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Estado de Minas PERFIL

Ex-ministro Ozires Silva aposta no ensino para o país sair da crise

Aos 84 anos, fundador e ex-presidente da Embraer e hoje reitor da Unimonte é um visionário transformador: ''Não cometa o crime de resolver o problema financeiro do país cortando verbas da educação'', diz.


postado em 23/08/2015 06:00 / atualizado em 23/08/2015 09:01

''China fez em suas escolas a maior revolução do mundo moderno. Hoje, o Brasil compete com países educacionalmente desenvolvidos. Precisa investir no setor''(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS )
''China fez em suas escolas a maior revolução do mundo moderno. Hoje, o Brasil compete com países educacionalmente desenvolvidos. Precisa investir no setor'' (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS )
No primeiro domingo de janeiro, de 1989, fazia uma manhã gelada em Pequim, capital da China. O brasileiro Ozires Silva enfrentava o frio com os ouvidos atentos. Deng Xiaoping, secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), se reunia na Praça da Paz Celestial com 800 dirigentes do partido. Naquele dia, ele tinha um pronunciamento importante a fazer.


Oito homens assistiam à apresentação como exceções na cerimônia. No pequeno grupo, entre especialistas e pensadores americanos e europeus, o brasileiro era o único convidado vindo da América do Sul. Bem antes do anúncio na Praça da Paz, ainda na década de 60, ele já acreditava que países como o Brasil e a China poderiam experimentar grande crescimento e produzir alta tecnologia.

Na histórica cerimônia Deng Xiaoping anunciaria que, nos anos vindouros a China passaria por uma transformação radical e seria inserida na economia de mercado. Entre os oito, Ozires estava ali, a convite do austríaco Peter Drucker, porque contribuíra com ideias e experiências para o ambicioso projeto chinês. “Antes da proposta, Drucker me disse que vinha acompanhando meus depoimentos sobre a produção de aviões no Brasil e comentou que eu corria um sério risco de ter sucesso”, lembra.

No fim da década de 60, quando a industrialização ainda engatinhava no Brasil, Ozires Silva não só idealizou, como foi um dos fundadores da Embraer, companhia de que esteve na presidência por 17 anos. Obstinado pelo sucesso do país, ele foi ainda presidente da Petrobras por dois anos, entre 1986 e 1988. Propôs a transformação da companhia em uma empresa de energia, além do petróleo. Esteve também à frente do Ministério de Infraestrutura e foi presidente da Varig. Aos 84 anos, continua persistindo em ideias transformadoras. É o atual reitor do Unimonte, centro universitário em Santos, e preside o Conselho da Anima Educação, rede com 100 mil alunos, com instituições em São Paulo e Minas (Uni-BH e UNA).

Filho do eletricista Arnaldo de Oliveira Silva e da dona de casa e costureira Helena Beldinanzi, ele se lembra das discussões em sua casa, quando  o pai queria tirá-lo da escola aos 11 anos para ajudar nas despesas da família. “Minha mãe era contra, achava que eu devia continuar estudando.” O ensino médio foi feito na escola pública de Bauru, no interior de São Paulo, sua cidade Natal. Aos 17 anos, ele já tinha uma fábrica de aviões desenhada na cabeça e, em busca do sonho, ingressou na Força Aérea Brasileira (FAB). Alguns anos depois, graduou-se no Instituto de Tecnologia (ITA), com direito a medalha de ouro.

Conselho a Levy Quando o ministro Joaquim Levy assumiu o desafio de trazer o país de volta ao crescimento, Ozires Silva disse pessoalmente a ele: “Não cometa o crime de resolver o problema financeiro do país cortando verbas da educação”. Assim, pergunto a Ozires se ele acredita no potencial do Brasil para superar a crise atual. Ele diz que sim, mas responde que estranha a população não se pronunciar a respeito de temas como o corte de recursos para áreas essenciais.  “O Ministério da Educação é um fracasso, convive com número de analfabetos funcionais que se aproxima dos 70%. O Brasil está muito preocupado em resolver a questão financeira, que é importante. Mas não é só isso. E depois?”

Na semana passada, o reitor da Unimonte voou de São Paulo para Belo Horizonte – onde participou de palestra da Ação Brasileira pela Cidadania e Democracia (ABCD). Veio em um avião da Azul, fabricado no Brasil. Olhando o iPhone usado na entrevista, invenção da Apple de Steve Jobs, ele diz que as ideias de fabricar produtos não nascem do governo, elas vêm das pessoas “que estão por aí, mas que precisam estudar.”

O mineiro João Camilo Penna, ex-presidente da Cemig, Furnas e Eletrobras, foi contemporâneo de Ozires Silva em diversas ocasiões. Quando ele esteve à frente da Embraer, Pena era ministro da Indústria e Comércio. Mais tarde, quando Ozires dirigia a Petrobras, em 1988, Camilo Penna estava presidindo Furnas. “Ozires Silva é um dos grandes brasileiros. Ele é brilhante, mas tem humildade. Fez um trabalho imenso para o Brasil, na criação da Embraer. À frente da Petrobras, mostrou competência e flexibilidade. Ele é respeitado no exterior e faz grande promoção do Brasil. Um homem patriota, importante neste momento”, diz Penna.

Membro da ABCD, instituição recém-criada que tem por objetivo propor soluções para o país sair da crise, Ozires diz que “o país deve ser o que o povo deseja e não o que o governo quer”.

Ideias e ideais A primeira ideia que inspirou a criação da Embraer nasceu em um banco na pracinha de Bauru. Aos 14 anos, Ozires e seu amigo inseparável, Zico, sonhavam com o futuro e tentavam entender como levariam adiante a ideia da fábrica. Entusiasmado, o adolescente acabara de ler o livro do austríaco Stefan Zweig, Brasil, país do futuro e não tinha dúvida de que aqui seria o lugar para se produzir alta tecnologia e exportá-la para o mundo. Conversando com um imigrante suíço, em Bauru, descobriu que teria que ser engenheiro, estudar muito para construir aeronaves. A partir daí, seu foco nunca mudou.

Tão logo chegou ao ITA, deu início ao seu projeto de reunir pessoas em torno do sonho de desenvolver a aviação regional no Brasil. “Não foi fácil, foram muitos nãos, muitos momentos difíceis.” Mais tarde, já na década de 90, ele também conduziria o processo de privatização da empresa. “Confesso que tive medo de uma companhia estrangeira comprar a empresa, mas buscar a capitalização nacional era a única forma de salvá-la.” A companhia é a terceira maior fabricante mundial de jatos comerciais.

O diretor-presidente da empresa, Frederico Curado, diz que a companhia não existiria sem Ozires Silva. “Foi ele quem liderou o time que conduziu o processo de criação da empresa, em 1969, e se tornou seu primeiro presidente. Depois, retornou para levar a Embraer de forma segura e estável à privatização, em 1994.” Recentemente a companhia Azul batizou com o nome dele o jato E 195. “Só chegamos até aqui pelo trabalho desenvolvido por essas pessoas”, comentou Gianfranco Beting, um dos fundadores da Azul.

Ozires Silva foi casado com Therezinha Silva, é pai de três filhos e hoje acredita que as sete netas e seus dois bisnetos correm sério risco de puxar sua veia inovadora.

 

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