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Estado de Minas

Cenário econômico leva bancos a prever queda na geração de riqueza este ano

Previsão é reflexo das taxas de juros elevadas, inflação e desemprego em alta. Para o FMI, em vez de alta de 0,3%, PIB terá retração de 1%


postado em 11/04/2015 06:00 / atualizado em 11/04/2015 07:59

Se além dos números, os economistas usassem as cores para definir os cenários mais prováveis da vida financeira do Brasil e da população neste ano, o amarelo que na bandeira brasileira simboliza as riquezas conhecidas do país entraria num zona cinzenta. Com a piora dos indicadores de vitalidade da economia de janeiro a março, o desafio nas palhetas dos analistas de bancos e corretoras será trocar as pinceladas de tinta opaca pelo sinal verde que pode validar o selo de bom pagador para o Brasil nos próximos meses.

A nota de crédito é a principal referência para colocar a nação no caminho que os investidores percorrem até definir onde vão colocar suas moedas. Como num jogo de dominó depende também de outros indicadores desafiadores, o aumento da inflação, as altas taxas de juros, a queda da produção interna e o avanço do desemprego.

O descolorido balanço do primeiro trimestre contribuiu para rebaixar as projeções sobre o desempenho da economia brasileira em 2015. A estima que predomina entre os 100 analistas de bancos e corretoras consultados pelo Banco Central para o chamado Boletim Focus é de queda de 1,01% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 e a conceituada Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) reviu seus cálculos para o crescimento brasileiro de 1,3% para contração de 0,9%. Ontem foi a vez de o Fundo Monetário Nacional (FMI) cortar suas expectativas de uma expansão tupiniquim de 0,3% em janeiro para queda de 1% agora.

Nada é mais cinza do que as atuais expectativas para o desempenho da economia, recheadas de dados pálidos ou em vermelho. O Brasil parou de crescer no ano passado, quando a produção de bens e serviços, medida pelo PIB, variou parco 0,1%. A modesta performance foi a pior desde 2009, período em que o país se ressentiu da crise financeira mundial, com uma expansão de 0,2%. Um dos setores mais sacrificados pela crise que contém o PIB, a indústria enfrenta queda da produção de 9,1% nos últimos 12 meses até fevereiro, décima segunda taxa negativa e que só perde para a retração de 10% na mesma base de comparação em julho de 2009, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Engrenagens  Termômetro da economia, os fabricantes de máquinas e equipamentos representam bem a apreensão com os rumos da economia. Com ociosidade superior a 50%, as empresas do setor já estão reavaliando as projeções de estagnação em 2015 para taxas negativas, informa Marcelo Luiz Moreira Veneroso, diretor-regional da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). “Pelos dados que temos até o momento, 2015 já terá acabado para o setor em junho. Torcemos para que a situação melhore no segundo semestre, mas não há, por enquanto, perspectivas de recuperação”, afirma.

A indústria de bens de capital está trabalhando com carteira de pedidos em torno de três meses para máquinas sob encomenda e de apenas um mês para equipamentos seriados. Os prazos são inferiores ao período de cinco a seis meses de entrega que elas negociavam antes da crise financeira mundial e estão longe dos oito meses considerados ideais. Os pedidos são reflexo da falta de investimentos no setor produtivo da economia. Fora das fábricas, as linhas de crédito para a compra de máquinas e equipamentos estão mais difíceis e encareceram.

Mantido no maior nível dos últimos seis anos, o juro básico da economia, de 12,75% ao ano, aquele que remunera os títulos públicos e serve de referência para os bancos e o comércio, só aprofunda o desaquecimento do mercado interno, que foi muito forte no primeiro trimestre, na avaliação do economista Márcio Salvato, professor do Ibmec, escola de administração e negócios. Ele observa que dois outros indicadores compõem um quadro de grande dificuldade, a inflação, que não cedeu, e a elevação do custo da produção industrial no Brasil, sobretudo em razão da energia, reajustada em 22,08% na média do país em março.

