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Estado de Minas ENTREVISTA/MÁRCIO KOGUT - CEO DO MYCON

"Queremos ser um consórcio para os latinos", diz executivo

No comando da nova empresa, o executivo vê mercado promissor, a despeito do juro básico baixo


postado em 06/01/2020 04:00 / atualizado em 06/01/2020 08:19

(foto: Mycon/Divulgação)
(foto: Mycon/Divulgação)

São Paulo – Depois de trabalhar por 20 anos como executivo do ramo de consórcios, Márcio Kogut quer agora reinventar o setor. Há dois meses, lançou a Mycon, operadora de consórcios digital. A expectativa dele é alcançar, nos próximos três anos, R$ 3 bilhões em créditos vendidos.

Para isso, se prepara para investir R$ 15 milhões em mídia e marketing neste começo de ano. A empresa, que em pouco tempo contratou 100 pessoas e tem outras 50 vagas abertas na área de tecnologia, prevê triplicar esse número nos próximos meses. Nesta entrevista, Kogut fala sobre o desenvolvimento do setor no Brasil e os planos de sua empresa. 

Depois de crescer 15% no primeiro semestre de 2019, o mercado de consórcios tende a esfriar com a redução da taxa Selic, que torna os financiamentos mais baratos. Qual será a saída para o setor?
A modalidade consórcio existe há 50 anos e sempre cresceu, ano a ano. Com o consórcio você não vai financiar um bem e pagar três. Quando a Selic baixa, que é o que está acontecendo agora, os juros ficam mais atrativos, mas você não tem a facilidade de acesso ao crédito dos bancos. Ao tentar financiar um imóvel junto a um grande branco, mesmo sendo correntista há muito tempo, a pessoa pode levar meses para conseguir o financiamento. Quando os juros baixam, os bancos travam o crédito, porque o risco é maior. São mais rigorosos e burocráticos na liberação desse crédito. Mesmo com a Selic baixando, o custo efetivo total dos financiamentos é de 12%. Ou seja, uma pessoa que financie um imóvel vai pagar, num banco, 12% ao ano. Já numa administradora de consórcio como o Mycon, pagará 9,99% em 10 anos.

A concorrência no setor de consórcios aumentou? Isso pode comprometer a rentabilidade das empresas?
Atuo como fornecedor de serviços de tecnologia no segmento de consórcios há quase 20 anos. As empresas do segmento são as mesmas e os bancos começaram a operar um pouco depois das administradoras de consórcios. Não existe aumento de concorrência no setor, porque é um tipo de negócio não muito rentável. Para ter rentabilidade nesse segmento, é preciso um volume de vendas muito grande e uma eficiência de gestão muito boa. É muito difícil haver novos entrantes no mercado de consórcios. Toda administradora de consórcios é regulamentada pelo Banco Central. Quase todos os meses as empresas passam por fiscalização de auditores independentes e empresas de go- vernança. Para obter uma licença de administradora de consórcio é tão difícil quanto ser licenciado para operar um banco. Ou seja, não existem novos entrantes, não existem novos concorrentes.

Como estão as fintechs nesse cenário? 
O Banco Central tem mudado a regulamentação das fintechs, que são empresas de produtos financeiros normalmente da área de empréstimos e pagamentos. As fintechs emprestam dinheiro para as pessoas e o risco é delas próprias, não do mercado ou da economia do país. Já um banco ou uma administradora de consórcio captam o dinheiro das pessoas. Por isso precisam ser regulamentados. Se eu captar muito dinheiro das pessoas e não entregar o bem, não fizer a contemplação, não entregar o produto para o cliente no final estou me apropriando do dinheiro das pessoas. Seria como colocar dinheiro no banco e, na hora de sacar os recursos não estarem disponíveis.

Num contexto de juros em queda, muitas empresas estão recorrendo a novas modalidades de consórcio. O que o Mycon planeja para os próximos anos?
Temos consórcios de imóveis, automóveis, máquinas, equipamentos e tratores. São bens móveis e imóveis. Existe também o consórcio de serviços, que atende a qualquer tipo de prestação de serviço. Uma festa de casamento, por exemplo, é uma prestação de serviços. Uma viagem, MBA, faculdade, reforma no imóvel, tudo isso é enquadrado na categoria de consórcio de serviços. O consórcio deve ser entendido como uma programação de compra inteligente, barata e planejada, e é nisso que nós focamos.

