trilhão na economia do país. “Para se ter uma ideia, o Pré-Sal inteiro não vai gerar mais do que R$ 500 milhões no PIB brasileiro”, diz Oliveira, do MME. Mais de 170 empresas produtoras já se inscreveram para participar do RenovaBio. A meta é retirar cerca de 170 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera.

Outro ponto que deve favorecer o esperado crescimento do mercado brasileiro de etanol é a possibilidade do uso de outras matérias-primas, além da cana-de-açúcar, para a produção de etanol, como o milho. Nos cálculos da Unica, o etanol de milho deve alcançar uma produção de 1,5 bilhão de litros neste ano, um aumento de 90% acima dos quase 800 milhões da safra anterior. Agentes do setor estimam aumento expressivo da produção de biocombustível a partir desse cereal, podendo ultrapassar de 10% do total nacional nos próximos dois anos.

Pesquisadores do Cepea apontam que, em Mato Grosso, principal estado que produz etanol de milho, das 15 usinas existentes no estado, três são flex (utilizam cana e milho na produção de etanol) e duas são dedicadas à produção de etanol do cereal. Em breve, algumas usinas mato-grossenses também devem passar a processar o milho, enquanto outras devem ser construídas especialmente para o processamento desse cereal.

Competitividade

Traçado o cenário de aumento da produção, do consumo e dos investimentos, o preço do etanol deve continuar competitivo relativamente à gasolina nos estados que concentram a maior parte da produção e consumo nacional. Pesquisadores do Cepea afirmam que quando há um aumento da renda, o consumo de combustível tende a subir pela maior aquisição de automóveis e expansão do uso da frota existente.  Um exemplo disso é a alta das negociações de etanol hidratado em São Paulo na semana passada, segundo informações do Cepea. Algumas distribuidoras retomaram as compras, mas encontraram vendedores firmes, elevando as cotações.
 
Entre 6 e 10 de janeiro, o Indicador Cepea/Esalq do etanol hidratado (preço ao produtor) fechou a R$ 2,0679/litro (sem ICMS e sem PIS/Cofins), elevação de 1,1% em relação ao da semana anterior. No caso do etanol anidro, o indicador foi de R$ 2,2563/litro (sem PIS/Cofins), alta de 1,55% no mesmo comparativo. “Obviamente, a análise sobre o consumo de etanol no primeiro trimestre de 2020 precisa ser ponderada pelas perspectivas para petróleo e para o câmbio brasileiro. Espera-se relativa estabilidade nas cotações do petróleo ao longo do período analisado, ao passo que o câmbio brasileiro trace tendência de queda”, informou a consultoria INTL FCStone em relatório.

"Nas metas de descarbonização estarão os ganhos do setor. Desde 1975, nunca houve uma referência que indicasse a direção da produção de biocombustíveis do Brasil. Agora temos. O RenovaBio é muito importante para o país porque vai nortear os investimentos "

Plínio Nastari, CEO da Datagro Consultoria



Ameaça pode vir de fora


 

O único sinal de alerta para as empresas do setor tem sido uma possível redução das exportações. A Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA, na sigla em inglês) reduziu sua projeção de importação do biocombustível brasileiro produzido a partir da cana-de-açúcar neste ano em razão da necessidade de uso de biocombustíveis mais avançados.

A projeção atual é que apenas 60 milhões de galões de etanol brasileiro sejam importados em 2020, o que corresponde a somente uma pequena parte do total de biocombustível avançado a ser utilizado (5,04 bilhões de galões) pela frota americana.

A cota específica para bicombustíveis celulósicos deve crescer um pouco, passando de 420 milhões de galões de 2019 para 540 milhões de galões em 2020. Algumas usinas brasileiras, que produzem etanol a partir de bagaço, têm a possibilidade de atender a parte dessa demanda.

Hoje, aproximadamente 85% do etanol no mundo é consumido pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pelo Brasil – outros 60 países já introduziram o etanol em sua matriz energética.
 


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