Deco Bancillon, Rosana Hessel e Victor Martins
Brasília – A crise financeira que abateu instituições dos mais variados tamanhos e nacionalidades lançou os países em uma nova ordem econômica global. Diante da quebradeira geral mundo afora, as empresas que conseguiram sair fortalecidas dessa tormenta encontraram um mercado propício para aquisições. Com dinheiro no bolso, as brasileiras fizeram a farra e compraram de tudo um pouco. Somente nos últimos quatro anos, a participação de companhias nacionais no capital de estrangeiras aumentou 39,4%.
Em 2009, quando o mundo ainda mergulhava, sem rumo, na maior recessão desde 1929, o volume de ativos no exterior sob o poder de brasileiros totalizava US$ 157,6 bilhões. De lá para cá, esse montante teve um incremento de cerca de US$ 62,1 bilhões. Hoje, chega ao volume recorde de US$ 219,7 bilhões, segundo números levantados pelo Estado de Minas a partir de dados do Banco Central (BC).
Boa parte desse dinheiro foi direcionada para países que mais sofreram os efeitos da crise. É o caso dos Estados Unidos, destino de 13,4% dos recursos aplicados por brasileiros no exterior. Com a desvalorização dos ativos e a consequente fragilidade de sólidas empresas locais, investidores nacionais viram uma boa oportunidade para fincar, de vez, os pés na maior economia do mundo. Foi o que fizeram, por exemplo, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, que arremataram, por US$ 23,2 bilhões, o controle da centenária fabricante de catchup e mostarda Heinz.
Com a compra, feita em parceria com o bilionário Warren Buffett, os empresários passam a ser donos de praticamente tudo o que inclui a dieta da tradicional família norte-americana. Além do catchup, já são verde e amarelo os hambúrgueres da rede de fast-food Burger King e a tradicional cerveja Budweiser. Essa última transação, aliás, foi marcada pela consolidação da brasileira Ambev no concorrido ranking das maiores cervejarias do mundo. Com a compra, o segmento de bebidas passou a ser o segundo na preferência nacional em ativos investidos no exterior, com 9,7% dos recursos aplicados. Fica atrás somente de serviços financeiros, com 33,9%.
Para o Islã Embora parte dessa internacionalização tenha se acentuado depois da crise, esse movimento começou muitos anos antes, durante a época em que o Brasil viveu o chamado milagre econômico, em meados da década de 1970. Foi nesse período, por exemplo, que a hoje gigante alimentícia Brasil Foods (BRF), que nasceu da junção de duas conhecidas marcas nacionais, a Perdigão e a Sadia, fechou o primeiro contrato de exportação de frangos para o Oriente Médio, em 1975. “Pouco tempo depois”, lembra o diretor de Marketing Internacional da companhia, Fabio Camparini, “países como Arábia Saudita, o Kuwait, a Líbia, o Egito e o Iraque já estavam importando da gente”, diz.
Hoje, o frango nacional já sacia a fome de milhões de pessoas em 140 países. E haja ave para atender todo mundo. Somente em 2012, o Brasil exportou cerca de 3,9 milhões de toneladas do alimento, sendo a maior parte para o Oriente Médio (33,6%) e para o extremo Oriente (20,3%).
Publicidade
Empresas brasileiras aproveitam recessão global para expandir negócios lá fora
Publicidade
