
Para ajustar o bolso às necessidades, vale tudo: substituir produtos e marcas é uma boa opção. “Se a batata está cara em uma semana, compro mandioca”, conta Ana. Assim como o governo, que decidiu cortar gastos de custeio como passagens, hospedagens, aluguéis, Ana deixou de lado os passeios mais longos com a família há algum tempo. “O que ganhamos só dá para a comida e as contas”, lamenta.
“Faço sempre um esforço para cortar o que posso, porque prefiro poupar a gastar com supérfluos”. Para ela, o governo deveria agir da mesma forma. A conclusão intuitiva de Ana sobre as consequências das decisões equivocadas do governo sobre quem ganha menos é explicada pelo professor de economia João Luiz Mascolo, do Insper. “O aumento de preços pesa mais para as famílias de menor renda. Algumas classes sentem mais que outras, como as que consomem majoritariamente alimentos e serviços”, esclarece.
PERDAS Deixar de comprar, contratar, viajar não tem adiantado muito para garantir que o dinheiro chegue ao fim do mês ou sobre para poupar. Isso porque, com a inflação em alta, o poder de compra das pessoas mingua. De acordo com estudo do professor Rubens Penha Cysne, da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as perdas monetárias causadas pela inflação em 2014 somaram R$ 22 bilhões, ou seja 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, se o salário foi para conta-corrente, sem qualquer tipo de remuneração, o que você fazia com ele no início do ano não fará no fim, pois a inflação terá corroído o valor. Cysne acredita que, neste ano, a perda chegue a 0,5% do PIB, R$ 27,5 bilhões.
A professora Graça Meira, de 64, sente na pele essa perda do poder de compra. Ela exemplifica: mesmo tendo eliminado gastos que tinha com o balé da filha, de R$ 175 por mês, e com transporte escolar, de R$ 410, o aumento de outros serviços e necessidades elimina a possibilidade de poupança. Além disso, Graça precisou deixar de lado o gasto com plano de saúde. Desde 2008, ela depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimento médico. “É chato, porque demoro muito para ser atendida. E a gente vai ficando mais velha e precisando mais”, conta. (Com Alessandra Azevedo)
Pessimismo no ar
Os brasileiros estão sentindo os efeitos da carestia. De acordo com a pesquisa Expectativa de Inflação dos Consumidores, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundaçao Getulio Vargas (Ibre/FGV), apenas 7,3% das pessoas acreditam que a inflação vai ficar abaixo de 6,5% nos próximos 12 meses. Pessimistas em relação ao poder de compra e assustadas com o desaquecimento do mercado de trabalho, as pessoas passaram a reduzir o padrão de vida e a apertar o orçamento para fugir do endividamento. Para esticar o salário até o fim do mês, muitas vezes é preciso fazer sacrifícios. A funcionária pública Walquíria Lanna, de 51 anos, começou os cortes pelo lazer. Os almoços de domingo migraram dos restaurantes para dentro de casa. Em vez de encontrar os amigos em bares, os happy hours agora são programas domésticos. “Cada um compra a cerveja e leva para a casa de alguém. Fica bem mais barato que sair”, garante.
