
Paz, vida, amigos e sentimentos são coisas que o dinheiro não pode comprar. Mas, cada moeda que vai para o cofrinho serve para conquistar sonhos de curto, médio ou longo prazo. Alguns sonhos podem se realizar de forma mais rápida, contudo, em alguns casos, para transformar um desejo em realidade é preciso envolver mais pessoas no projeto. Quem explica tudo isso, de forma muito clara e simples, são crianças de 6 e 7 anos, alunos do primeiro ano do Colégio Pio XXII. Eles fazem parte de um projeto de educação financeira que quer ensinar desde cedo às crianças como consumir de forma consciente.
Poupar, orçar e gastar não são mais palavras estranhas para a turminha que também começou a perceber que o dinheiro “não vem da árvore”, mas de um esforço, lição valiosa em tempos de recessão. Em Belo Horizonte, a educação financeira está sendo incluída, aos poucos no currículo de escolas da rede privada e pública, traduzindo a complicada economia para a linguagem de crianças e adolescentes.
Para especialistas ouvidos pelo Estado de Minas, já era tempo de o assunto chegar à sala de aula. Afinal, em educação financeira o Brasil ocupa um perigoso 74º lugar no ranking mundial, elaborado pela consultoria Standard & Poors, atrás de países considerados os mais pobres do mundo como Madagascar, Togo e Zimbábue. Viver num Brasil que tem uma das mais altas taxas de juros do mundo, e ainda assim manter o equilíbrio das finanças, é um desafio. No momento, perto de 60% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo o Banco Central. A organização financeira pode ajudar a atravessar a tempestade com mais segurança e menos descontrole.
No Colégio Pio XXII, lições lúdicas de economia abriram caminho para trabalhar com os estudantes temas como o consumismo, valores humanos, paciência, organização, colaboração, tudo isso com o envolvimento dos pais, já que agora os pequenos investigam os gastos de casa, ajudam a economizar e estão mais disponíveis para entender quando o orçamento não sobra para comprar um novo brinquedo. Eles compreendem para que serve a reserva financeira e o que são gastos de emergência. Crianças pequenas já começam a perceber que alguns sonhos não podem ser realizados imediatamente; é preciso tempo e persistência.
Dados da empresa de serviços financeiros Serasa Experian mostram que a inadimplência entre os jovens de 18 a 24 anos é a mais alta entre as faixas etárias pesquisadas, descontrole que, para especialistas em educação financeira, reflete a pouca importância que o país dá ao tema. Uma das primeiras atividades das turmas de primeiro ano foi construir com as professoras Carol e Vavá um cofrinho de garrafa PET que foi levado para casa. Enquanto discutiam na sala de aula sobre suas finanças pessoais, em casa os alunos poupavam e faziam pequenos esforços. “Algumas vezes eu deixei de comprar balas para colocar a moeda no cofre”, lembra Maria Luiza Veras, de 7 anos.
O sonho de curto prazo de Bárbara Almeida Vale foi comprar uma boneca Barbie de R$ 20. Ela conta que foi muito difícil poupar até conquistar o dinheiro e que precisou envolver nesse projeto a mãe e o avô. Lucas Andrade não se lembra de quanto juntou, mas, com disciplina, conseguiu a pista de Hot Wheels desejada. Ana Letícia Laguardia poupou e contou com ajuda do pai para comprar um vestido. Todas as crianças já têm novos projetos e sabem que o caminho pode não ser tão rápido. “Estou juntando um novo cofrinho para comprar um cachorro, que custa mais ou menos R$ 100, mas antes de comprar vou orçar”, garante Ana Letícia.
EM 15 ESTADOS Sandro Borges, diretor da unidade de Belo Horiozonte da DSOP, organização focada em educação financeira, diz que o tema já foi incluído em escolas de pelo menos 15 estados. Segundo ele, em Belo Horizonte, o programa ganhou força no ano passado e considerando-se apenas o método da organização, ele atinge 5 mil alunos da rede privada. “O programa é focado em quatro pilares básicos, diagnosticar, sonhar, orçar e poupar.” Os programas envolvem crianças da educação infantil ao ensino fundamental. “Na fase adulta, essas crianças estarão mais prontas para fazerem escolhas financeiras adequadas, compreendendo que os desejos são infinitos e os recursos finitos.”
