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Estado de Minas TRABALHO

Trabalhador pode estar sem emprego ou não, dependendo da pesquisa

Apesar de o número de desocupados no país ser único, metodologias diferentes mostram realidades distintas. Trabalhador pode estar sem emprego ou não, dependendo da pesquisa


postado em 10/02/2014 06:00 / atualizado em 10/02/2014 07:35

Juliana Machado produz bolos para gerar renda: enquanto para o IBGE ela está ocupada, para o Dieese a jovem está no contingente de brasileiros sem ocupação (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Juliana Machado produz bolos para gerar renda: enquanto para o IBGE ela está ocupada, para o Dieese a jovem está no contingente de brasileiros sem ocupação (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Juliana Machado não tem emprego fixo. Sua única fonte de renda são os bolos integrais que prepara para vender. A última venda – nove bolos de mel com maçã e de cenoura com cobertura de melaço de cana e cacau – foi na semana passada. A renda que apura com essa atividade é variável e incerta. O fato de ter apurado uma receita de R$ 135 comercializando seus quitutes na semana que passou faz com que ela seja considerada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como uma pessoa ocupada. Pela ótica da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos (Dieese), no entanto, Juliana estaria vivendo uma situação de desemprego aberto, já que está tomando providências efetivas para procurar trabalho fixo.

Na semana passada, os índices de desemprego medidos pelas duas principais pesquisas responsáveis por medir como os brasileiros se relacionam com a estrutura de produção – a PME e a PED – resultaram numa trombada de números. Para a PED, a taxa de desocupação da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) ficou 6,9% durante o ano de 2013. Mas, segundo a PME, no mesmo período e na mesma região o índice ficou em 4,2%.

A PME apurou que o desemprego médio nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador ficou em 5,4% ao longo de 2013. Já para a PED, que mede a ocupação nas áreas metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, do Recife, de Salvador e São Paulo, a desocupação bateu nos 10,3%. Para especialistas, porém, a variação nos números das duas pesquisas está longe de apontar erros de cálculo. Antes, evidenciam as diferenças de metodologia existentes entre os dois levantamentos, como fica claro no caso de Juliana, que fez seu último contato para tentar um trabalho formal na quinta-feira.

Para a PME, qualquer pessoa que tenha feito trabalho remunerado por pelo menos uma hora na semana anterior à entrevista da pesquisa, ainda que esse trabalho seja capinar um lote ou dar uma aula de reforço escolar, é considerada ocupada. Por outro lado, a PED avalia que, pelo fato de ter procurado emprego nos últimos sete dias, essa pessoa está pressionando o mercado de trabalho e, portanto, ela é desempregada. Caso Juliana não tivesse procurado emprego, e permanecesse em sua situação de trabalho ocasional, sua situação seria de desemprego oculto por trabalho precário.

Divergências
“Primeiro, é preciso lembrar que o desemprego, como um indicador, é altamente influenciado pela metodologia usada, assim como o são os índices de inflação. Depois, que PED e PME medem coisas diferentes. A PME avalia exclusivamente o desemprego aberto, o que não ocorre com a PED”, observa Lúcia Garcia, coordenadora das PEDs no Dieese. Renato Maia é formado em direito, está estudando para fazer concurso público e não tem nenhuma fonte de renda. Tentou entrar para a Advocacia Geral da União (AGU) em novembro do ano passado. Não deu. “Em abril, farei prova para analista da Defensoria Pública de Brasília”, avisa. Pela PED, ele seria considerado desempregado em situação aberta.

“Pela PME, Renato nem faz parte da População Economicamente Ativa (PEA) do país. Ou seja, não é nem ocupado nem desocupado”, explica Luciene Longo, analista do IBGE em Minas. Por outro lado, Sandra Schirlene dos Santos é assistente social, mas trabalhou como gerente de operações do Walmart por 4,5 anos. No fim da semana passada ela deu entrada no seguro-desemprego. Agora, pretende fazer um curso para se aprimorar na área do varejo e enviar seu currículo para sites de busca de emprego. Como ainda não tomou essa atitude, ela é considerada desempregada tanto na PME quanto na PED.

Em descompasso com a população

Se os números das pesquisas de participação no mercado de trabalho divergem, o mesmo ocorre com o sentimento dos brasileiros em relação ao desemprego. “A partir do momento em que uma pessoa entra num índice de pesquisa como desocupada ou ocupada, o parâmetro deveria ser a renda fixa. No meu caso, a variação é muito grande. Faço os bolos integrais para vender, mas não me considero empregada porque a renda é imprevisível”, diz Juliana Machado, considerada ocupada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Estou estudando há seis meses. Fazer concurso é uma escolha difícil, você faz a opção de não entrar no mercado de trabalho. Ocorre que a renúncia de agora se transformará em benefício depois”, diz Renato Maia, considerado desempregado pela PME e também pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socio-econômicas (Dieese).

José Pastore, professor de relações do trabalho na Universidade de São Paulo (USP), lembra que as pesquisas domiciliares funcionam de forma similar no Brasil e em outros países. “As regras são internacionais. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma padronização de definições e de medições e o Brasil é signatário dessas regras. Isso vale tanto para as pesquisas do IBGE quanto do Dieese”, explica. Para ele, o descompasso entre o sentimento da população e o dos levantamentos de emprego e desemprego são naturais, assim como ocorre com os índices de inflação.

Nova Pesquisa Em meados de janeiro de 2013, o IBGE divulgou os primeiros resultados da nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que vai substituir a tradicional Pnad anual e a Pesquisa Mensal de Emprego (PME). O objetivo é mostrar o cenário do emprego a cada três meses em 3,5 mil municípios em todas as regiões do país, incluindo áreas rurais, num total de 211.344 domicílios visitados. “A partir de 2015, a Pnad Continua trará informações mais abangentes do que a PME. Além disso, vai investigar as pessoas acima de 14 anos e não as com 10 anos ou mais. Por isso, será um retrato mais fiel do mercado”, acredita Luciene Longo, analista do IBGE em Minas. (ZF)


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