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Estado de Minas

Morar em hotel está se tornando um hábito em BH

Sistema de longa permanência em hotéis ganha cada vez mais espaço em BH, sendo preferido por pessoas sozinhas


postado em 26/06/2017 06:00 / atualizado em 26/06/2017 08:17

Tem geladeira com freezer, fogão elétrico, panela, talheres, micro-ondas, cafeteira, dois aparelhos de ar-condicionado, limpeza duas vezes por semana. Tenho toda a infraestrutura, vigilância e não tenho vizinho chato - Mário Lúcio Silva Santos, aposentado(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Tem geladeira com freezer, fogão elétrico, panela, talheres, micro-ondas, cafeteira, dois aparelhos de ar-condicionado, limpeza duas vezes por semana. Tenho toda a infraestrutura, vigilância e não tenho vizinho chato - Mário Lúcio Silva Santos, aposentado (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Hóspede e turista estão longe de ser sinônimos. Cientes dessa distinção e com o mercado em crise, redes hoteleiras investem cada vez mais nos hóspedes que buscam um hotel para chamar de “lar doce lar”. Hotéis se adaptam às demandas de hóspedes moradores e oferecem ofertas para os chamados “mensalistas”. O sistema de longa permanência ou, no inglês, long stay, ganha espaço em Belo Horizonte, como forma de diminuir a ociosidade dos estabelecimentos. Apenas na Região Centro-Sul, pelo menos seis empreendimentos apostam no segmento.

Para além da conjuntura econômica, a crise hoteleira na capital mineira trouxe um complicador. Por causa da construção de empreendimentos para a Copa do Mundo de 2014, a oferta de leitos quase dobrou, enquanto a demanda se manteve estável. Quarenta novos hotéis foram inaugurados em BH nos últimos três anos, levando as redes a explorar outros nichos de mercado. A partir de R$ 2 mil, é possível morar em um hotel em BH. Na Região Centro-Sul, os valores ficam em torno de R$ 3 mil a R$ 3,8 mil. Sem necessidade de fiador, pacotes oferecem serviços de lavanderia, café da manhã, garagem.

Divorciados, estudantes universitários e pessoas de outras cidades que vieram para BH a trabalho, além de pessoas que estão reformando apartamento, são o público principal desse segmento. “Estamos falando de hotéis com serviço 24 horas, próximos a supermercados e quartos maiores. Não são de luxo, mas tem facilidades, como academia, que um hotel econômico não tem”, explica a presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Minas Gerais (Abih-MG), Érica Drumond.

Segundo ela, o investimento de redes hoteleiras em hóspedes de longa permanência é uma tendência no mundo. Há até mesmo aqueles que aceitam que os moradores tenham animais de estimação. “As pessoas querem praticidade. Podem morar e mudar quando e onde quiserem, sem quebra de contrato. Não precisam lidar com empregada doméstica e seus encargos”, afirma Érica, proprietária da Vert Hotéis.

Mensalistas

Os hóspedes mensalistas foram a saída do BHB Hotel nos períodos de baixa ocupação dos quartos. “Por causa da crise e da grande quantidade de leitos em BH, a capacidade usada nos hotéis caiu muito. Sobrou muito mais quatro e a locação por longos períodos diminui a ociosidade”, afirma o diretor-geral do BHB Hotel, Diogo Paixão. Hoje, é possível morar no estabelecimento, situado na Avenida Cristiano Machado, no Bairro União, Região Nordeste de BH, gastando de R$ 2,1 mil a R$ 3 mil.

Com 150 acomodações, o estabelecimento, que começou a investir recentemente no ramo, já chegou a ter 22 moradores simultaneamente. A boa resposta do público levou a diretoria a repensar um dos andares, que será adaptado para mensalistas. “Vamos fazer o quarto um pouco maior. Nosso quarto hoje também não tem cozinha”, ressalta. O Sul América Palace Hotel, no Centro, dá desconto de 50% na diária para os hóspedes moradores. Atualmente, oito pessoas moram no estabelecimento. Mensalistas também tem tarifa diferenciada no Dayrell Hotel & Centro de Convenções.