Sonho Coletivo tem até planejamento
As professoras Carolina Bastos (Carol) e Valéria Dutra (Vavá) estão empolgadas com o retorno do projeto pedagógico. Segundo elas, o envolvimento das crianças e das famílias já está criando novos conceitos, simplificando um tema que pode fazer parte da rotina, ser interessante e menos complicado. Faz parte do projeto o sonho coletivo. Para isso, as crianças definiram juntas que no fim do ano vão alugar um brinquedo inflável para brincar na escola, espécie de um pula-pula gigante.
Para isso, elas colocam moedas que guardaram como troco da compra do lanche, pedem ajuda para os visitantes e professores. “Até o fim do ano precisamos de pelo menos R$ 200”, calcula Rafaela Valente, 7 anos. O dinheiro das duas turmas será somado para bancar o projeto coletivo. “Já temos os orçamentos e se sobrar algum recurso poderemos comprar um brinquedo maior, com outras opções”, explica Carol.
No Colégio ICJ – Instituto Coração de Jesus – a educação financeira é aplicada aos alunos do ensino fundamental I e II. “Essa é uma necessidade das famílias. No ensino médio damos um foco da educação financeira no empreendedorismo. A responsabilidade com o próprio dinheiro é também um primeiro passo para se empreender”, observa Márcio Amaral, professor de sociologia e coordenador do projeto de Educação Financeira e Empreendedorismo da instituição de ensino.
O diretor pedagógico do Colégio Pio XXII, Marco Antônio Remígio, explica que existe um esforço para que a educação financeira seja ampliada para a rotina da escola. O colégio promove a troca de brinquedos e a cada ano a didática ganha mais profundidade. Ele conta que os alunos do segundo ano, por exemplo, decidiram que com os valores que pouparam no cofrinho, vão comprar objetos de baixo custo e revender na escola para fazer o dinheiro crescer. Com o valor apurado vão comprar caixas de leite para uma instituição de caridade. “Já no ensino médio a educação financeira é focada nas profissões.”
Cinco perguntas para Ricardo Melo,
Educador financeiro e autor do livro As Leis Invisíveis do Dinheiro
Qual é o momento certo para a criança começar a receber a semanada e como definir o valor?
Não existe uma idade certa. Os pais devem observar a maturidade da criança, assim que ela tiver condições de lidar com o dinheiro está na hora. Geralmente a criança se relaciona no ambiente da escola, comprando o próprio lanche. Os pais devem calcular um valor real. Dar dinheiro muito curto e depois ter que completar o valor não é uma boa estratégia. A criança deve aprender a se virar dentro daquele orçamento. Se na quinta-feira, já gastou todo o dinheiro, deve então levar o lanche de casa. Não pode receber reforço dos pais.
E para quem recebe uma semanada gorda, acima do valor que gasta?
Isso é perigoso. Os pais devem orientar os filhos a gastar com sabedoria, a poupar o excedente. O cofrinho é muito útil. Fazer contas junto com a criança é também importante, mostrando que se ela poupar o excedente poderá ter um brinquedo, uma viagem. Devem mostrar quanto ela terá no fim de ano, isso é um ótimo exercício.
E se o valor que a criança poupou para comprar algo não for suficiente, vale os pais ajudarem, completando o que falta?
Sim, desde que isso seja um mérito. A criança deve ser bonificada de acordo com as tarefas que faz e consegue cumprir. Assim, ela terá a noção do esforço, o que mais tarde, na vida adulta, se reflete no mercado de trabalho.
E como ajudar a criança a valorizar até mesmo pequenas quantias?
Se a criança pensa por exemplo, que pode entregar o livro da biblioteca depois do prazo concedido e pagar multa de R$ 1, vale a pena mostrar para ela que R$ 1, em um mês, são R$ 4; em um ano, R$ 48, que são 30 pães de queijo, vários sorvetes, um brinquedo, quantas coisas ela poderia ter feito?
E para os adolescentes? Vale a pena ajudá-los a trocar o celular pelo último modelo?
Desde que dessa compra ele também participe. Na minha opinião todos os adolescentes deveriam trabalhar, em algo simbólico, para terem noções de responsabilidade. Pode ser um trabalho rápido de férias, por exemplo, ou poucas horas por mês. Isso o ajudaria em seus projetos de consumo também. O que os pais não devem fazer é realizar sonhos sem que haja esforço.