Indicador oficial de inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 1,32% em março, maior taxa mensal em 12 anos, e no acumulado de 12 meses alcançou 8,13%, também o índice mais alto desde 2003. O resultado estourou o teto do sistema de metas de inflação, ingrediente, da mesma forma, acompanhado pelos investidores e analistas de bancos e corretoras. “O movimento que o governo fez para conter a inflação e o déficit público não foi suficiente”, destaca o professor Márcio Salvato. As contas públicas, de fato, se deterioraram na comparação com 2014. O rombo atingiu 6,5% do PIB e a dívida cresceu, em proporção do PIB, de 52,8% na média do período de 2010 a 2013 para 58,9% no ano passado.

No olho do furacão O cenário complicada a tarefa da equipe econômica de promover o arrocho fiscal, como componente da recuperação da confiança dos investidores. Em tempos de mercado mundial globalizado, o equilíbrio das contas públicas é premissa que os países não podem deixar de cumprir para passarem no crivo das agências internacionais de classificação de riscos, alerta o professor da UFMG Mário Rodarte, especialista em história econômica. “O desafio no Brasil é a construção de uma estratégia de desenvolvimento econômico, mas sensível a um contexto em que não se pode pressionar a inflação e nem desorganizar ainda mais as contas públicas”, afirma.

 

Progresso está fora de foco

 

Pontas opostas do lado real da economia, a indústria pesada de máquinas e equipamentos, que lidera uma cadeia de clientes e fornecedores, e a produção artesanal que emprega milhares de empreendedores por conta própria no Brasil, fonte importante de receita tanto no mercado interno quanto no externo, representam bem a apreensão com a palidez da economia e os desafios impostos pelo baixo crescimento. É como se os indicadores econômicos tivessem desfocado o lema da bandeira brasileira, que prega ordem e progresso.

Na lógica da teoria econômica, lembra o professor Mário Rodarte, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Brasil vive literalmente a necessidade de seguir a motivação estampada na bandeira brasileira, de colocar ordem na casa, quer dizer, nas contas públicas, sem poder pensar primeiro no progresso.

“Seria anacrônico fazer o progresso antes da ordem, porque dessa forma o país corre o risco de enfrentar a fuga do capital dos investidores”, diz Rodarte. A situação difere, por exemplo, da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek de Oliveira, que governou o país de 1956 a 1961, colocando um ciclo de investimentos à frente da ordem das contas públicas, com emissão elevada de títulos de dívida e precatórios.

Marcha a ré Ainda na economia real, ante o longo período de expansão do emprego e da renda no Brasil, que favoreceu a produção e o consumo, as estatísticas começam a retroceder. A taxa média de desocupação no país cresceu pelo terceiro mês em fevereiro. Passou de 6,5% em dezembro de 2014 para 6,8% em janeiro e agora 7,4%. Trata-se do maior patamar desde março de 2013, afetando 7,4 milhões de pessoas nas principais regiões metropolitanas do país, segundo o IBGE.

O coordenador de trabalho e rendimento do IBGE, Cimar Azeredo Pereira, observou que a população desempregada evoluiu mais rápido que a capacidade da economia de gerar empregos. A boa notícia é que o rendimento médio real dos trabalhadores, ou seja, descontada a inflação, cresceu 1,1% em fevereiro, na comparação com idêntico mês do ano passado.

O desaquecimento da economia que afeta as fábricas é também preocupante no mundo colorido e criativo da produção artesanal, diz Tânia Machado, presidente do Instituto Centro Cape, braço do Mãos de Minas, maior central de cooperativas de artesãos de Minas Gerais. “O consumidor e os lojistas estão comprando menos no Brasil. A compensação é que as exportações explodiram com o dólar mais alto que deu competitividade aos nossos preços”, afirma. (MV)


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