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Estado de Minas ENTREVISTA

"O Brasil caminha para uma situação-limite", diz Eduardo Giannetti

Para especialista, correção de preços da Petrobras submete brasileiro a um pregão diário


postado em 04/06/2018 06:00 / atualizado em 04/06/2018 08:30

(foto: Marcelo Sant'Anna/Estado de Minas - 10/10/2005 )
(foto: Marcelo Sant'Anna/Estado de Minas - 10/10/2005 )

São Paulo – O economista Eduardo Giannetti, de 61 anos, elaborou dois planos de governo para Marina Silva, então candidata à presidência nas eleições de 2010 e 2014. Graças à sua incursão na política, ele estudou a fundo a relação entre as políticas públicas e a vida dos brasileiros. Graduado em economia e ciências sociais pela Universidade de São Paulo, e doutor em economia pela Universidade de Cambridge, Giannetti analisou, em entrevista exclusiva aos Diários Associados, os efeitos da greve dos caminhoneiros e o desempenho do governo do presidente Michel Temer nesse episódio. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Passada a fase mais complicada da greve dos caminhoneiros, o país deve se preparar para novas paralisações em breve?
Esse episódio pertence a uma linhagem à qual também pertencem as manifestações de junho de 2013. Começou por uma questão aparentemente muito localizada, o reajuste de vinte centavos no transporte público de São Paulo, e rapidamente se disseminou, com ampla adesão da sociedade brasileira. A dinâmica foi parecida, com apoio social, mas acabou descambando para a violência, para radicalismos de grupos minoritários que tentam instrumentalizar o movimento. Acredito que não será o último episódio. O Brasil está caminhando para uma situação-limite em relação ao ônus que significa para a sociedade transferir anualmente cerca de 40% da renda nacional para o setor público e não enxergar nenhuma contrapartida disso em termos de investimentos de políticas públicas. Não sei se novas paralisações serão tão imediatas. Mas esse episódio expôs um governo extremamente frágil, vulnerável e que rapidamente foi colocado na parede, assim como ocorreu com o governo Dilma, em 2013, que levou a uma declaração muito curiosa do secretário Gilberto Carvalho, que chamou o povo de ingrato. Isso nos faz lembrar muito a Revolução Francesa.

Em que o governo errou e acertou nesse episódio?
São muitos os erros, mas acho que um dos elementos que ficou claro no que ocorreu nas últimas semanas é que, se por um lado a governança nas estatais melhorou muito nos últimos anos, principalmente a partir do início do governo Temer, com destaque para Petrobras, Eletrobras e Infraero, por outro lado a política de reajuste diário dos preços dos derivados de petróleo se mostrou equivocada. Isso transmite ao consumidor comum, aquele que compra gás, gasolina e diesel, toda a volatilidade de mercados extremamente nervosos, como são o mercado internacional de petróleo e o regime de câmbio flutuante. Então, acho que tem de prevalecer o reajuste tarifário, sem dúvida nenhuma, mas é preciso suavizar os repasses automáticos para impedir que essa volatilidade extrema chegue todos os dias ao bolso do consumidor.

O senhor acredita que a Petrobras terá de rever sua política de reajustes diários dos combustíveis ainda neste ano?
Acredito que sim. Não tenho uma fórmula, mas algum tipo de suavizador, uma média móvel trimestral ou algo assim, para amortecer os picos de alta e de baixa, terá de ser elaborada. O modelo atual não funciona.

Mas e quanto ao modelo de controle de preços adotados no governo do PT?
O Brasil é curioso, e sempre vai de um extremo ao outro. Primeiro vai de um intervencionismo de mão muito pesada no governo Dilma, que represou o preço dos derivados de petróleo de maneira totalmente irresponsável, e depois vai para um fundamentalismo de mercado que faz da gasolina e do diesel quase um pregão diário de mercado financeiro. Virou um preço de alta frequência, corrigido todos os dias. Também é um exagero absurdo e me parece uma total falta de sensibilidade social.

"A greve dos caminhoneiros expôs um governo extremamente frágil e que rapidamente foi colocado na parede, assim como aconteceu com o governo Dilma em 2013"



Qual é sua avaliação sobre o pedido de demissão de Pedro Parente da Petrobras?
O Pedro Parente acabou sendo envolvido em um turbilhão de problemas políticos. O pedido de demissão dele não era esperado e eu lamento muito a maior estatal brasileira perder um dos melhores executivos que o Brasil possui atualmente. Tenho críticas em relação à política de reajustes diários dos preços, mas isso não levanta dúvidas sobre sua capacidade como administrador. É uma pena. Realmente, lamento muito.

Por que o sistema de reajustes diários funciona nos Estados Unidos e não no Brasil?
Os Estados Unidos não enfrentam a volatilidade do câmbio porque o preço do petróleo já está diretamente em dólar, na moeda deles. No Brasil, além de sofrer com a oscilação do barril do petróleo, ainda temos o sobe-e-desce do dólar. Daí coincidiu, nos últimos meses, de o petróleo subir demais no mercado internacional com a disparada do dólar, por uma questão de política monetária americana. Como os americanos sinalizaram que vão elevar os juros, houve uma desvalorização generalizada das moedas das economias emergentes, inclusive o real.

