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Estado de Minas CÂMBIO ENCOLHE INDÚSTRIA

Desindustrialização pode elevar conteúdo importado a 24% na indústria brasileira em 2016

Com valorização prolongada do real frente ao dólar, produtos deixam de ser feitos no país. Área de transformação reduz fatia no PIB de 21,6% para 11,4%


postado em 02/10/2016 06:00 / atualizado em 02/10/2016 08:10

Nos aparelhos eletroeletrônicos, como Tvs, grande parte dos componentes vem de fora do Brasil(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Nos aparelhos eletroeletrônicos, como Tvs, grande parte dos componentes vem de fora do Brasil (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Brasília – O desmonte da indústria nacional chegou a um ponto que alguns produtos, muito comuns nas casas dos brasileiros, como secadores de cabelo, praticamente não são mais produzidos no país. Embora seja um processo natural em países desenvolvidos, a desindustrialização, no Brasil, é prematura e veloz, provocada pela valorização exacerbada do real ante o dólar por um período longo demais, explicam os especialistas.

Não à toa, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB), que já foi de 21,6% em 1985, despencou mais de 10 pontos percentuais em 30 anos, e atingiu 11,40% no ano passado. No caminho inverso, também provocada pela sobrevalorização cambial, a inserção de conteúdo importado na indústria nacional saltou de 16,5%, em 2003, para 26,1%, em 2011, e deve fechar em torno de 24% este ano, apontam dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A política cambial encolheu a indústria, alerta Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). “Fábricas desapareceram. Não se faz mais secador de cabelo no Brasil. A produção de ferro elétrico resiste porque o setor batalhou por uma política antidumping, senão já era. E liquidificador passou aperto, mas como ainda existem duas fábricas de motores, sobrevive”, enumera. Com a globalização e a redução de impostos de importação, é natural que os empresários tenham mais liberdade para escolher fornecedores de outros países, admite Barbato. Porém, a desindustrialização do Brasil foi forçada pela valorização exagerada do real por tempo demais.

Dificilmente, no segmento de eletroeletrônicos, se pode falar que uma mercadoria é 100% nacional. Lourival Kiçula, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), entidade que representa a produção de portáteis e das linhas branca (eletrodomésticos, como geladeira e fogão) e marrom (eletrônicos, como televisores), explica que grande parte dos componentes são importados. “Não faz sentido produzir tudo aqui. Mas, de fato, fábricas de produtos específicos estão desaparecendo. De secadores de cabelo, restaram duas”, diz.

O executivo lembra que, no caso de portáteis, a logística de transporte ficou mais fácil e os preços no exterior mais atrativos. “Como são leves, é mais barato colocar a carga em contêiner. E, em alguns setores, é impossível competir com os preços dos importados, sobretudo da China”, justifica.

Volatilidade A desestruturação de cadeias produtivas por conta da valorização do real pode ser irreversível, na opinião de Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia da Universidade de Campinas (Unicamp). “O câmbio precisaria se ajustar, mas a volatilidade não permite esses setores se recomporem. Se o empresário investe com câmbio a R$ 3,80, e, quando vai produzir, ele está em R$ 1,50, sua programação é perdida”.

Belluzzo compara a estratégia brasileira com a política chinesa. “O Brasil fez tudo ao contrário que a China. Lá eles deram condições de financiamento, seguraram a moeda desvalorizada, e mantiveram a articulação entre as estatais e o setor de bens de capital. No momento em que a China estava em plena escalada industrial, nós reduzimos nossa competitividade e prejudicamos a indústria nacional”, afirma.

No país, a articulação com estatais só foi mantida até os governos militares, justamente o período de maior industrialização. Os números só foram maiores em 1985, esclarece o professor, porque, nos anos 1980, o Brasil sofreu um estrangulamento cambial e não tinha divisas para importar. “Praticou um protecionismo forçado e ineficiente porque não tinha alternativa”, pontua.

Da produção 100% nacional, o país caiu direto na abertura promovida no governo Fernando Collor. “Foi uma mudança brutal, que dificultou a adaptação do tecido industrial”, lembra Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “Para piorar, os juros altos encarecem o crédito e a estrutura tributária complexa e os gargalos de infraestrutura também prejudicam a competitividade”, diz. O resultado é que o setor nunca mais se recuperou.

Memória

O crescimento econômico do Brasil foi liderado pela indústria no pós-Segunda Guerra Mundial até o primeiro choque do petróleo, em 1973, quando o país implementou duas políticas importantes: o Plano de Metas (1956-1961) e o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (1974-1979), em plena ditadura militar. Fomentado pelo Estado, o processo de industrialização ganhou força com a instalação das indústrias de bens de consumo duráveis, bens de capital, insumos básicos e energia. Nesse período, a participação do segmento de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) aumentou. Mas só chegou ao ápice em 1985, com uma fatia de 21,6% na produção de riquezas, porque, sem divisas para importar, o Brasil teve que produzir tudo. Daí pra frente começou o processo de desindustrialização, agravado a partir dos anos 2000 por conta da política cambial.


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