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Estado de Minas BOLA DE CRISTAL NA CONTRAMÃO

Descompasso entre indicadores econômicos frente às previsões dos analistas é o maior desde 2010

Aprofundamento da crise político-econômica ao longo de 2015 fez com que os resultados do PIB, inflação, juros e câmbio surpreendessem economistas


postado em 20/12/2015 07:00 / atualizado em 20/12/2015 08:05

Nem mesmo o analista mais pessimista quanto aos rumos do Brasil poderia ter projetado no início do ano desempenho tão ruim dos indicadores vitais da economia. O aprofundamento da crise político-econômica ao longo de 2015 fez com que os resultados surpreendessem economistas, analistas de bancos e corretoras. Na primeira pesquisa do boletim Focus – o relatório de previsões dos representantes do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central –, divulgada em 2 de janeiro, a previsão era de crescimento de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto da produção de bens e serviços do país). Embora os números não tenham sido fechados, o governo federal trabalha com retração de 3,1%. É o maior descolamento entre projeção e resultado de 2010 para cá.

O Estado de Minas comparou as primeiras edições do boletim Focus de 2010 a 2015 com os resultados efetivos registrados em cada ano para quatro indicadores: PIB, inflação, juros e câmbio. O comparativo confirma que a bola de cristal dos economistas não conseguiu prever a profundidade da crise. Nos últimos quatro anos, os 100 economistas consultados pelo Banco Central projetaram resultados melhores para o PIB que o efetivado. Em 2014, a expectativa era de crescimento de 1,95%, enquanto a variação real foi de 0,1%; um ano antes, era esperada expansão de 3,26% da economia e confirmou-se 2,7%. Em 2012, o relatório projetava alta de 3,3%, bem superior à verificada, de 1,8%.

“A situação do Brasil vem piorando de uma maneira que surpreende até os melhores economistas. Num país sem controle administrativo e com dólar, inflação e juros nas alturas, acabou o modelo do tripé de sustentação”, afirma o analista da WhatsCall Consultoria, Pedro Galdi. Ele ressalta que, para o ano que vem, a situação se inicia de forma “agravada”, tendo em vista a lentidão esperada para o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que “força o engessamento da economia por mais tempo”.

O mesmo cenário percebido no desempenho do PIB é identificado em relação à inflação e ao câmbio. Em janeiro, a expectativa dos analistas do mercado financeiro já era de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) rompesse o teto da meta estipulada pelo Comitê Monetário Nacional (CMN) de 6,5%. A projeção para a inflação oficial alcançava 6,56%, ou seja, 0,06 ponto percentual acima do teto. Mas a nova projeção do governo, divulgada no mês passado, considera que o indicador feche o ano em 9,99%, sendo factível dizer que a inflação vai ultrapassar dois dígitos. O último Focus mostra que o mercado projeta 10,61%. Nos últimos três anos, a maior diferença entre previsão e resultado foi de 0,53 ponto percentual.

Na comparação que o EM fez entre previsões e os resultados do câmbio, o descompasso é o maior verificado. Em janeiro, os analistas projetavam que a moeda norte-americana fecharia o ano em R$ 2,80. Ao longo de 2015, o dólar chegou a ser cotado a R$ 4, mas, segundo a última previsão do governo federal, feita no mês passado, deve encerrar o ano avaliado em R$ 3,35. No patamar otimista dos ministérios do Planejamento e da Fazenda, a diferença entre o projetado no início do ano já seria a maior pelo menos desde 2010, mas, pelos números registrados nos últimos dias, a tendência é de desvalorização ainda mais acentuada do real ante o dólar. O último Focus projeta o fechamento da moeda a R$ 3,90, mas, com a perda do grau de investimento do Brasil pela avaliação da agência de classificação Fitch, é possível que fique acima de R$ 4.

SUCESSÃO DE ERROS O coordenador do curso de relações internacionais do Ibmec, Reginaldo Nogueira, afirma que, antes de analisar o que ocorreu para tamanho descasamento entre a previsão e o efetivado, é preciso “ter em perspectiva a sucessão de erros de condução da política econômica e a confusão política”. Segundo ele, um dos erros de leitura dos economistas e analistas financeiros foi quanto à precificação da liberalização dos preços administrados (gasolina, energia elétrica, gás de cozinha etc).

“O mercado lia que os preços iam ser liberados aos poucos. Ninguém esperava que houvesse a correção toda de uma só vez”, afirma. Além disso, destaca Nogueira, a desvalorização cambial superou o esperado porque os economistas consideraram que as reservas poderiam ser usadas para controlar o vaivém do dólar. Com a moeda norte-americana perto de R$ 4, o efeito sobre a inflação foi expressivo.


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