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Estado de Minas TRABALHO

Encarar novo emprego vale ou não a pena? Saiba como tomar a importante decisão

Mudar de cidade ou país por causa de uma vaga de emprego é uma decisão que costuma deixar muitos profissionais inseguros


postado em 04/07/2017 16:21 / atualizado em 04/07/2017 17:13

(foto: Paulinho Miranda)
(foto: Paulinho Miranda)
Mudanças assustam. Ainda mais quando envolvem a carreira. Muitos profissionais ficam inseguros ao encarar o risco e o passo for errado. Vale a pena trocar de cidade por um emprego? Laydyane Gomes Ferreira, coach e consultora de gestão empresarial, enfatiza que consegui-lo não é uma tarefa fácil. “Nem na sua cidade natal, nem fora dela. A preferência dos headhunters nesse momento é que os candidatos sejam da mesma cidade. Mesmo assim, para o universo de executivos, pesquisas de renomadas empresas revelam um baixíssimo percentual de profissionais nascidos em Minas Gerais e que têm atuação dentro do estado. O percentual chega a 80% de pessoas de outros estados trabalhando em Minas.”

Independentemente dos cenários, Laydyane Ferreira propõe uma provocação para pensarmos com o foco na carreira e não com o foco no local. Qual é a sua paixão? O que move você? “A paixão abre muitas portas, pois atrelada à pratica e aos resultados, credencia o profissional para muitas oportunidades. Quem não quer ter em sua empresa uma pessoa apaixonada pelo que faz? E são os feitos de carreira somados às estratégias corretas de networking que habilitam o profissional para estar em diversos cenários.” Ela destaca que “estar na rota de fazer o que ama te coloca em qualquer mercado, mas não em qualquer empresa: adaptar à cultura da organização é, às vezes, mais difícil do que adaptar a uma nova cidade”.

Para a coach Lydyane Ferreira, fazer o que ama coloca o profissional em qualquer mercado, mas não em qualquer empresa(foto: Arquivo Pessoal)
Para a coach Lydyane Ferreira, fazer o que ama coloca o profissional em qualquer mercado, mas não em qualquer empresa (foto: Arquivo Pessoal)
De acordo com Lydyane Ferreira, os maiores índices de insucesso em transição estão ligados à adaptabilidade à cultura da organização e às lideranças. “Analise bem se o seu perfil combina com aquele desafio. Por exemplo: se você gosta de autonomia, trabalhar em empresas focadas em comando e controle, sem abertura para mudança, é um risco alto. Se o profissional tiver sabedoria, ele poderá ser mais feliz longe de casa, mas adepto a uma cultura da empresa do que perto de casa e infeliz”. A coach afirma que “algumas empresas costumam valorizar muito os profissionais que saem de sua cidade para trabalhar em outra localidade”.

VITÓRIA É o caso do Guilherme Garcia, gerente de processos/desempenho da Bartofil Distribuidora, com experiência internacional, que deixou Vitória para trabalhar em Ponte Nova, no interior de Minas. “Certamente, a vida pessoal influencia muito no momento de optar por ir pra longe. Entretanto, estar aberto a oportunidades distantes pode trazer a tão sonhada satisfação profissional: ter seus valores alinhados aos da empresa é um dos maiores segredos para se encontrar profissionalmente. A pessoa que entende isso tem a visão mais ampla do mercado e, ao se abrir às oportunidades, descobre as diversas possibilidades de ser valorizado e respeitado como profissional. Os resultados serão apenas consequências e fortalecerão a parceria, confirmando a assertividade da escolha”, afirma.

Para se adaptar a uma nova localidade, Laydyane Ferreira recomenda reestabelecer a vida da mesma forma que era antes. “Se for casado e tiver filhos, dê um prazo de seis meses a um ano para fazer a mudança definitiva. Se você fazia alguma atividade física, volte imediatamente para a sua rotina. Faça trabalhos voluntários atrelados ao seu propósito de vida. Além de ajudar, conhecerá pessoas e aumentará experiências no currículo (para 42% dos RH’s, uma experiência voluntária tem o mesmo peso de uma experiência profissional).”

Conforme a coach, com a crise, os profissionais estão mais humildes, flexíveis e procurando alternativas no interior e em outros mercados. “Isso é muito bom. Estamos nos preparando para um futuro muito próximo e com a chegada da inteligência artificial, a única certeza que temos será um cenário de incertezas. Mudar de cidade é um excelente treino para competência, flexibilidade, além de tirar profissional da zona de conforto e gerar crescimento pessoal”, afirma.

