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Estado de Minas POLÊMICA EM BH

Peças da escravidão: objetos de tortura no Museu Mineiro geram polêmica

Coleção de 30 peças do período da escravidão, em exposição em Belo Horizonte, reacende debate sobre representação da história de negros e indígenas no Brasil


09/09/2021 06:00 - atualizado 09/09/2021 14:17

As peças de tortura levantam debate sobre a simbologia da escravidão nos dias de hoje(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
As peças de tortura levantam debate sobre a simbologia da escravidão nos dias de hoje (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Instrumentos de tortura no período colonial brasileiro levantam o debate acerca de como devem ser apresentados objetos desse período. Uma coleção de 30 peças do período da escravidão, em exposição no Museu Mineiro, no Centro de Belo Horizonte, é questionada pelo padre Mauro Luiz da Silva, curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, o Muquifu.
 
Como parte do conjunto estão expostas seis peças empregadas no  suplício contra a população negra no Brasil e estão integrando o acervo. O restante se encontra na reserva técnica do museu. 
 
“Nossas histórias não são referendadas e não são reverenciadas ali. Nossos corpos permanecem subalternizados e nossas memórias, mesmo que incomodamente vivas, permanecem ali silenciadas", afirma padre Mauro.

Símbolos em espaços públicos 

Em junho, manifestantes atearam fogo na estátua em homenagem ao bandeirante Manuel de Borba Gato, na Zona Sul de São Paulo. Há uma discussão sobre símbolos da escravidão nos espaços. "É urgente denunciar a ausência dos nossos corpos negros em tais espaços, é urgente exigir que nos seja devolvido nosso lugar nos espaços de cultura e de memória coletiva”, completa.
 
As peças no Museu Mineiro, na avaliação de padre Mauro, não representam a população negra. Ao contrário, são objetos pertencentes aos colecionadores e àqueles que os confeccionaram.
 
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
 
 
O curador destaca como a exposição pública dessas peças traz incômodos e reflexões sobre qual a mensagem que tais coleções e seus colecionadores estão querendo transmitir. Para padre Mauro, isso também é presente em diversos espaços culturais. “Observo que os museus de nossa cidade não contam as histórias das populações negras e indígenas, são espaços colonizados, higienizados, eurocêntricos, opressores.” 

O incômodo vem desde o momento da montagem da exposição quando o sacerdote teve contato com o acervo. Padre Mauro ajudou a elaobrar intervenções artísticas do Muquifu para o Museu Mineiro.

Incômodo crítico

Para o curador do Muquifu, a história, as memórias e as vivências dessas populações não podem e não devem se resumir a este período tão cruel, com símbolos mais afirmativos e positivos em relação à população negra.

“É necessário incluir no conceito de cultura os mais diversos conhecimentos que acumulamos em nossa convivência social, nas diferenças, nas redes de compartilhamento de símbolos e valores compartilhados em um grupo ou na sociedade como um todo”, menciona o curador.
 
A historiadora Nila Rodrigues Barbosa destaca que a exposição traz um incômodo crítico. De acordo com Nila, essas coleções não trazem uma reflexão sobre o sistema de colonização no Brasil, apresentando, em muitos casos, apenas um lado da história: da população negra passiva e sem resistência a este sistema colonial.

"É necessário incluir no conceito de cultura os mais diversos conhecimentos que acumulamos em nossa convivência social, nas diferenças, nas redes de compartilhamento de símbolos e valores compartilhados em um grupo ou na sociedade como um todo"

Padre Mauro, curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu)


 
“Encontrar instrumentos para supliciar escravizados em museus é um desafio a recortar histórias. Temem rememorar momentos onde houve um antagonismo ferrenho e constante, que desde a primeira hora esteve presente contra o sistema escravista, por indígenas e negros e negras escravizados que construíram esse país e deixaram uma descendência igualmente resistente e aguerrida", menciona a historiadora.
 
Nila Rodrigues ainda destaca que é necessário um trabalho forte e cuidados específicos da equipe do museu no momento da mediação. “É preciso que ao visitar esta exposição se encontre legendas e textos e mediação, que falem, que apontem as contradições de uma coleção onde os instrumentos para supliciar escravizados, fazem parte não como algo isolado, mas como um paradoxo que poderia, mesmo que implicitamente, querer retirar autoria e natureza negra do barroco mineiro”, completa Nila.
 

Peças de colecionadores

Os objetos são doações de coleção histórica do Arquivo Público Mineiro e de colecionadores, que chegaram com outras peças também históricas e artísticas. Quatro peças estão expostas na mostra permanente e duas na mostra temporária "Amigas da Cultura”.

"A coleção tem o propósito de demarcar o período histórico que foram utilizadas, assim como não nos deixar esquecer o horror que elas causaram aos cidadãos que foram sequestrados e escravizados. A tendência é que possamos cada vez discutir mais a existência delas em exposição"

Rafael Perpétuo, coordenador do Museu Mineiro



Com a chegada da coleção, um debate foi levantado por coordenadores e curadores de museus e especialistas da área sobre quais pensamentos esses objetos podem trazer ao público. Um deles é sobre como a população negra pode receber a presença dessas peças em um museu.

Para Rafael Perpétuo, coordenador do Museu Mineiro, as peças têm um papel fundamental de reflexão sobre esse momento tão cruel para a população negra no país.

Obras são doações de acervo do Arquivo Público Mineiro e também de colecionadores (foto: Museu Mineiro/Divulgação)
Obras são doações de acervo do Arquivo Público Mineiro e também de colecionadores (foto: Museu Mineiro/Divulgação)

 
“A coleção tem o propósito de demarcar o período histórico que foram utilizadas, assim como não nos deixar esquecer o horror que elas causaram aos cidadãos que foram sequestrados e escravizados. A tendência é que possamos cada vez discutir mais a existência delas em exposição”, destaca Rafael. 
 