Existem parcerias sendo negociadas entre o Mycon e grandes redes varejistas, que têm oferecido seus próprios serviços financeiros?
Para 2020, temos no nosso plano estratégico fechar parcerias com empresas de serviços digitais, como superaplicativos que oferecem vários serviços agregados. Nossa estratégia é ganhar mercado e fazer parceria com os maiores marketplaces de produtos digitais no Brasil. A partir do segundo semestre, vamos operar no Uruguai, Colômbia e Peru, países onde há dificuldade para tomar crédito. Também vamos tentar operar nos Estados Unidos. Estamos analisando a regulamentação do país, o modelo de negócio, porque atualmente não existe esse segmento por lá. O que a gente pretende implementar é o mercado para latinos e até mesmo oferecer serviços para americanos que têm dificuldade de acesso ao crédito.

Como está o desempenho do Mycon e quais são os locais de maior potencial de crescimento no mercado brasileiro?
Em relação aos números do Mycon, é muito cedo para falar, porque nosso lançamento oficial ocorreu há cerca de dois meses, mas o projeto superou as expectativas. A meta era vender um determinado número e validar o modelo, mas vendemos 10 vezes o que tínhamos planejado. Estamos atuando em todo o Brasil. As primeiras vendas foram realizadas nos estados de Rondônia, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná.

Algumas empresas de consórcios faliram nos últimos anos, deixando consumidores no prejuízo e colocando em xeque a solidez do negócio. Como convencer o cliente de que o Mycon não corre esse risco?
As empresas de consórcio que faliram cometeram uma série de erros. O caso da Unilance e de outras administradoras é que elas deram pedaladas, porque não conseguiram ter receita e acabaram antecipando a taxa de administração. Elas anteciparam a taxa que receberiam em 100 meses e trouxeram isso para pagar os custos, as despesas da operação. Acabaram, com isso, tendo uma fragilidade na operação financeira. Ou seja, ficaram sem saldo nos grupos para contemplar os clientes. A partir do momento em que o custo operacional é maior do que o lucro da taxa de administração, a empresa acaba não sendo eficiente e é interditada. Foi o que ocorreu com a Unilance. A empresa foi interditada pelo Banco Central para proteger os clientes que tinham comprado os consórcios. Quando uma administradora dessas acaba falindo, o BC interdita, leiloa os bens, pega o dinheiro que estava nos grupos e distribui novamente aos consorciados para eles não ficarem no prejuízo. Por isso, esperamos que jamais o BC facilite a regulamentação como tem feito com fintechs de crédito e pagamentos.

Alguns bancos digitais não descartam atuar no setor de consórcios como forma de ampliar o leque de serviços. Qual é a sua avaliação sobre o acirramento da concorrência?
Não é tão simples assim para um banco digital entrar no segmento de consórcio. É preciso ter uma nova licença, outra gestão, outra operação. Na verdade, o consórcio para os bancos é meio que um patinho feio. Eles nunca vão dedicar tempo, dinheiro e gestão para operar como um consórcio. Mas nada nos impede de fazer parcerias com os bancos digitais para administrar o segmento de consórcio desses bancos e oferecer um produto mais eficiente. Do jeito que estamos crescendo, vamos liderar o mercado e a nossa ideia num curto espaço de tempo é virar um Nubank dos consórcios.

Qual será a fonte de capitalização do Mycon em 2020?
A fonte de capitalização do Mycon, como de outras administradoras de consórcio, é a taxa de administração. E tentamos ter a menor taxa do Brasil. Hoje, somos 50% mais baratos do que os outros consórcios e até 10 vezes mais baratos do que um financiamento. Como somos 100% digitais, com uma operação que usa inteligência artificial, conseguimos ser mais eficientes. E ainda vamos conseguir reverter parte dessa taxa para contemplar mais pessoas dentro dos nossos grupos, coisa que outras administradoras não fazem.

Em termos de número de clientes, segmentos e cifras de faturamento, qual é a ambição do Mycon para os próximos anos?
Depois do lançamento, vamos investir R$ 15 milhões em mídia e marketing em 2020. Estamos abrindo mais de 50 vagas na área de tecnologia e, nos próximos três anos, temos como meta ajudar 1 milhão de pessoas a comprar um bem e atingir R$ 3 bilhões em créditos vendidos. Queremos agilizar os processos. Nas outras administradoras ou bancos, quando o cliente compra uma cota de consórcio e é contemplado, pode levar até 90 dias para receber o crédito. Nossa proposta é entregar o crédito em até 48 horas.



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