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Estado de Minas TURISMO

Falta de infraestrutura frustra empresas de cruzeiros marítimos

Maiores companhias do setor trouxeram apenas sete navios para o país no ano passado, quase um terço do verificado em 2010/2011. Estudo mostra que segmento fatura R$ 1,8 bi


postado em 23/10/2018 06:00 / atualizado em 23/10/2018 08:12

Navio da italiana MSC, que este ano trará para a costa brasileira o MSC Seaview, o MSC Fantasia e o MSC Poesia e reforça suas apostas no Brasil(foto: Ivan Sarfatti/Divulgação)
Navio da italiana MSC, que este ano trará para a costa brasileira o MSC Seaview, o MSC Fantasia e o MSC Poesia e reforça suas apostas no Brasil (foto: Ivan Sarfatti/Divulgação)

São Paulo – Nos últimos 20 anos, o mercado de cruzeiros marítimos cresceu de vento em popa. Embaladas pelas promessas públicas e privadas de investimentos em ampliação da infraestrutura turística para o setor, grandes empresas globais, como Costa Cruzeiros, MSC, Pullmantur, Royal Caribbean, entre outras, trouxeram ao país alguns de seus melhores navios.

Na temporada 2010-2011, os mares brasileiros chegaram a receber o recorde de 20 navios de passageiros, com 800 mil turistas. Mas as expectativas se frustraram. Sem os prometidos investimentos e com a chegada da crise, o mercado quase naufragou. No ano passado, apenas sete navios navegavam pelo litoral brasileiro. “Perdemos 13 navios e caímos para 358 mil cruzeiristas”, diz Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil).

Mas parece que os ventos começaram a soprar a favor do Brasil novamente. Na última temporada de cruzeiros, de setembro de 2017 a abril de 2018, o setor faturou R$ 1,8 bilhão, segundo estudo da Clia Brasil em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). “O potencial dos cruzeiros no Brasil é imenso e os números mostram que estamos retomando um leve ritmo de crescimento”, afirma Ferraz. “Podemos crescer mais se tivermos melhorias na regulação do setor, infraestrutura, custos e desenvolvimento de novos destinos. Se estivéssemos com o mesmo número de crescimento da temporada 2010-2011, o impacto já poderia ter ultrapassado R$ 4 bilhões.”

Uma prova de que o setor está navegando em mares mais calmos neste ano é a aposta da italiana MSC. Na próxima temporada, a empresa trará para o país o recém-inaugurado MSC Seaview, o MSC Fantasia e o MSC Poesia. “A MSC Cruzeiros aposta fortemente no Brasil e em seu potencial”, afirma Adrian Ursilli, diretor-geral da empresa no país. “É um dos mercados estratégicos da empresa, onde mantém investimentos constantes e é líder com 62% de market share.”

Para debater saídas para o setor, a Clia promoveu em agosto, em Brasília, uma série de debates com importantes autoridades e nomes de diversos segmentos, abordando temas como o alto custo operacional, a carga tributária, a regulamentação e a questão de infraestrutura portuária, temas que provocam diferentes impactos nos cruzeiros que cruzam a costa brasileira.

Estela Farina, presidente do Conselho da Clia, resume o que foi debatido na ocasião. “Aquela temporada 2010-2011, com 20 navios no nosso litoral, não sai da cabeça”, diz a especialista. “Não faz sentido o Brasil não estar no centro do mercado mundial de cruzeiros. Poucos países possuem um potencial tão grande e tão mal realizado. É preciso dar as condições para que esse potencial se realize.”

O ministro do Turismo, Vinicius Lummertz, concorda com a executiva. Segundo ele, o Brasil precisa traçar uma estratégia clara de atração de investimentos com a melhoria do ambiente de negócios e a redução da burocracia. “Não é possível que um investidor precise esperar 12 anos para abrir uma marina ou um resort no Brasil ou que a burocracia expulse os cruzeiros dos nossos litorais”, diz Lummertz.

Não é mesmo fácil fazer negócios no Brasil. O diretor da Royal Caribbean no país, Mário Franco, diz que, na temporada 2018-2019, os navios da companhia estarão na costa brasileira só de passagem. “As autoridades querem tributar, querem saber da legislação trabalhista, logo fica difícil de realizarmos navios de cabotagem, por exemplo. O Brasil não percebe que a competição é internacional e não doméstica”, completou.