O coordenador ainda aponta como a exposição das peças para o público não pode parar por aí, pois é necessário a ampliação do debate racial e do cenário do negro no país. “Queremos expandir isso, não só falar dos pretos escravizados, mas também da cultura e legados que erigiram o que pensamos como cultura mineira, como as religiões de matriz africana, a culinária e os saberes ancestrais.”
 

ENTREVISTA

Padre Mauro Luiz da Silva 
Curador do MUQUIFU, Coordenador do Projeto de Pesquisa e Centro de Documentação NegriCidade e Pároco do Bairro Vista Alegre em Belo Horizonte
 
O que esses objetos do período da escravidão podem significar para um espaço cultural?
Vamos considerar como objetos de escravidão não apenas os instrumentos de suplício colecionados pelas Amigas da Cultura, tudo bem? Vamos incluir todas aquelas imagens sacras barrocas e os objetos litúrgicos católicos como sendo, também, objetos de escravidão. De alguma forma que ainda não consigo interpretar, eles fazem parte de uma mesma coleção, estão em um mesmo espaço – antes estavam no Museu Mineiro como empréstimo e agora fazem parte daquele acervo, antes privado e agora se tornou público. Precisamos rever nosso conceito de cultura e compreendê-la como experiência que vai além de comportamentos e tradições herdados do passado. É necessário incluir no conceito de cultura os mais diversos conhecimentos que acumulamos em nossa convivência social, nas diferenças, nas redes de compartilhamento de símbolos e valores compartilhados em um grupo ou na sociedade como um todo. Pois bem, o que entendo a respeito da presença daqueles instrumentos de suplício de escravizados na coleção do Museu Mineiro e, por um breve período, em exposição na mostra de curta duração “Amigas da Cultura”, são mensagens nada sutis, sobre as expectativas que se têm em relação a nós, descendentes daquelas e daqueles que foram escravizados, ou seja: nós não pertencemos àquele lugar, mesmo se tratando um espaço público e que deveria acolher todas e todos. Nossas histórias não são referendadas e não são reverenciadas ali. Nossos corpos permanecem subalternizados e nossas memórias, mesmo que incomodamente vivas, permanecem ali silenciadas. É urgente denunciar a ausência dos nossos corpos negros em tais espaços, é urgente exigir que nos seja devolvido nosso lugar nos espaços de cultura e de memória coletiva.

 
E ao público negro, o que podem representar?
Entre imagens barrocas de santas e santos católicos está um grupo de instrumentos utilizados para o suplício de negros escravizados. Pois então, é desse lugar que falo: homem negro, nascido em Belo Horizonte, filho de pai negro e mãe branca, belo-horizontinos também, avós vindos do interior de Minas Gerais e busco interpretar o silenciamento das histórias negras naquele museu e de forma tão contundente naquela exposição temporária. Porque nossas histórias não são contadas ali? Aqueles instrumentos de suplício não nos representam. Nnão nos pertencem. Digo isso também em relação às peças sacras, católicas e barrocas, pois nunca deixamos de ouvir o chamado da Caixa de Moçambiques, da nossa ancestralidade afrodiaspórica, das experiências religiosas de Matriz Africana que nunca foram sufocadas. O barroco dos altares católicos, e toda opulência do ouro e da prata dos objetos litúrgico dos homens brancos, também não nos representam. Nossa fé resistiu aos açoites do “sinhô” e da “sinhá”. Foi por nossa ancestralidade africana que teimamos, sobrevivemos e resistimos, pra passar o cajado adiante, para as mãos de quem virá depois de nós. A angústia diante do horror barroco – com seus santos de ouro, manchados de sangue, cobertos de pedras preciosas e colocados na mesma sala onde estão os grilhões – é pelas pessoas negras que passarem por aquela sala, quando perguntarem sobre nossas histórias negras e nossos antepassados, quando perguntarem sobre o porquê de tanta crueldade e tanta vilania. 

Como é possível refletir e pensar sobre o período da escravidão com essas peças?
Meu entendimento é que a exposição “Amigas da Cultura”, em si mesma, é uma excelente oportunidade para que tais questões sejam trazidas para o debate. Voltando nosso pensamento para a exposição, ao entrar na sala, nosso olhar é capturado pelo primeiro expositor – o único pintado de cor preta, o mais baixo em comparação aos que apresentam as peças sacras/católicas, estes pintados de cor vermelha bordô, a mesma cor das paredes – agora o expositor pintado de preto foi trazido para o centro da sala, e nos apresenta um conjunto de quatro instrumentos de suplício de escravizados. Observemos a iluminação poética e meticulosamente planejada, observemos a disposição das peças sacras, dispostas em um semicírculo quase reverente aos objetos de suplício, agora trazidos para o centro da sala. Pois então, daqui de onde vejo, reconheço ali a “alma da mineiridade”. Alma sadicamente piedosa onde os homens brancos, colonizadores e escravocratas, acumularam seu ouro derramando muito sangue negro, sem piedade e, por mais absurdo que possa parecer, diante de olhares acusadores, sob as bênçãos e a omissão dos que se dizem crentes, açoitando gente preta que foi desumanizada, torturada, humilhada, escravizada, vendida, explorada e morta. A mesma mão branca que, se dizendo temente a Deus, reza o Rosário e açoita o corpo negro da mulher escravizada, daquela que amamenta o filho branco da sinhá.


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