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Estado de Minas

Saiba como a JBS sugou o BNDES para expandir seus negócios

JBS 'pagou políticos' e teve crédito de R$ 12,8 bi. Com dinheiro público, a receita foi de R$ 4 bi para R$ 170 bi


postado em 23/05/2017 06:00 / atualizado em 23/05/2017 07:57

Além dos créditos, o banco se tornou sócio dos irmãos Wesley e Joesley Batista, com 21,3% do capital da JBS S.A(foto: Adilson Vasconcelos/Jornal do Comércio )
Além dos créditos, o banco se tornou sócio dos irmãos Wesley e Joesley Batista, com 21,3% do capital da JBS S.A (foto: Adilson Vasconcelos/Jornal do Comércio )
A deflagração da Operação Bullish pela Polícia Federal, seis dias antes de estourar o escândalo provocado pelas acusações dos empresários Wesley e Joesley Batista envolvendo políticos de praticamente todos os partidos, expôs a relação do Grupo JBS, controlado pelos irmãos Batista, como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Entre 2002 e 2013 o banco teria liberado um total de R$ 12,8 bilhões para as empresas controladas pela J&F Participações entre empréstimos e participações acionárias, segundo levantamento da ONG Contas Abertas.

As empresas favorecidas com os recursos dentro do grupo foram a JBS S.A. (R$ 6,6 bilhões), Bertin S.A. (R$ 2,7 bilhões), Bracol Holding Ltda (R$ 425,9 milhões), Vigor (R$ 250,2 milhões) e a Eldorado (R$ 2,8 bilhões). No período consultado não foram encontradas operações para as outras empresas do grupo, segundo a ONG.

Sustentado por crédito fácil do BNDES, o grupo elevou seu faturamento de R$ 4 bilhões em 2006 para R$ 170 bilhões no ano passado, um crescimento de mais de 4.000%. A multiplicação de riqueza levou Joesley Batista a entrar na lista dos 10 brasileiros mais ricos da revista Forbes. Com atuação em mais de 150 países, 300 unidades industriais e mais de 200 mil empregados, o grupo é o maior processador de proteína animal do mundo. Das fábricas, 56 estão nos Estados Unidos, controladas pela JBS USA Holding, que detém hoje cerca de 70% dos negócios dos irmãos Batista, que atuam na área de carnes, de alimentos, de laticínios, de calçados, de celulose e higiene pessoal, entre outros. O grupo tem ainda um banco, o Banco Original.

Em sua delação premiada, o empresário Joesley Batista, controlador do grupo, admitiu ter pago R$ 200 milhões em propinas ao ex-ministro Guido Mantega e a outras lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT) para facilitar a liberação de recursos do banco para suas empresas. “Minha relação sempre foi com o Guido (Mantega). Primeiro, até 2009 ela passava pelo Vic (Victor Sandri – amigo deMantega). Até lá, toda vez que eu precisava falar com o Mantega, acionava o Vic. Não sei como funcionava com o Guido e o banco. Acho que ele (Guido) pressionava o Luciano (Coutinho, presidente do BNDES), que sempre foi muito formal comigo”, contou Joesley na sua delação.

E as investigações mostraram que não era apenas o dinheiro que irrigou as contas petistas que facilitou a vida das empresas do Grupo JBS. Um diretor do BNDES responsável por avaliar as operações com empresas envolvendo aquisições e aportes de capital era também membro do Conselho de Administração da JBS. Segundo reportagem do Fantástico exibida domingo, esse diretor do banco, hoje aposentado, é José Cláudio Rego Aranha. Como conselheiro da JBS tomava conhecimento das operações planejas pela empresa que posteriormente seriam aprovadas por ele no BNDES.

O maior salto nos negócios do grupo ocorreu no período de 2007 a 2010, com as operações com o BNDES chegando a R$ 8,1 bilhões. O Banco deu suporte financeiro (leia-se recursos públicos com custo baixo) para a compra da norte-americana Swift & Co, por US$ 1,4 bilhão, sendo US$ 225 milhões em dinheiro e US$ 1,2 bilhão em dívidas. Dois anos depois, em setembro de 2009, com um empréstimo de R$ 3,5 bilhões do BNDES, os irmãos Batista adquiriram a Pilgrims nos Estados Unidos. Com as aquisições feitas anteriormente, como os concorrentes Seara e a incorporação do Bertin, a JBS se tornou a maior processadora de carne bovina mundial. E seguiu crescendo. Em 2013 comprou, por US$ 1,2 bilhão, a Primo Smallgood, na Austrália.

Ações polêmicas


Entre as aquisições da empresa com apoio do BNDES, a fracassada tentativa de aquisição da norte-americana National Beef deixou rastros das facilidades do grupo dentro do banco de fomento, em 2008. O banco teria emprestado quase R$ 700 milhões para a operação, que foi bombardeada pelos norte-americanos e não foi concretizada. O dinheiro do BNDES não foi devolvido pelos irmãos batista, como teria reconhecido na semana, em nota, o presidente da J&F, Joesley Batista.

Sem os recursos dos empréstimos, o BNDES acabou convertendo os papéis recebidos em garantia dos créditos (debêntures) em ações da JBS por intermédio da BNDESpar, que passou a deter 21,3% da JBS. Essa operação foi condenada pelo Tribunal de Contas da União, por ter gerado um prejuízo de mais de R$ 700 milhões. As facilidades da JBS no BNDES levaram a Polícia Federal a deflagrar a Operação Bullish com suspeita que os negíocios com o grupo dos irmãos Batista tenham gerado um prejuízo de R$ 1,2 bilhão para o banco público.

Na contabilidade da expansão dos negócios, R$ 1,6 bilhão vieram da abertura de capital da JBS, em março de 2007 e o restante dos vultosos empréstimos do BNDES, liberados com facilidade por conta das contribuições dos irmãos Batista aos políticos. Na sua delação, Joesley afirmou ter pago 18,5% dos empréstimos recebidos do BNDES em propina para políticos e partidos, o que, de 2007 a 20010, representa R$ 1,4 bilhão. A maior parte desse dinheiro (R$ 616 milhões) foi destinada ao PT, dono da chave do cofre do BNDES. Outro quinhão, de R$ 453 milhões, foi para o PMDB, também governo. Juntos, receberam quase 70% da propina paga pela empresa.

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