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Estado de Minas MÚSICA

Festival Sotaques da Sanfona promove três dias de shows gratuitos em BH

Desta sexta-feira (24/6) a domingo, artistas e grupos de diversos estados se revezam no palco na Praça Duque de Caxias, a partir das 18h


24/06/2022 04:00 - atualizado 24/06/2022 07:17

vestidas com roupas à moda caipira e segurando seus instrumentos, as integrantes do trio Mana Flor sorriem para a câmera, de pé, em ambiente neutro
O Trio Mana Flor, com o autêntico forró pé de serra, é uma das atrações de hoje do festival, que prossegue até domingo e promove também atividades paralelas (foto: Tarita de Souza/Divulgação)
Ao longo dos últimos 10 anos, BH tem se firmado como um polo nacional do acordeom. Entre 2013 e 2018, a cidade sediou um festival internacional dedicado ao instrumento, idealizado e capitaneado por Célio Balona.

Agora, numa espécie de passagem de bastão, estreia, nesta sexta-feira (24/6), o Sotaques da Sanfona Brasileira, que até o próximo domingo promove uma série de shows gratuitos na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza.

Acordeom, sanfona ou, ainda, gaita de fole, como é chamado no Sul do país, o instrumento comporta diferentes nomes e também formas de expressão. Idealizado pela produtora Giselle Goldoni Tiso, o festival tem curadoria do paulista Toninho Ferragutti, que convidou músicos de diferentes estados. 

Vão se apresentar o sergipano Mestrinho, o pernambucano Beto Hortis, a baiana Lívia Mattos, os gaúchos Renato Borghetti e Bebê Kramer, os cearenses Nonato Lima e Adelson Viana, Marcelus Anderson, do Mato Grosso do Sul, os mineiros Célio Balona e Rafael Martini, Gabriel Levy e Trio Mana Flor, de São Paulo, além do próprio Ferragutti. 

O curador acredita que a sanfona vem, paulatinamente, rompendo essa barreira “regional” e se consolidando como um instrumento essencial nos mais diversos gêneros. “Ela ainda é vista como instrumento regional, porque é lá que ela reside musicalmente na maioria das vezes, mas ela vai se urbanizando, participando das várias vertentes, entrando para a academia, na mesma medida em que o país vai se interessando por sua música e costumes”, afirma.

ESCOLAS 

Ferragutti diz que tomou como critérios para a escolha dos músicos participantes a singularidade e a diversidade. Ele considera que dessa forma pode contemplar os mais variados gêneros, desde o forró, representado na programação pelo Trio Mana Flor, até a música do Leste Europeu, que Gabriel Levy explora, passando pelos ritmos pantaneiros, como o chamamé, por onde Marcelus Anderson transita.
vestido de preto, Mestrinho toca sanfona
Mestrinho é um dos convidados do festival e se apresenta no domingo (foto: Paulo Rapoport / divulgação)

“São escolas que vão se fazendo presentes e marcando seu lugar. A gente associa a sanfona a determinados gêneros musicais, o que não é ruim, mas é importante ver o quão versátil ela é. Trata-se de um instrumento como outro qualquer. Procurei realçar essa característica com essa escalação de artistas”, diz.

Na opinião do músico, a associação que se faz da sanfona com determinados ritmos regionais se deve ao fato de ela ser capaz de fazer uma fotografia musical do local onde é tocada, já que, durante muitos anos, a transmissão de conhecimento se deu no âmbito da cultura popular. “Quando você ouve o Marcelus tocar, por exemplo, parece que você é transportado para a região pantaneira. A escola nordestina também é muito forte e provoca essa identificação.”



Mas o acordeom que se toca em São Paulo, no Rio ou em BH também tem um sotaque regional? Ferragutti acredita que são linguagens mais cosmopolitas as que se praticam em grandes centros urbanos, porque recebem influência de diversas partes não só do país, mas do mundo. “São ambientes em que você tem um pouco mais de liberdade para experimentar outras formas de atuação com a sanfona”, destaca.

Ele próprio vai se apresentar acompanhado por um quinteto de cordas, de modo que a sanfona se insere no universo da música de câmara. O repertório que será apresentado em seu show se baseia no álbum “De sol a sol”, lançado no ano passado, e que contou com essa mesma formação de baixo, dois violinos, violoncelo e viola em diálogo com a sanfona. 

