Com ou sem diploma de curso superior. Fluente ou não em idiomas. Ganhando bem menos do que antes, e sem escolha para dizer não. O desemprego vem afetando não somente uma área ou parte do mercado de trabalho. Sobrou para todo mundo, independentemente do currículo, conforme comentam desempregados ouvidos pelo Estado de Minas. “Em 2015, houve esse aumento da taxa de desemprego no país, em que voltamos a patamares de 2010. Mas, além disso, não foram gerados postos de trabalhos que pudessem contemplar essas pessoas que foram e estão sendo demitidas”, comenta João Bonomo, professor de administração do Ibmec.
De acordo com últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) móvel, divulgada em janeiro, no trimestre de agosto a outubro de 2015, havia 9,1 milhões de pessoas desocupadas no país. No trimestre anterior, de maio a julho, eram 8,6 milhões nessa condição, o que representa acréscimo de 5,3%, ou mais 455 mil pessoas nesse contingente. Frente a igual período de 2014, a estimativa sobe para 38,2%, ou seja, 2,5 milhões de pessoas a mais desempregadas. Em BH e região metropolitana, o indicador do IBGE dobrou em 2015, atingiu 5,9% em dezembro, contra 2,9% no mesmo período do ano anterior, somando 146 mil desempregados. “Estamos em uma situação de estagnação do mercado. A vaga sumiu”, diz.
Para o especialista, a cadeia produtiva, tanto no país, como na capital mineira, vem caindo, em efeito dominó. “A questão já não é mais qualificação. Não estão nascendo novas empresas e as que estão no mercado não contratam.” O comércio, por exemplo, um dos setores que mais empregavam e um dos que mais sofreram com a crise, também não oferece vagas. “Antes, na nossa agência de empregos, penávamos para encontrar empregado para as empresas. Tínhamos 100 vagas por dia. Hoje, não temos nenhuma. Quando tem o salário é baixo, o mínimo, enquanto um saco de batatinha custa R$ 5,50”, comenta a diretora do Sindicato dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte, Conegundes Lopes Sebbe Pacheco.
SEM ESCOLHA
Para quem está na busca, principalmente há muito tempo, não há muita escolha. Houve quem, com curso superior, aceitou ganhar 10 vezes menos, ou há quem esteja aceitando o que vier. “Isso é uma precarização do mercado. Quem está trabalhando, muito em breve pode ser trocado por alguém que aceite ganhar menos”, avisa Bonomo. Ele acrescenta que com a renda menor, diminui o consumo e a produção. “A economia pode entrar em um colapso”, alerta.
Fabrício Tadeu de Jesus, ex-universitário - 27 anos
A rotina de Fabrício Tadeu de Jesus, de 27 anos, é procurar emprego. No fim de 2014, ele foi demitido de uma das agências do Correios, onde fazia trabalhos internos. Desde então, o jovem vive dias de agonia e, nesse tempo (mais de um ano) só conseguiu fazer um bico na empresa de contabilidade de uma amiga, durante um mês. “Tenho curso técnico e trabalho em setores administrativos. Mas, se tem uma coisa que tenho feito na minha vida, é bater de porta em porta, ir ao Sine, imprimir currículos.” No mercado de trabalho desde os 13 anos, ele diz que nunca ficou tanto tempo sem uma ocupação. E, como resultado, Fabrício teve que interromper um sonho: a faculdade. Em 2015, ele começou um curso superior de arquitetura e, com o corte de verbas do programa Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), ele não teve dinheiro para bancar os estudos. “Tive que abrir mão daquilo que mais priorizava na minha vida. O governo me deu uma rasteira: sem emprego e sem Fies”, reclama. Os pais do jovem ajudam com o dinheiro do transporte para que ele busque, todos os dias, se recolocar no mercado. “E só posso andar de metrô, porque é mais barato. Sem oportunidades, tive depressão e problemas no fígado. Vou continuar na luta, e entregar nas mãos de Deus”, diz.

Há um ano e meio, Raquel Araújo está desempregada. Oceanógrafa, fluente em inglês, ela trabalhava com embarcações, no Rio de Janeiro. “Mas, em 2014, com a crise econômica e da Petrobras foram diminuindo as embarcações e, com isso, perdi meu emprego”, conta. Desde então, Raquel tem procurado de tudo. Morando em Belo Horizonte, ela conta que, para pagar suas contas, tem feito bico em diversas áreas, inclusive como babá. O ano de 2015 foi de procura para Raquel, que bateu em várias portas, sem sucesso. “Procurei trabalho no comércio e não consegui, justamente por causa do meu currículo. Eles não contratam, com medo de eu não ficar muito tempo no emprego.” Sem oportunidade no comércio, ela conseguiu ganhar dinheiro como babá dos sobrinhos. “Mas meu irmão, que trabalha no setor aéreo, perdeu o emprego e com isso tive que trabalhar como babá para meu outro irmão. Nunca imaginei que eu, formada, passaria por isso”, conta. Raquel já morou em Portugal e, há 10 anos, se formou em oceanografia em uma faculdade em Santa Catarina. “Diante da situação que estamos vivendo, fico me perguntando se é bom ser especializado em algo. Quanto melhor for o seu currículo, pior está para arranjar um emprego”, reclama. Como oceanógrafa, ela tinha um salário de R$ 7 mil e, como babá, de R$ 800. Para piorar a situação, há um mês, Daniel, marido de Raquel, que é designer gráfico, foi demitido. “Agora, somos nós dois sem emprego. O nosso plano é sair da capital e ir para uma cidade do interior, onde o custo de vida será menor. Vamos recomeçar do zero”, revela.

