A esteticista Conceição de Souza, 44 anos, está comemorando quatro anos de sucesso. Apesar de a economia do país ter entrado em parafuso desde janeiro de 2011, mês em que ela abriu um pequeno negócio, o número de clientes só aumentou e o faturamento, também. Desde o início, porém, Ceiça, como os amigos lhe chamam, fez questão de seguir as regras para tornar real o sonho de ter a própria empresa. Contabilizou, sem maquiagens, as receitas e as despesas da firma, jamais recorreu a truques para mostrar uma saúde que o negócio não tinha, cortou gastos quando foi necessário e acatou conselhos logo nos primeiros sinais de que estava trilhando o caminho errado. Nunca foi voluntariosa.
Resultado: a pequena loja de estética de Ceiça cresceu, em média, 15% ao ano. Os dois funcionários iniciais foram multiplicados por seis. O sucesso, no entender da microempresária, tem explicação: ela sempre manteve os pés do chão. “Não inventei regras, não contrariei o manual da boa gestão”, diz. Espera-se que a simples receita de Conceição seja seguida à risca a partir de amanhã, quando Dilma Rousseff dará início ao seu segundo mandato. Nos últimos quatro anos, o que se viu foi um governo marcado pela ineficiência, intervencionista, afeito a truques contábeis e que abriu mão da estabilidade, bem precioso para quem, como Ceiça, vai investir em um negócio.
Ceticismo Ao se deparar com tal realidade, Ceiça dispara: “O Brasil precisa cair na real”. Felizmente, os primeiros sinais emitidos por Dilma são de que chegou a hora do ajuste. Ao nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, ela praticamente rasgou o receituário que prevaleceu desde que chegou ao Palácio do Planalto. A última semana de dezembro foi emblemática. Em busca de uma economia de R$ 18 bilhões, o governo restringiu benefícios sociais como o seguro-desemprego e as pensões por morte, temas caros para o partido de Dilma, o PT, que nasceu na base dos trabalhadores. Também admitiu que não terá mais como subsidiar a conta de luz, um capricho que a chefe do Executivo achou que poderia bancar com recursos do Tesouro Nacional.
Nada garante, contudo, que o Brasil voltará a crescer diante dos primeiros sinais de bom-senso emitidos pela presidente. “Os estragos foram tantos nos últimos quatro anos, que levará tempo para que o país retome taxas de expansão acima de 2%”, afirma Tony Volpon, diretor da Nomura Securities. Dependendo do acerto de contas, é possível que a economia mergulhe em recessão em 2015. Um ajuste fiscal mais severo combinado ao aumento dos juros — é possível que a taxa básica (Selic) passe dos atuais 11,75% para 12,50% ao ano — tende a restringir o consumo e os investimentos produtivos.
“Mas se o governo cumprir o que prometeu, reorganizar as contas públicas e levar a inflação para o centro da meta, de 4,5%, aos poucos, a confiança voltará”, diz Charles Krell, vice-presidente de Operações do Grupo Iguatemi, uma das maiores redes de shopping centers do país. “Por enquanto, a ordem é ter prudência. Não programamos nenhum grande investimentos para 2015. Nossa visão é realista. Vamos focar, sobretudo, em custos”, destaca. Nos últimos 18 meses, o grupo desembolsou R$ 1,5 bilhão para a construção de quatro empreendimentos.
Para o varejo, o controle da inflação é vital, pois a carestia reduz o poder de compra das famílias que, nos últimos anos, foi o grande motor da economia. A perspectiva é de que, com a recomposição das tarifas públicas e o repasse da alta do dólar para os preços, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) rode, ao longo do ano, entre 6,5% e 7%. “Daqui por diante, teremos que contar com os investimentos produtivos para mostrar que o Brasil não está condenado a crescer pouco”, assinala Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos.
Ele ressalta que nem a base baixa de comparação de 2014 — o PIB deve ter crescido 0,2% — será suficiente para fazer de 2015 um ano melhor. “E não adiantará culpar a crise internacional. O Brasil está pagando pelos próprios erros. Pagará em 2015, pagará em 2016. Talvez, em 2017, vejamos um salto do PIB de 2%”, completa.