Para Ferragutti, a sanfona “vive um momento muito bom, com muita gente aprendendo, porque abriu-se esse espaço na academia. Ao mesmo tempo, as pessoas se aproximam dela por meio de tutoriais na internet. Acredito, inclusive, que a sanfona aponta para uma discussão acerca do modelo de ensino de música”, diz.

MODA 

Para Célio Balona, o instrumento teve sua época de ouro em meados do século passado, quando, conforme aponta, praticamente todas as casas tinham pelo menos uma pessoa que sabia tocar. Ele credita essa popularidade de outrora a nomes como Luiz Gonzaga e Sivuca. Era o instrumento da moda até perder esse posto para o violão, a partir do advento da bossa nova, segundo o músico.
Sentado, Toninho Ferragutti sorri, tendo atrás de si, de pé, os músicos de seu quinteto de cordas
Curador do festival, Toninho Ferragutti se apresenta com quinteto de cordas (foto: Tarita de Souza/Divulgação)

“Antigamente a gente tinha aqui as escolas do Mário Mascarenhas, que era paulista e influenciou praticamente uma geração inteira. Marcou época não só em Minas, mas em todo o Brasil, com o método que ele criou”, diz, lembrando que, depois de um período relegada a um segundo plano no ambiente da música brasileira, a sanfona voltou a conquistar espaço.

Balona avalia que hoje é um instrumento que voltou a ter papel central, marcando presença em vários ambientes, das rodas de choro às salas de concerto. Ele observa que o cenário da sanfona em Minas Gerais hoje é muito rico, com nomes como Marx Marreiro, Léo Magalhães (do grupo Chama Chuva), Lucas Viotti, Julian Tarragô e Rafael Martini.

Com show intitulado “A tradição da sanfona mineira”, Balona adianta que, além de músicas autorais e de compositores como Milton Nascimento e João Bosco, vai tocar temas de domínio público que remetem às manifestações folclóricas do estado. “Vou fazer como os sanfoneiros da roça fazem, com ‘Peixinhos do mar’ e outras coisas nessa linha. Vai ter um pot-pourri com esses temas”, diz.

Ele observa que a sanfona chegou ao Brasil por meio de italianos e alemães, principalmente, o que reverbera mais notadamente nos ritmos do Sul do país. Mas uma pesquisa informal o levou a considerar uma influência portuguesa marcante na sonoridade do instrumento em Minas Gerais.

“Minha avó era portuguesa, e era comum ela me pedir para tocar o vira (gênero musical e coreográfico considerado uma das mais antigas danças portuguesas), que tem muito a ver com o nosso catopé, com a música folclórica no interior de Minas, tocada pelos ternos, pelas marujadas; é uma divisão rítmica muito parecida. Acredito que, no nosso caso, a música folclórica portuguesa teve muita influência, assim como a africana em termos de ritmo, e isso naturalmente está presente no sotaque da sanfona que se toca aqui.”

Além das apresentações na Praça Duque de Caxias, o festival vai contar com atividades complementares. Hoje, ocorrem os workshops ‘Sotaques da sanfona do mundo’, com Gabriel Levy, e ‘Estudo diário para acordeonistas’, com Toninho Ferragutti, no Conservatório da UFMG. Amanhã, Célio Balona, Nonato Lima e Bebê Kramer ministram a palestra ‘O sotaque e a regionalidade da sanfona no Brasil’, também no Conservatório da UFMG.

Um pocket-show, batizado “No degrau da sanfona”, vai colocar em diálogo os instrumentos de Ferragutti e de Marcelus Anderson amanhã, às 11h, nas escadarias do Memorial Minas Gerais Vale. 

SOTAQUES DA SANFONA BRASILEIRA

Shows e workshops, a partir das 18h, desta sexta (24/6) a domingo (26/6), na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza. Entrada franca. Hoje, apresentam-se Gabriel Levy (SP), Trio Mana Flor (SP), Célio Balona (MG) e Renato Borghetti (RS). No sábado, Lívia Mattos (BA), Adelson Viana (CE), Marcelus Anderson (MS), Beto Hortis (PE) e Toninho Ferragutti e Quinteto de Cordas (SP). No domingo, Bebê Kramer (RS), Rafael Martini (MG), Nonato Lima (CE) e Mestrinho (SE).



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