Cliveland Carmo, 45 anos - chef de Cozinha
Na semana passada, o chef de cozinha Cliveland Carmo saía de Belo Horizonte para Pará de Minas afirmando que percorreria a pé os 81 quilômetros que separam as duas cidades. Sem dinheiro para a passagem, Cliveland voltava para casa com mais uma frustração: não conseguiu trabalhar. Há um ano e meio desempregado, ele conta que desde 2015 começou a fazer bicos. “Assim estou vivendo, mas está ficando cada dia mais difícil. Hoje (quinta-feira da semana passada), tinha uma cliente no Bairro Buritis, onde ia cozinhar para ela frutos do mar. Vim de Pará de Minas, fui ao Buritis e, quando cheguei na casa dela, ela tinha cancelado o evento e não estava lá. Estou voltando para Pará de Minas sem uma moeda no bolso”, reclamou. Ele conta que tem 20 anos de experiência em gastronomia e que teria trabalhado, inclusive, em bons hotéis, no Nordeste. Ele conta que, em Maceió, chegou a ganhar tão bem que morava em um apartamento de frente para o mar, próximo às praias famosas da região. Mas, mesmo com todo o currículo, ele conta que, em Pará de Minas, o mercado não vai bem. “Lá, os restaurantes não têm demanda para o meu ofício.” O grande problema para Cliveland, que não tem conseguido fazer o seu trabalho, é que, segundo ele, o emprego na sua área está na capital. “Mas não tenho onde morar. Em Pará de Minas, estou morando com amigos e, aqui, não teria como me bancar.” Ele ressalta que a crise econômica existe e o mercado de trabalho está cada vez mais complicado “para quem quer trabalhar.” Mas Cliveland é otimista e quer superar a crise. Ele planeja juntar dinheiro como puder para conseguir se mudar para a capital. “Já procurei 15 restaurantes na cidade e sei que há vagas. Quando eu tiver dinheiro vou morar em um albergue e, com isso, a vida vai se ajeitando”, aposta. Cliveland interrompeu a entrevista porque precisava voltar caminhando para Patos de Minas, antes que ficasse tarde demais.

30 anos
formada em letras e administração de empresas
Natural de Medina, no Vale do Jequitinhonha, Fernanda Figueiredo chegou a Belo Horizonte carregando no currículo dois cursos superiores, o de letras e o de administração de empresas. Atuou no mercado nos dois ofícios. “Meu último emprego foi em uma franquia, trabalhava como administradora de domingo a domingo. E, como tinha me divorciado, pedi demissão para trabalhar como professora e dar conta das despesas de casa sozinha”, conta. Mas, ao contrário do que Fernanda imaginava, o mercado não estava dos melhores em janeiro de 2015, ela não conseguiu se recolocar no mercado de trabalho. “E vem piorando a cada dia. No ano passado inteiro, cadastrei meu currículo em vários lugares e procurei emprego como recepcionista, operadora de telemarketing... Mas, com o meu currículo, eles não contratam com medo de eu sair na primeira oportunidade.” Ela diz que chegou até a ser chamada para entrevistas, mas, na negociação salarial, desistia da vaga. “Eles procuram pessoas qualificadas, mas querem pagar pouco demais. As oportunidades que aparecem remuneram abaixo de R$ 800.” O desafio para ela, diante das ofertas, é que, como o desemprego está cada vez mais alto, as pessoas desesperadas por uma ocupação se submetem a salários baixos demais.

Com experiência na área de vendas, Yasmim Soares, de 25 anos, está à procura de qualquer emprego: faxina, babá, vendedora. “Tenho dois filhos para criar, meu marido está preso e não consigo trabalho”, reclama. Ela conta que vai todos os dias nas agências de emprego da cidade e as vagas estão ficando cada vez mais raras. “No comércio não existe uma oportunidade, as lojas estão fechando. A situação está feia”, avalia. Yasmim trabalhava com comércio e tinha sua carteira assinada. “Mas, há dois anos, quando engravidei, saí do emprego na esperança de que, quando voltasse, conseguiria algo rápido. Mas o ano de 2015 foi difícil demais e, este ano, está pior.” Com o marido atrás das grades, ela não recebe o auxílio-reclusão, já que, quando o esposo foi preso, não trabalhava com carteira assinada. “Recebo o Bolsa-Família, mas são R$ 200 e com os preços das coisas tão altos e dois filhos para criar, é um dinheiro que não dá para nada. Ainda estou esperando o meu apartamento no Programa Minha casa minha vida”, revela. Ela ressalta que quem contrata empregada doméstica hoje em dia tem exigido experiência e ela não tem. “Não sei o que vai ser. Comecei a trabalhar aos 12 anos, e, agora, estou diante dessa situação.