Sucesso “longe de casa”

1 – Faça contatos com pessoas daquela cidade (networking), elas podem indicar ou recomendar você nas empresas que tem interesse de atuar
2 – Participe de eventos na região. É uma oportunidade de conhecer pessoas novas
3 – Mapeie as empresas daquela região. Saber quem você quer alcançar é ideal para qualquer profissional
4 – O empregador pode ficar inseguro ao ver o endereço de outra cidade no currículo, correndo o risco de descartar o candidato no ato. O receio é de o profissional não se adaptar à nova cidade ou atividade e que peça desligamento ou seja demitido, o que envolve altos custos ao empregador. Por isso, deixe evidente suas qualidades profissionais e se certifique que está disposto e apto a exercer a função solicitada
5 – Ao encaminhar um CV por e-mail, mencione no corpo do texto a informação de que tem forte interesse em se mudar para a cidade. Deixe claro com o termo “disponível para mudanças”

Fonte: Madalena Feliciano, gestora de carreira da Outliers Careers

 

 

Resistência à mudança

A decisão de mudar de cidade por uma vaga de emprego é aterrorizante para alguns e um prazer para outros. E não deixa de ser um desafio para todos. O importante é a consciência de que irá lidar com perdas e ganhos. Adriana Prates, CEO da Dasein Executive Search, explica que sendo as regiões Sudeste e Sul as mais industrializadas e populosas do Brasil, acaba que essa resistência a se mudar para outros lugares é comum, seja no início de carreira ou não.

“Definitivamente, São Paulo é o estado que concentra o maior parque fabril não só do Brasil como da América latina, seguido pelo Rio e Minas. Se considerarmos os últimos cinco anos, esses estados foram os mais afetados, já que a alta concentração de vagas vira grande desvantagem nos tempos de crise. O índice de desemprego aumentando potencializa a competição, o que dificulta o acesso ao mercado de trabalho. Infelizmente, muitos insistem demasiadamente nesses polos industriais e deixam de buscar por oportunidades em regiões que continuam crescendo no Brasil como o Centro-Oeste, Norte e Nordeste”.
CEO da Dasein, Adrianda Prates destaca as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste com oportunidades de trabalho (foto: Arquivo Pessoal)
CEO da Dasein, Adrianda Prates destaca as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste com oportunidades de trabalho (foto: Arquivo Pessoal)

Adriana Prates enfatiza que isso ocorre devido a vários fatores. “A indústria brasileira finalmente iniciou uma desconcentração dos polos industriais, o que tem ocorrido no Brasil de Norte a Sul, gerando nova demanda de procura por profissionais, tanto associada ao crescimento de outros estados, como pela falta de qualificação técnica/profissional que algumas regiões ainda sofrem”, diz. Ela destaca que os estados que mais se destacaram na ampliação do mercado de trabalho foram Tocantins, Goiás, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pernambuco. “Não só no segmento industrial, mas de serviços.”

Nesse sentido, avisa Adriana Prates, “planejar trabalhar numa região diferente de onde mora atualmente não é somente uma questão de escolha, mas também de necessidade, uma vez que a retomada do crescimento demorará para ocorrer aqui. E nas regiões citadas, nem sequer houve queda da geração de empregos. Muito pelo contrário, houve aumento nas taxas de emprego e exportações”. Ela reforça que nos tempos em que a economia andava em alta, até se podia dar ao luxo de buscar trabalhar só perto de casa. “Atualmente, a necessidade bate à porta e o profissional precisará buscar por esse tipo de mudança. Os que já estão nas estatísticas do desemprego têm de ampliar a busca. Sendo um país tão grande, são muitas as áreas que continuam com vigor de crescimento e necessitando de bons profissionais dispostos a uma carreira bem sólida.”

Adriana Prates diz que para vencer o medo da adaptação é importante fazer um bom planejamento para que a mudança ocorra de forma funcional. “Aumentando o nível de alegria e realização na vida pessoal e profissional. Afinal, toda mudança pode significar uma grande oportunidade. É preciso analisar e trabalhar todos os impactos. Os familiares, educacionais e manutenção dos vínculos de amizade. É claro que a internet tem facilitado, sem permitir que essa distância seja fonte de frustração. É claro que todo recomeço dá trabalho, porém, fazer novos amigos, conhecer novas pessoas e outra cultura pode dar ânimo novo em quem busca esse tipo de desafio”, afirma.

GANHOS REAIS Adriana Prates conta que é comum, quando um profissional qualificado se muda para uma região mais remota do Brasil, conseguir um cargo melhor, um pacote de remuneração e benefícios superior e ainda aliar a qualidade de vida já que ele se vê livre dos engarrafamentos. “Além disso, a rotina estressante de um ambiente competitivo acaba sendo tóxica. Nesse sentido, é uma saída que irá trazer crescimento em todos os sentidos, atingindo não só o profissional, mas todo o seu entorno”, diz.

