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Estado de Minas LIÇÕES DE CASA PARA O GOVERNO

Medidas da Fazenda para adequar gastos e arrecadação são realidade para muitas famílias


postado em 31/05/2015 06:00 / atualizado em 31/05/2015 08:43

A professora Graça Meira cortou despesas com a filha, mas diz que não sobra dinheiro para poupar(foto: Ana Rayssa / Esp. CB / D.A Press)
A professora Graça Meira cortou despesas com a filha, mas diz que não sobra dinheiro para poupar (foto: Ana Rayssa / Esp. CB / D.A Press)
Brasília – A decisão do governo – depois de anos de pedaladas fiscais e despesas acima dos ganhos – de adequar o Orçamento à realidade da arrecadação é rotina dos brasileiros há alguns anos. Desde o fim da bonança, quando depois da crise mundial (2008/2009), as medidas implementadas pelo governo se mostraram inflacionárias, os cortes em despesas de supermercados, renovação de bens e supérfluos viraram rotina para muitas famílias.


No caso de Ana Martins, de 65 anos, a adequação nas contas de casa começou há dois anos e se intensificou em 2015, em tempo de maior insegurança com aumento do desemprego e dos preços e com maior restrição de crédito. As contas da pensionista, que recebe R$ 1,2 mil por mês e mora com a filha e com o neto, são controladas ao máximo para o dinheiro não faltar. “Cada mês, tomo um susto no supermercado, porque o preço nunca está o mesmo. Para economizar, pego os encartes e saio pesquisando, compro o que está barato em cada lugar”, explica.

Para ajustar o bolso às necessidades, vale tudo: substituir produtos e marcas é uma boa opção. “Se a batata está cara em uma semana, compro mandioca”, conta Ana. Assim como o governo, que decidiu cortar gastos de custeio como passagens, hospedagens, aluguéis, Ana deixou de lado os passeios mais longos com a família há algum tempo. “O que ganhamos só dá para a comida e as contas”, lamenta.

“Faço sempre um esforço para cortar o que posso, porque prefiro poupar a gastar com supérfluos”. Para ela, o governo deveria agir da mesma forma. A conclusão intuitiva de Ana sobre as consequências das decisões equivocadas do governo sobre quem ganha menos é explicada pelo professor de economia João Luiz Mascolo, do Insper. “O aumento de preços pesa mais para as famílias de menor renda. Algumas classes sentem mais que outras, como as que consomem majoritariamente alimentos e serviços”, esclarece.

PERDAS Deixar de comprar, contratar, viajar não tem adiantado muito para garantir que o dinheiro chegue ao fim do mês ou sobre para poupar. Isso porque, com a inflação em alta, o poder de compra das pessoas mingua. De acordo com estudo do professor Rubens Penha Cysne, da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as perdas monetárias causadas pela inflação em 2014 somaram R$ 22 bilhões, ou seja 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, se o salário foi para conta-corrente, sem qualquer tipo de remuneração, o que você fazia com ele no início do ano não fará no fim, pois a inflação terá corroído o valor. Cysne acredita que, neste ano, a perda chegue a 0,5% do PIB, R$ 27,5 bilhões.

A professora Graça Meira, de 64, sente na pele essa perda do poder de compra. Ela exemplifica: mesmo tendo eliminado gastos que tinha com o balé da filha, de R$ 175 por mês, e com transporte escolar, de R$ 410, o aumento de outros serviços e necessidades elimina a possibilidade de poupança. Além disso, Graça precisou deixar de lado o gasto com plano de saúde. Desde 2008, ela depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimento médico. “É chato, porque demoro muito para ser atendida. E a gente vai ficando mais velha e precisando mais”, conta. (Com Alessandra Azevedo)

Pessimismo no ar

Os brasileiros estão sentindo os efeitos da carestia. De acordo com a pesquisa Expectativa de Inflação dos Consumidores, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundaçao Getulio Vargas (Ibre/FGV), apenas 7,3% das pessoas acreditam que a inflação vai ficar abaixo de 6,5% nos próximos 12 meses. Pessimistas em relação ao poder de compra e assustadas com o desaquecimento do mercado de trabalho, as pessoas passaram a reduzir o padrão de vida e a apertar o orçamento para fugir do endividamento. Para esticar o salário até o fim do mês, muitas vezes é preciso fazer sacrifícios. A funcionária pública Walquíria Lanna, de 51 anos, começou os cortes pelo lazer. Os almoços de domingo migraram dos restaurantes para dentro de casa. Em vez de encontrar os amigos em bares, os happy hours agora são programas domésticos. “Cada um compra a cerveja e leva para a casa de alguém. Fica bem mais barato que sair”, garante.


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