Entre as 11 empresas que se registraram para o leilão do Campo de Libra, estão as chinesas CNOOC, especializada na exploração em alto-mar, Sinopec, produtora e refinadora, e CNPC, forte nos campos em terra. Mesmo que concorram entre si, elas deverão agir coordenadas pelo governo chinês. "Ao priorizar os montantes energéticos abrangidos, em vez do retorno financeiro, o modelo de partilha da produção, que será aplicado na área do pré-sal, em substituição ao de concessão, caiu como uma luva para os interesses da China no petróleo, em desfavor de todos os demais países, inclusive do próprio Brasil", observa Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.
Nos bastidores, o reconhecimento da Petrobras de que o caixa da empresa não lhe permite bancar muito mais do que os 30% que, por lei, terá que assumir no empreendimento dará ao combinado chinês um papel importante como investidor. As empresas asiáticas poderão cobrir boa parte do restante dos R$ 15 bilhões do bônus de assinatura que os vencedores da disputa terão que pagar para ter o direito de explorar a jazida.
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), acredita ser bem provável que as chinesas financiem o leilão em troca de óleo, por causa da farta disponibilidade de capital e do desejo de garantir acesso a reservas futuras de petróleo. Na sua opinião, elas teriam, inclusive, condições de adiantar a fatia do bônus que vai caber à Petrobras, de pelo menos R$ 4,5 bilhões.
As intensas negociações sino-brasileiras nas áreas de petróleo e gás, que tendem a atingir patamares históricos no futuro próximo, ocorrem em paralelo a profundas transformações em curso no mercado mundial de energia. A descoberta pelos EUA de uma nova forma de extração do chamado gás não convencional, ou de xisto, deu a largada para uma reorganização da geopolítica energética global.
Com insumo obtido a um custo muito competitivo, o chamado fraturamento hidráulico colocou o gás em destaque, além de ser a principal razão para o governo norte-americano apostar na retomada industrial do país. "A China tem também o segundo maior potencial para produzir gás de xisto no mundo e já estabeleceu uma parceria tecnológica com os EUA para explorar essa vantagem", observa o coordenador técnico do Projeto Mais Gás Brasil, Ricardo Pinto.
Ele ressalta, contudo, que o gás não convencional não repetirá com a mesma velocidade o impacto que tem e terá no mercado norte-americano. A razão disso está na vasta malha de distribuição já instalada na superpotência norte-americana, onde o sistema regulatório é o mais maduro e testado no mundo.