A família sempre é um grande obstáculo. Mas Adriana Prates reitera que tudo tem de ser negociado e combinado. “É preciso analisar casa situação de forma separada. Se tem filhos pequenos, adolescentes ou se não tem. Sendo casados, o ideal é que a mudança seja do profissional e também da família. Não há ganho financeiro que justifique uma piora do relacionamento com os familiares ou mesmo colocar em risco as relações afetivas. Já vi muitos profissionais mudarem sem uma discussão prévia com a família e a adaptação ficar mais difícil. Acaba tendo que voltar de forma precipitada, gerando angústia e desilusão. O gênero em si não é o ponto chave dessa questão, mas sim, ter ou não o apoio dos familiares. Os solteiros sempre terão mais facilidade na adaptação.”

Adriana Prates chama a atenção para essa decisão entre os jovens, que podem se beneficiar do crescimento do grande interior do Brasil. “Os programas para novos talentos buscam por mais diversidade em todos os sentidos e acabam flexibilizando alguns critérios para atrair bons profissionais que estejam dispostos a investir na carreira longe de casa. As gerações mais novas sempre têm mais flexibilidade para mudanças e menos impedimentos para buscar novos desafios”, explica.

De acordo com a CEO da Dasein Executive Search, a internet facilitou muito a forma de buscar por esse tipo de trabalho. “O profissional poderá fazer um mapeamento das empresas de cada região, estudar os pontos altos e fracos de uma determinada cidade, verificar se a região está realmente em crescimento, e após conclusões sobre o assunto, poderá se aplicar diretamente nas vagas listadas nos sites das empresas, bem como usar a plataforma do LinkedIn, além de outras formas de captação por vagas.”

Desejo de mudar de patamar

Ana Lisboa, coach Ericksoniana de vida e carreira, da Ana Lisboa Coaching e Consultoria, de São Paulo, explica que a migração ocupacional é um fenômeno social comum. “A própria história está cheia de exemplos de pessoas que migraram em busca de melhores condições de vida e um dos fatores que envolve essa decisão, especialmente nos nossos tempos, é o trabalho. Segundo as perguntas que faço a pessoas que são de outras regiões, essa mudança ocorre sempre orientada por um parente que já se mudou no passado e conseguiu êxito. Quando isso ocorre, a maioria conta com o amparo inicial da família.”

Para Ana Lisboa, no rol de benefícios almejados por esses profissionais, “normalmente encontramos possibilidade de conclusão de estudos, aumento de renda, especializações ou mesmo acesso cultural. As cidades maiores normalmente oferecem esses recursos com alguma facilidade. Entendo que o primeiro fator que trará equilíbrio nesse momento é o trabalho, pois, tendo esse vínculo inicial, o migrante já se sente de certa forma inserido em um sistema social e cedo ou tarde será remunerado, o que dá tranquilidade”.

EXPATRIAÇÃO A coach explica que, quando essa migração ocorre por meio de uma promoção e envolve outro país de residência, esse processo é chamado de expatriação. “Nesse caso, os cuidados são normalmente de responsabilidade do empregador. A lista de providências, que pode incluir desde moradia até escola dos filho.”

 

 

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

Brunello Amorim -  jornalista, de 23 anos 

"A mudança para Belo Horizonte foi impactante porque nunca tinha morado em uma capital, foi um choque" (foto: Arquivo pessoal)
“Nasci em Cláudio e fiz faculdade em Ouro Preto, na Ufop. Formado, retornei para minha cidade e. Precisava muito trabalhar e só consegui vaga em um banco: atendimento ao cliente. Foram seis meses, meu primeiro emprego (só tinha feito estágios) e lutando para conseguir uma chance na minha área. Com mercado restrito em Cláudio e querendo me desenvolver profissionalmente, enviei currículo para todas as ferramentas on-line disponíveis: e-mails para as organizações de comunicação; banco de talentos das empresas; Facebook; site de vagas; LinkedIn e para contatos que poderiam me ajudar. Foi um ano de procura. Enfim, em fevereiro deste ano fui selecionado na Zoom Comunicação como analista de mídias sociais. Até então, vivia aflito, ainda mais pela comunicação ser uma área abrangente e ter de decidir em qual segmento atuar. A mudança para Belo Horizonte foi impactante porque nunca tinha morado em uma capital, foi um choque, até mesmo cultural. Não sabia andar pela cidade e, até hoje, alugo um quarto numa casa em que moram mais 10 pessoas. Aliás, essa é a minha principal dificuldade, desejo muito ter mais espaço e mais privacidade. Ficar longe de casa e conviver com pessoas diferentes não me incomoda, já que a vida em república em Ouro Preto foi um grande aprendizado para a vida pessoal e profissional. Ajuda a desenvolver empatia, respeito, fazer amizades diferentes, independência...” 


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