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Estado de Minas

Guerra comercial entre EUA e China afeta economia do Brasil

Retaliações mútuas entre os dois gigantes econômicos tendem a frear o comércio internacional e prejudicar especialmente países emergentes


postado em 14/05/2019 08:21 / atualizado em 14/05/2019 08:34

(foto: PXHere)
(foto: PXHere)

A economia brasileira está fragilizada e terá que resistir a mais um grande impacto neste ano: a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A tensão entre as duas potências mundiais está mais inflamada, após o país asiático anunciar, ontem, que vai aumentar a taxação de produtos norte-americanos. Antevendo o impacto negativo na economia global, as bolsas de valores em todo o mundo caíram, assim como o Ibovespa, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que tombou 2,69% e terminou o dia em 91.726 pontos. O dólar subiu 0,87%, fechando a R$ 3,98.

As retaliações mútuas entre os dois gigantes econômicos tendem a frear o comércio internacional e, consequentemente, o desempenho da economia de todo o mundo. Os países emergentes serão os mais afetados, porque, no cenário de crise, o apetite dos investidores diminui, especialmente por aplicações em nações com economias mais instáveis, como o Brasil.

A China anunciou que vai elevar de 5% a 25% as tarifas sobre US$ 60 bilhões em produtos importados dos EUA a partir de 1º de junho. A medida foi uma resposta à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de subir impostos sobre as importações da China que ainda não haviam sido taxadas, o que deve afetar cerca de US$ 300 bilhões em produtos chineses. O reflexo foi imediato na Bolsa de Nova York: o índice Dow Jones caiu 2,38%, o S&P 500 recuou 2,41% e a Nasdaq tombou 3,41%.

Antes da nova onda de retaliações, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou, em abril, que a economia global iria se enfraquecer este ano, com o crescimento passando de 3,6%, em 2018, para 3,3% em 2019. Diante das barreiras para uma recuperação mais forte, o Brasil vê as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) desabarem.

De acordo com o relatório Focus, divulgado ontem pelo Banco Central (BC), a mediana das previsões dos analistas do mercado financeiro para a expansão da economia do país neste ano é de apenas 1,45%. Mas há instituições financeiras com previsões ainda piores. O Itaú Unibanco calcula que o PIB deve subir apenas 1%, depois de já ter avançado somente 1,1% no ano passado. As projeções para 2020 também estão em queda livre. O banco diminui a estimativa de 2,5% para 2%; o Santander revisou de 3% para 2,5%, e o Bradesco, de 3% para 2,2%.

Marasmo


O Brasil passou pela pior crise econômica, recentemente, com quedas de 3,8% e de 3,6% do PIB em 2015 e 2016, respectivamente. De lá para cá, cresceu 1% em 2017 e 1,1% em 2018. Economistas destacam que, para o tamanho da queda, a retomada está muito fraca. O desemprego atinge 13,4 milhões de pessoas, o que afeta o orçamento das famílias e limita o consumo. Com pouca demanda, há pouco investimento do setor produtivo.

A economia continua fraca mesmo com a taxa básica Selic no menor nível da história, em 6,5% ao ano, desde março de 2017. Além disso, a inflação está controlada — analistas de mercado acreditam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará em 4,04% neste ano. O centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 4,25%.

O economista Thiago Figueiredo, gestor da GGR Investimentos, avalia, porém, que, devido à instabilidade global, o dólar está em alta, o que tende a pressionar os preços no país. Além disso, tensões no Oriente Médio aumentam o valor do petróleo no mercado internacional. Mesmo assim, o especialista entende que a economia brasileira está tão fraca que precisa de estímulos. “A economia está tão devagar que não consegue repassar altas de preço para o consumidor. O comércio está fraco. A indústria tem desempenho muito abaixo do esperado. É difícil falar em risco de inflação nesse contexto”, afirmou. “É perfeitamente plausível a redução da Selic para tentar acabar com esse marasmo na economia.”

Contas públicas

O grande impasse, porém, continua nas contas públicas. Economistas ressaltam que, sem a sinalização clara de aprovação da reforma da Previdência, os juros devem continuar no mesmo patamar. Hoje, o Banco Central (BC) divulgará a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, que decidiu pela manutenção da Selic em 6,5% ao ano.

O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, destacou que o agravamento das tensões entre a China e os EUA é péssimo para as nações emergentes. “Nosso quadro é bastante frágil, e fica pior com a guerra comercial. Mas eu não vejo o Banco Central cortando os juros antes da reforma da Previdência, porque isso pode ser um risco para a economia”, argumentou.

Previdência é desafio


Em relatório, o Itaú Unibanco avalia que a fraqueza na atividade econômica e a inflação baixa abrem espaço para cortes na taxa Selic. “Mas este cenário é estritamente dependente da aprovação da reforma da Previdência, cujo impacto em termos fiscais deve ser entre 50% e 75% da proposta enviada pelo governo”, informa o banco. O texto feito pelo Ministério da Economia estima que, em 10 anos, será possível economizar R$ 1,236 trilhão. Se a previsão do Itaú se confirmar, o impacto fiscal será de, pelo menos, R$ 618 milhões em uma década.

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