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Estado de Minas

PIB melhor no 3º trimestre, mas nem tão bom assim

Expectativa de avanço econômico de julho a setembro é de até 1,1% em relação aos três meses anteriores. Desemprego e retomada lenta após greve dos caminhoneiros derrubam crescimento


postado em 25/11/2018 07:00 / atualizado em 25/11/2018 08:22

Linha de produção de fábrica de calçados a todo vapor no Centro-Oeste. Alta de 0,7% no setor industrial anima especialistas (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press %u2013 22/1/18)
Linha de produção de fábrica de calçados a todo vapor no Centro-Oeste. Alta de 0,7% no setor industrial anima especialistas (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press %u2013 22/1/18)


Apesar do tumultuado período pré-eleitoral, a expectativa dos especialistas é de que o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre venha melhor do que o dos três meses anteriores, de alta de apenas 0,2% em relação ao período de janeiro a março. As estimativas dos analistas consultados pelo Estado de Minas variam de crescimento de 0,5% a 1,1% para julho a setembro. Para eles, entretanto, a melhora não deve se manter no último trimestre.

As apostas desses especialistas para o PIB deste ano variam de 1,1% a 1,6%. A mediana das respostas de 75 economistas ouvidos pelo Banco Central, semanalmente, para o Boletim Focus, na última segunda-feira, estava em 1,36%, bem menos do que os 3% previstos no início do ano. O resultado da atividade no terceiro trimestre será divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na próxima sexta-feira.

O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, prevê alta de 0,7% na margem, mas minimiza o efeito do desempenho melhor no terceiro trimestre, porque a base de comparação é muito baixa, devido à greve dos caminhoneiros em maio, que derrubou o avanço de 0,4% de janeiro a março.

“Na realidade, a economia tem apresentado altos e baixos neste ano. Ainda não há indicadores de uma retomada consistente, o que indica que o crescimento será praticamente igual ao ano passado, de 1%”, resume.

Para ele, o avanço no terceiro trimestre será de 0,5%, com o PIB encerrando 2018 com expansão de 1,3%. Rosa enumera vários fatores que afetaram a recuperação da economia, como a deterioração das contas públicas, a maior incerteza no mercado externo e as eleições.

“O câmbio mais valorizado e a taxa de desemprego diminuindo de forma muito lenta refletem o mercado de trabalho. A criação de emprego no setor informal, em que a remuneração é mais baixa, faz com que a massa salarial fique estagnada, prejudicando um impulso maior do consumo”, completa.

Indústria


  
A economista Alessandra Ribeiro, sócia na Tendências Consultoria, estima 0,7% de alta entre julho e setembro, com destaque no lado da oferta para crescimento da produção industrial, que recuou 0,6% no segundo trimestre, e deve avançar 0,7% no terceiro, por conta de dados mais positivos em setembro. A agropecuária, que ficou estagnada entre abril e junho, deve registrar alta de 0,9%.

Do lado da demanda, o consumo das famílias e os investimentos devem vir com mais força, de 0,7% e 6,2%, respectivamente, enquanto os gastos do governo devem reduzir o ritmo para 0,1%, depois de avançar 0,5% no trimestre anterior, pelas projeções da Tendências, que também apontam crescimento nas exportações e nas importações.

Alessandra, contudo, prevê redução do ritmo de crescimento no quarto trimestre, de 0,5%. “Apesar do crescimento no trimestre, a indústria ainda está bem fraca e, em linhas gerais, a economia está se recuperando em ritmo moderado, desde a greve dos caminhoneiros, em maio. O quadro qualitativo mostra que a economia está caminhando. Há uma leve recuperação, inclusive, nos dados de emprego, mas o que está contribuindo para a geração de emprego é a informalidade. O quarto trimestre, tirando a sazonalidade, avança menos, mas ainda teremos um segundo semestre melhor do que o primeiro”, afirma. A previsão inicial para o PIB, de 2,8%, hoje está em 1,2%.

Silvia Matos, pesquisadora sênior da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), prevê alta de 0,8% no PIB do terceiro trimestre, mas admite que seja provável que venha mais elevado, devido aos efeitos relacionados à tradicional revisão que o IBGE costuma fazer nos dados trimestrais. Nesta última semana, o IBGE revisou queda do PIB em 2016, que passou de 3,5% para 3,3%.

Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim, espera alta de 0,5% para o terceiro trimestre na comparação com os três meses anteriores, e de 1,5% para o ano.

“A economia levou um choque com a greve em maio e está se recuperando, liderada por investimentos e pela produção industrial. O quarto trimestre deverá vir mais baixo do que o terceiro, porque a base de comparação será melhor. Mas, o histórico de 2018 é de retomada gradual, o que é uma boa notícia, depois de a economia apresentar estagnação desde 2016”, afirma.

‘Copo meio cheio’


O economista-chefe do Banco Votorantim ainda não fez previsão para o quarto trimestre, mas já está revendo os números para o próximo ano e pretende elevar de 2% para 2,5%. “Estou mais otimista. O novo governo tem condições políticas para aprovar uma reforma da Previdência boa, e isso é fundamental para a recuperação da confiança e a volta de um crescimento mais robusto”, afirma Padovani.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, lidera as apostas, com alta de 1,1% na margem do terceiro trimestre, mas não está entre os mais otimistas para o próximo ano. Apesar do resultado das eleições de outubro, com a vitória de Jair Bolsonaro (PSL), Vale não elevou a sua projeção do PIB para 2019, de alta de 2,2%, mantida desde junho, e um pouco melhor que o índice previsto para este ano, de 1,6%.

“Acreditávamos que haveria recuperação depois da greve de maio, mas lenta. Poderíamos ter alcançado quase 3% este ano se a greve não tivesse ocorrido, mas crescer 1,6% com todas as dificuldades políticas, além da greve, é bastante razoável. Esse número merece a visão do copo meio cheio”, afirma.

Artur Passos, economista do Itaú Unibanco, afirma que o banco, recentemente, elevou a projeção para 2019, de 2% para 2,5%, mas manteve a previsão para 2018 em 1,3%.

“Estamos prevendo um terceiro trimestre melhor que o segundo, com alta de 0,7%, mas isso não muda a trajetória que estamos prevendo para o ano, ainda precisaremos descontar alguns efeitos contábeis, porque a base foi menor. O mercado de trabalho está melhorando aos poucos e a confiança está crescendo, mas a intensidade da retomada dependerá do avanço das reformas do próximo governo”, afirma. Para ele, a aprovação da reforma da Previdência ajudará a elevar a confiança do mercado.

Na avaliação de Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, se existe uma certa tranquilidade com a escolha de uma equipe econômica alinhada com a agenda de ajuste fiscal, do ponto de vista político ainda existem muitas incertezas sobre como será o próximo ano.

“Para ficar alinhado ao discurso de campanha, Bolsonaro não está construindo uma base partidária. Os primeiros sinais não são animadores e isso não é nada saudável, porque o novo governo precisará de muito apoio para tocar uma agenda pesada”, alerta.

Desafios


Até mesmo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu, na última semana, a previsão de crescimento do país em 2019, de 2,5% para 2,1%, porque não está tão confiante no avanço das reformas pelo novo governo. Alessandra Ribeiro acredita que ainda não dá para ter muito otimismo em relação ao próximo ano, tanto que reduziu de 2,6% para 2% a previsão de expansão da economia.

 “O cenário em 2019 será mais desafiador, com uma desaceleração maior na economia mundial, devido à questão da agenda protecionista batendo em vários países e com a incerteza se as reformas serão feitas pelo novo governo”, justifica.

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