
Os estudantes da educação infantil estão esquentando o mercado em tempos de economia fria. Apesar de muitos segmentos projetarem um ano com estabilidade e até queda no movimento, em Minas Gerais, a expectativa da educação privada é de que o número de matrículas na creche e pré-escola surpreenda e continue em alta. Mesmo com o reajuste salgado das mensalidades, que encareceram até 16% no estado, no período de volta às aulas, instituições de ensino já confirmam crescimento que pode superar 10% no volume de alunos.
Das pequenas escolas até os grandes colégios, os investimentos envolvem abertura de turmas, ampliação do espaço físico e compra de materiais para receber o grande público. Segundo o último censo da educação, as matrículas no segmento infantil registraram aumento de 30% na rede privada entre 2008 e 2013. O Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG) estima números ainda mais positivos este ano. O trabalho dos pais fora de casa, o ambiente da escola propício ao desenvolvimento infantil e a despesas mais alta com o profissional doméstico, combinadas ao período de mão de obras escassa, são apontados pelos especialistas como as principais razões para cada vez mais cedo as crianças serem levadas às salas de aula. Na ponta do lápis, pagando mensalidades que custam, segundo o Sinep-MG, em média R$ 400 na capital, e perto de R$ 900 na Zona Sul, para meio horário, as famílias alimentam o bom momento das escolas privadas.
Em algumas instituições, o movimento é tão expressivo que atingiu a capacidade máxima de atendimento e há fila de espera que justificaria a abertura até de nova unidade. Esse é o caso do Colégio Santo Agostinho, que aos 80 anos aposta na base como grande alimentadora das séries futuras. Lorena Macedo, diretora da unidade Vale dos Cristais, em Nova Lima, conta que a escola começou a funcionar em 2007 com 25 alunos e hoje contabiliza 400. A inscrição para os novatos obedece a uma rígida lista que segue ordem de chegada. “Não fazemos seleção nessa faixa etária”, explica a diretora. Segundo ela, o processo é feito via internet e no último ano, dois minutos após ter sido aberto, as vagas para novas turmas já tinham sido preenchidas. E na sequência foram recebidas dezenas de inscrições para a fila de espera.

“Não temos espaço físico para ampliar, mas, se dependesse da procura, poderíamos abrir uma outra unidade”, comenta Lorena Macedo. Para ela, o papel da escola na socialização e autonomia da criança justifica a demanda cada vez mais precoce das famílias. A diretora também pondera que a educação infantil é estratégica para o negócio e justifica investimentos, já que dá sustentabilidade às séries subsequentes. “Além de o aluno estudar toda a vida na escola, ele volta para matricular os filhos e os netos. É uma parceria de longo prazo.”
A pequena Gabriela, de 1 ano e sete meses, acabou de experimentar os primeiros passos e já está começando sua vida escolar. Matriculada na educação infantil em uma escola de Belo Horizonte, ela segue os passos do irmão Kauã, de 4, que também começou a frequentar o ambiente antes de completar 2 anos. “A escola contribui para o desenvolvimento geral da criança, para autonomia e motricidade. Fazendo as contas, também pode ficar mais barato que contratar um profissional para ficar em casa”, avalia a mãe dos meninos, a psicóloga Cibele Fernanda Araújo. Ela, que também é mãe de Isabela, de dois meses, diz que a bebê, como os irmãos, vai começar cedo na educação infantil.
EXPANSÃO
Na Região Oeste de Belo Horizonte, a escola Instituto Coração de Jesus (ICJ) tem 50 anos de mercado e no ano passado investiu R$ 250 mil para ampliar o seu espaço, criando o ensino integral. Este ano, abriu novas turmas para a atender crianças de até 5 anos também no horário da manhã. O diretor administrativo da instituição, Ademar Fabel, diz que a escola concretizou a expansão de 20% em seu ensino integral em 2015 e deve avançar 10% nas matrículas da educação infantil, que recebe alunos a partir de 1 ano. “Muitas famílias estão trocando a empregada doméstica pela escola.”
O crescimento da educação infantil começou a se intensificar a partir de 2008 na rede particular. Antes disso, o número de matrículas no país chegou a entrar em declínio. “Este ano, a creche e a pré-escola devem surpreender com uma continuidade do crescimento, o que pode não ocorrer em outros segmentos”, observa Emiro Barbini, presidente do Sinep-MG. Ele, que é diretor do Colégio M2 em Lagoa Santa, diz que, a partir de agosto, vai inaugurar na escola o berçário, atendendo à demanda de famílias com bebês.

Apostas de todos os tamanhos
Os investimentos voltados aos pequeninos partem de instituições de todos os portes. No jardim de infância Lume, especializado na pedagogia Waldorf, a grande novidade para 2015 é o berçário, que começa a funcionar em março. A pedagogia que nasceu na Alemanha no início do século passado e tem como base a integração do ser humano na esfera cognitiva, artística e espiritual ampliou o número de alunos até seis anos e agora investe para receber os bebês. Há 18 anos atuando em Belo Horizonte e há oito no Bairro Serra, a proprietária da escolinha, Celina de Las Casas, conta que há alguns anos recebe a demanda de pais pelo berçário e agora vai poder atender também crianças menores, o que fará o estabelecimento experimentar crescimento de até 20% este ano.
“Vamos estender a pedagogia Waldorf para esses bebezinhos. Fizemos um treinamento a partir de um trabalho desenvolvido em Budapeste (Hungria) e trabalhamos em conjunto com os pais. Montamos, inclusive ,um grupo de estudo”, explica Celina de Las Casas. A faixa de preço do berçário para meio horário é de aproximadamente R$ 1 mil.
Com a expansão da demanda, cresce também a concorrência. Segundo dados do Ministério da Educação em Belo Horizonte, há mais de 1,3 mil escolas pequenas, médias e grandes que oferecem a educação infantil da creche à pré-escola. No Colégio Arnaldo, unidade Funcionários, nos últimos três anos, o número de alunos dessa faixa etária quase quadriplicou, saltando de 30 para pouco mais de 100 este ano. A coordenadora do ensino infantil e fundamental da escola, Rosimeire Marques, explica que, para receber os novos alunos, também oferecem proposta para formação integral.
Além do investimento no quesito pedagógico, o colégio ampliou o espaço com a compra de novos materiais, brinquedos e até na inauguração da fazendinha, onde as crianças convivem com animais diversos e podem levá-los para passar o fim de semana em casa. O Arnaldo também passou a oferecer o ensino integral. “Na educação infantil, não esperamos crescer menos de 10% em 2015”, diz a especialista.
No caixa
R$ 400
É a mensalidade média para meio horário no segmento infantil em Belo Horizonte
R$ 900
É a mensalidade média para meio horário no segmento infantil na Zona Sul de BH
30%
Foi o aumento do volume de matrículas na rede privada do segmento infantil no Brasil entre 2008 e 2013