PRÁTICO Faz pouco mais de um ano que o aposentado Mário Lúcio Silva Santos, de 71 anos, mudou-se de um apartamento de três quartos, com 140 metros quadrados e uma unidade por andar, no Bairro Gutierrez, Região Oeste de BH, para um quarto de 42 metros quadrados, com cama de casal, sofá-cama, uma pequena cozinha e varanda. Ele é um dos moradores do eSuítes Virginia Luxemburgo, no bairro vizinho, na Região Centro-Sul. A mudança ocorreu depois que ficou viúvo, mas a decisão de ter uma vida mais compacta havia sido tomada antes.

“Antes da minha mulher falecer, já falávamos sobre morar em um apart-hotel”, conta. Os móveis do apartamento antigo foram divididos entre o sítio da família em Macacos e a casa das duas filhas. Além das roupas, ele só levou dois porta-retratos, o som profissional, além de 100 vinis e 300 CDs e DVDs, parte de sua coleção. “Na verdade, queria ir com a roupa do corpo”, lembra. Por todas as comodidades, ele paga R$ 3 mil, sem alimentação.  “Poderia ter alugado. A diferença do preço ficava pequena e continuava tendo que cuidar da casa”, afirma. No hotel, Mário Lúcio, que nunca cozinhou e não queria administrar faxineira e outras tarefas domésticas, encontrou a solução para seus problemas. “Tem geladeira com freezer, fogão elétrico, panela, talheres, micro-ondas, cafeteira, dois aparelhos de ar-condicionado, limpeza duas vezes por semana. Se pifa um micro-ondas, o hotel troca. Tenho toda a infraestrutura, vigilância e não tenho vizinho chato”, diz.

A rede Vert também tem investido no chamado long stay. O eSuítes Sion, no bairro homônimo, na Região Centro-Sul, foi concebido com foco nesse público. O eSuítes Virginia Luxemburgo, no Bairro Luxemburgo, também na Centro-Sul, está expandindo para mais 11 o número de apartamentos voltados para moradores. “Com a crise, tem que se renovar e reinventar”, diz Érica.

Saída para a crise


Jeilson Almeida veio trabalhar em BH e escolheu morar num hotel(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Jeilson Almeida veio trabalhar em BH e escolheu morar num hotel (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

O outdoor anuncia que a partir de R$ 1,5 mil por mês é possível morar no Intercity BH Expo. O hotel, inaugurado há um ano, está investindo pesado nesse público. “Para conseguir otimizar nossas receitas, estamos buscando um outro público”, conta o gerente-geral do estabelecimento, André Bekerman. “BH tem potencial de turismo nos arredores, tem volume de negócios, que, claro, está afetado por uma crise. Mas tem uma situação atípica, a cidade dobrou a quantidade de leitos e a demanda ficou estável. Há um desequilíbrio e uma necessidade de buscar outros segmentos”, diz.

Atualmente, 10% da ocupação do hotel de 276 apartamentos corresponde a moradores, que ficam, em média, seis meses. O pacote básico, sem café da manhã, custa R$ 1,5 mil mais condomínio de R$ 500. “Não é mais barato, mas fica num patamar próximo da locação e com facilidades muito maiores. Não tem exigência de fiador, tem água, internet, TV, arrumação do quarto”, explica. O estabelecimento tem suítes simples e também unidades equipadas com pequena cozinha.

A conveniência de ter tantos serviços à mão levou o representante de bebidas e alimentos Jeilson Almeida, de 35 anos, a optar por morar no Intercity. Natural de São Paulo, ele desembarcou em fevereiro para trabalhar numa fábrica de bebidas na Região Metropolitana de Belo Horizonte. “Cheguei a pesquisar apartamento, mas optei por morar num hotel pela comodidade. Não tenho trabalho com arrumação, café da manhã. E, como não conheço BH, me senti mais confortável”, diz.

Pela pesquisa do representante, o valor do aluguel ficaria em torno de R$ 1,8 mil, enquanto no hotel ele paga R$ 2.450 por mês, incluindo a taxa de serviço. “Tenho café da manhã, academia, piscina, faxineira uma vez por semana”, conta. O quarto não conta com cozinha, mas Jeilson negociou com a gerência o valor do jantar. Uma vez por mês, ele ainda recebe a visita da mulher e dos dois filhos, de 11 e 15 anos, que continuam em São Paulo.



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