Os movimentos grevistas poderão comprometer o PIB deste ano, que já veio fraco no primeiro trimestre?
Com certeza isso vai afetar a economia. Não tenho nenhuma dúvida. A economia já vinha num ritmo de recuperação claudicante, desapontador, e sofreu mais um abalo agora. Perdeu confiabilidade. O Brasil, nesse ambiente de crise e pré-eleição, está reduzido a um nível mínimo.

O governo Temer já reduziu recursos da saúde e da educação para compensar a queda de arrecadação com o diesel...
Uma greve como esta mostra quem é que paga a conta no Brasil. É o trabalhador. O governo não cria recursos. Ainda não entrou no pensamento do brasileiro comum a ideia de que o governo não gera receita, não cria valor. Apenas transfere valor criado de um ponto para outro.

Qual será o impacto nas eleições?
Ainda é cedo para avaliar o efeito eleitoral. Existem quatro candidatos competitivos no Brasil hoje: Geraldo Alckmin, Mariana Silva, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro. Dificilmente não será um desses o próximo presidente do Brasil. Outro ponto bastante claro é que teremos um segundo turno com um de dois cenários: ou teremos uma disputa de dois extremos, uma polarização, ou teremos pelo menos um candidato de centro, reformista.

A crise gerada pela greve não tende a prejudicar o desempenho de candidatos favoráveis à economia de mercado?
Não acredito. Penso que o episódio tende, sim, a explicitar ainda mais a gravidade fiscal brasileira. A população brasileira precisa saber que está transferindo anualmente para União, Estados e municípios 34% de tudo que ela produz. Só que não para aí. O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada. Hoje, o déficit nominal é de 6% do PIB. Então, 40% de toda renda nacional transita pelo setor público. E metade dos domicílios brasileiros não tem sequer saneamento básico. Como é possível isso? O Bolsa Família representa apenas 0,5% do PIB. É a migalha que cai da mesa. E tem impacto gigantesco na vida de milhões de famílias. Então, existe alguma coisa profundamente errada das finanças públicas brasileiras. E, por isso, precisamos entender, trabalhar e mudar.

A greve dos caminhoneiros pode forçar uma reforma tributária no próximo governo?
Não só tributária, mas também fiscal. É obrigação dos candidatos apresentar suas ideias sobre o que pretendem fazer com um Estado que drena 40% de sua riqueza e não entrega, minimamente, infraestrutura e políticas públicas que justifiquem seu tamanho.

"A sociedade transfere anualmente 40% da renda nacional para o setor público e não enxerga nenhuma contrapartida disso"



Mas o governo já cogita aumentar impostos para compensar a redução do preço do diesel.
Aumentar a carga tributária é um caminho que se esgotou. De 1988 para cá, todos os governos que passaram pelo poder aumentaram a carga tributária. Foi o jeito que encontraram para acomodar o crescimento crônico dos gastos correntes do Estado. Agora, acabou esse caminho. Esgotou-se o ciclo de expansão fiscal. E a presidente Dilma fez o favor de arrebentar as contas públicas e deixar a dívida brasileira em uma trajetória explosiva de crescimento.

Se a presidente Dilma ainda estivesse no poder, em qual cenário econômico o país estaria hoje?
Não consigo nem imaginar o que teria acontecido com a economia brasileira se a Dilma tivesse continuado no governo. Por mais que me esforce, não consigo pensar qual seria o caminho que teríamos tomado no Brasil. Estávamos na UTI, com sinais vitais em queda livre. Não sei onde isso ia parar.

O que explica a iniciativa de alguns grupos da sociedade de pedir intervenção militar?
Tenho a impressão de que é uma minoria radical dentro do movimento, assim como os Black Blocs na manifestação de junho de 2013. Quem pede intervenção militar é equivalente aos Black Blocs. Agora, é gente que não tem a menor noção do que está falando e do que está fazendo. Se eles tivessem vivendo sob um regime militar, não poderiam, inclusive, estar expressando suas opiniões da maneira que estão fazendo. É um paradoxo isso. Se existe hoje direito de greve no Brasil, e é bom que se tenha de forma legítima e constitucional, é graças à democracia. Se existe direito de livre manifestação, inclusive para uma asneira como essa de pedir intervenção militar, é porque temos democracia.

"O Brasil sempre vai de um extremo a outro. Primeiro vai de um intervencionismo pesado no governo Dilma e depois para um fundamentalismo de mercado que faz da gasolina um pregão diário de mercado financeiro%u201D



As perspectivas de aumento do protecionismo em todo o mundo podem prejudicar o Brasil?

Acredito que não irá se materializar o risco de uma guerra comercial e uma guerra protecionista. É mais bravata de governo Trump (presidente dos Estados Unidos). Um fato relevante é que, mesmo no pior momento da economia brasileira, em 2015 e 2016, o investimento direto estrangeiro no país continuou robusto. Tenho a impressão de que os investidores externos têm mais confiança no Brasil do que os próprios brasileiros.

O senhor lançará, na próxima semana, um livro intitulado “O elogio do vira-lata e outros ensaios”. O brasileiro tem complexo de vira-lata?
Sim, tem, mas não podemos confundir o circunstancial da conjuntura com o permanente da cultura. O Brasil já passou por altos e baixos ao longo de sua história, e se recuperou. Não tenha dúvidas de que vai voltar a se recuperar.

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