Sobre as questões trabalhistas, um dos maiores entraves do setor, os especialistas dizem que existe a necessidade de uma melhor interpretação do poder Judiciário do Brasil no que diz respeito às convenções do trabalho marítimo nos cruzeiros. O país está na contramão ao não respeitar as regras, normas e convenções internacionais. “Temos 50 nacionalidades diferentes dentro de um navio regidas pela mesma convenção internacional”, diz Naim Ayub, diretor da Costa Cruzeiros. “Os brasileiros, no entanto, seguem outra norma, o que influencia na harmonização a bordo e uma maior rotatividade de funcionários.”

Entrevista


(foto: Ivan Sarfatti/Divulgação)
(foto: Ivan Sarfatti/Divulgação)

O presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos, Marco Ferraz (foto), fala sobre as perspectivas do setor para a próxima temporada, detalha os entraves que impedem o aumento do número de viagens no país e diz o que é preciso fazer para atrair
mais turistas.

Quais são as perspectivas para o setor?
Para chegarmos nas perspectivas, temos de voltar seis anos no tempo, no ápice da temporada de 2010/2011, quando fretamos aqui 20 navios e 800 mil turistas embarcaram nesses navios. De lá até a temporada de 2016/2017, caímos muito, para apenas sete navios. Ou seja, perdemos 13 navios e caímos para 358 mil cruzeiristas. E, pela primeira vez, nesses últimos sete anos, crescemos na temporada passada em número de turistas, mesmo mantendo os sete navios da temporada anterior.

"Os cruzeiros não precisam de um porto para operar. Um píer resolve"

Marco Ferraz, presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos



Com foi possível receber mais hóspedes a bordo com menos navios?
Porque a temporada ficou um pouco maior. Os navios cresceram e realizaram mais mini-cruzeiros. Então, foram essas três estratégias que foram adotadas para crescer, mesmo mantendo só os sete navios. Pensando em perspectiva, na próxima temporada vamos também ter uma oferta maior. Podemos ter mais de 60 mil hóspedes a bordo, mantendo sete navios. Claro que isso será possível com um navio bem maior, ficando mais dentro do Brasil e explorando mais mini-cruzeiros também no começo e no fim da temporada.

Quais são os maiores entraves para o setor?
Nosso grande obstáculo é a falta de infraestrutura. Faltam terminais de passageiros apropriados, faltam novos destinos, faltam investimento em dragagem, em cartas náuticas, e píeres. Os cruzeiros não precisam de um porto para operar. Um simples píer resolve. Mas nem isso temos. O navio joga a âncora e todos os passageiros descem com uma lancha e visitam a cidade. Nos outros países, a infraestrutura é muito melhor.

Se houvesse mais investimentos em infraestrutura, tudo estaria resolvido?
Não tudo. Os custos para se operar no Brasil são absurdos. Os cruzeiros têm no Brasil custos muito mais altos do que na média mundial. E isso acaba atrapalhando a competitividade. As empresas que poderiam trazer navios pra cá acabam os enviando para China, Austrália, Caribe e Europa. Precisamos trabalhar com urgência na redução de custos. Outro fator são os impostos. As empresas de fora acabam sendo obrigadas a contratar escritórios só para cuidar da burocracia. Isso assusta e gera custos. Um exemplo disso é o PIS e Cofins em combustível que os navios de passageiros desembolsam, muito acima do que pagam os navios de carga.

Os navios de grande porte usados na Europa podem operar normalmente no Brasil?
No Brasil, eles também operam. Nessa temporada, vai entrar no país um navio com 5.400 passageiros. Vai ser o recorde na América do Sul, agora no começo de dezembro. O Brasil tem também navios no Rio Amazonas, mais ainda há muito espaço para crescer.

A privatização é o caminho para o setor voltar a receber investimentos?
Já são privatizados alguns terminais. Hoje, quem faz o investimento é a iniciativa privada, como foi feito em Santos, no Rio de Janeiro e em Salvador. Os três principais terminais do país estão nas mãos de atividade privada.


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