
Em 2011, Ana Cláudia pagava R$ 80 para cortar o cabelo, custo que subiu a R$ 120 neste ano. O aumento no período foi de 33%, quase cinco vezes acima da inflação oficial no país, de 6,70% nos últimos 12 meses até junho, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O indicador é medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta, que também foi sentida em outros serviços, levou a família a assumir outras tarefas. “Aqui em casa cada um lava seu próprio carro. Temos diarista uma vez por semana e nos outros dias nós mantemos a casa organizada”, garante.
Termômetro da economia, os serviços têm grande impacto no orçamento das famílias e, consequentemente, nos negócios dos brasileiros. Do último trimestre de 2012 para o primeiro deste ano despencou a taxa de crescimento do setor, de acordo com pesquisa do IBGE. A expansão foi de 0,5%, metade do índice apurado no fim do ano passado e pior desempenho para o período desde 2005.
Outro indicador desfavorável, a geração de empregos formais nas empresas prestadoras de serviços desabou na última medição do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. De abril para maio, o saldo do emprego, ou seja, a diferença entre contratações e demissões, caiu de 79 mil para 24 mil. A queda alcança quase 70%. Desde o começo do ano, os resultados mensais do emprego foram inferiores aos de 2012. No acumulado dos primeiros cinco meses, ainda com base nos últimos dados disponíveis do Ministério do Trabalho, as contratações diminuíram 28%, descontadas as dispensas.
Exageros
Os serviços têm respondido pela maior parte das pressões inflacionárias no Brasil. No primeiro semestre, o setor aplicou aumentos acima da média. O preço médio da depilação, por exemplo, subiu 13,1% de janeiro a junho, representando quatro vezes mais que a alta geral do IPCA, de 3,10%.
Registraram, ainda, aumentos sem justificativa os serviços de psicólogo (7,46%), cursos diversos (6,92%), tratamento de animais (6,82%) e fisioterapeutas (6,33%). Completam a lista dos itens que mais ajustaram a tabela serviços médicos e dentários (6,27%) e manicure (6,11%). Não bastasse, ficou mais caro comer em restaurantes (5,32%) e contratar mão de obra para a reforma da casa (5,04%).
Cursos que ensinam a prática de alguns desses serviços despontam como alternativa para driblar a alta dos preços. Há três anos, a chef de cozinha Laura Tomás identificou a demanda e tem ministrado aulas ao preço de R$ 90 para aprimorar técnicas na cozinha. “Hoje, as pessoas estão interessadas em fazer a própria comida, reunir amigos e, assim, economizar”, afirma. Nos cursos, Laura ensina como preparar um jantar completo com entrada, prato principal e sobremesa.

'Vacas magras' ameaçam empregos
Patrões que ainda não começaram a demitir estão congelando vagas ou encontrando outras formas de reduzir despesas e encarar um período de “vacas magras” sem prazo para acabar. “O cenário preocupa porque o setor de serviços, como grande empregador, é o principal pilar que sustenta o desemprego baixo no Brasil”, alerta Flávio Serrano, economista do Espírito Santo Investment Bank.
Caso essa capacidade de geração de postos de trabalho não esboce reação, a economia brasileira, já baqueada pelo baixo crescimento e pela inflação alta, terá de conviver como agravante da volta do desemprego a níveis mais elevados, justamente por conta do arrocho no principal setor da atividade econômica. “Seria o pior dos mundos”, adianta Serrano.
Os empresários estão diante de um dilema.O endividamento recorde das famílias—de65,2%, segundo último levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC)—acabou afugentando clientes como há muito não se via.Com menos consumidores ativos e total de despesas em franca ascensão, a estratégia para manter o negócio sustentável financeiramente tem passado pelo ajuste das tabelas e dos próprios serviços.
Sócio-proprietário da Barbearia Conde de Linhares, que está há 65 anos no ramo, Cleber Estevam Gomes reajusta os preços anualmente e diz que leva em conta os custos para manter as portas abertas, mas que não repassa tudo ao cliente para não perdê-lo. “Prefiro trabalhar mais e ganhar no volume”, explica. Para segurar a clientela depois de um aumento de 9,5% nos preços do corte de cabelo, que passou de R$ 21 no ano passado para R$ 23 neste ano, ele conta que também tem investido em novos serviços.“ Como algumas pessoas já estão cortando cabelo em casa para economizar, eu ofereço o acabamento por R$ 8 para acertar a nuca, costeleta. Me adaptei às mudanças do mercado”, garante.
Heleno Marta Júnior, proprietário de uma das franquias do salão Socila, explica que os reajustes de preços podem ser justificados pelo nível de exigência dos clientes, que querem uma mão de obra mais qualificada. “Os profissionais têm que se especializar cada vez mais, e isso tem um custo, tornando a prestação de serviços mais cara”, diz. De 2012 para cá, os preços do serviço de escova subiram50%, em média, passando de R$ 20 para R$ 30, e os serviços de manicure, incluindo a pintura de pé e mão, ficaram25% mais caros, passando de R$ 20 para R$ 25.


