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Estado de Minas

Diferença salarial entre homens e mulheres atinge todas as classes sociais

Para especialistas, estrutura cultural brasileira, que atribui a elas a responsabilidade por crianças e idosos, contribui para o quadro


postado em 08/03/2019 08:27 / atualizado em 08/03/2019 08:32

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O mercado de trabalho brasileiro ainda é injusto e abusivo com as mulheres tanto em relação às vagas disponíveis, quanto aos salários pagos pelos empregadores. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), relativa ao 4º trimestre de 2018, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no período foi de 11,6%, mas com diferenças significativas entre homens (10,1%) e mulheres (13,5%).

A diferença ocorreu nas cinco regiões do país, com destaque para o Norte, onde a diferença entre homens e mulheres foi a maior (22,9 pontos percentuais), e para o Sudeste, com a menor diferença (17,7 pontos percentuais).

Já o estudo País Estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, produzido pela Oxfam Brasil, em 2018 com dados de 2017, a diferença de salários entre os gêneros atinge todas as classes sociais.

De acordo com o estudo, em 2017, as mulheres receberem 70% dos rendimentos dos homens. A diferença ficou ainda maior do que em 2016, quando as trabalhadoras receberam o equivalente a 72% dos salários pagos aos homens. Os valores se referem à remuneração média paga a todos os trabalhadores brasileiros naquele ano.

No recorte do estudo que considera os 50% da população brasileira mais pobres, as mulheres tiveram renda equivalente a 75% da média obtida pelos homens neste segmento. Na classe mais rica, ou seja, a parcela de 10% dos trabalhadores, a variação foi ainda pior. Em 2017, as mulheres receberem o equivalente a 60% dos salários dos homens, enquanto em 2016,  foram 69%.

De acordo com o coordenador de campanha da Oxfam Brasil, Rafael Georges, a principal causa para os resultados desiguais no meio de trabalho vem da estrutura cultural brasileira e do preconceito. “O Brasil avança muito devagar no que tange a políticas de empoderamento feminino”, afirmou.  “A mulher ainda é a figura que tem obrigação de ficar em casa para cuidar dos filhos e das tarefas domésticas”, completou.

Falta suporte


“A mulher quase sempre cuida de criança e de idosos. Isso devia ser provido pelo Estado”, completa. Para ele, o Estado deveria dar mais suporte para a mulher ingressar no mercado de trabalho. Ele considera que esse problema poderia ser reduzido com a disponibilidade de mais creches. “No Brasil,  a regra é o homem ficar pouco tempo dentro de casa, e a mulher, disponível para a criança, sem tempo para a carreira dela”, comparou.

A presidente da Sempreviva Organização Feminista (SOF), Maria Luiza da Costa, aponta outros problemas, como a dupla jornada de trabalho que as mulheres enfrentam, o que limita o tempo disponível para elas se dedicarem à carreira. Ela lembra, ainda, que a média de ingresso das mulheres no mercado de trabalho coincide com idade média da maternidade. Além disso, Luiz acredita que a falta de representatividade feminina em cargos altos nas centrais sindicais resulta numa baixa progressão para as mulheres. “O mundo sindical ainda é bastante masculino. A maior parte das decisões nesse âmbito são tomadas por homens. É natural que não sejam previstos os problemas das mulheres”, explicou.

Para Luiza, a desigualdade de gênero vem ganhando espaço nos fóruns de discussão na sociedade. No entanto, ela acredita que as discussões ainda não se traduziram em ações práticas e políticas públicas. “Ainda falta organização e ação conjunta”.

Segundo a professora do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB) Débora Barem, as mulheres são as primeiras a sofrer as consequências durante as crises econômicas. Para ela, a reforma trabalhista aprovada durante o governo Michel Temer, em 2018,  afetou mais as mulheres. “Como elas já são o lado mais frágil no mercado de trabalho, acabam sendo as primeiras a serem demitidas ou empurradas para a informalidade”.

Para Débora, as mulheres deveriam ocupar mais os espaços de discussão e somar esforços para ocupar mais as cadeiras no Congresso Nacional. Nesta nova legislatura, elas representam apenas 10,7% dos parlamentares. Ainda é pouco, mas é o dobro do que há 20 anos.

* Estagiária sob supervisão de Claudia Dianni
 


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