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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

Grace Gianoukas faz show de humor com muito texto e sem plumas e paetês

Atriz apresenta em BH nesta segunda-feira (15/11) o espetáculo "Grace em revista", que recapitula seus 40 anos de carreira com diversas personagens


14/11/2021 04:00 - atualizado 13/11/2021 04:31

Grace Gianoukas no palco, com cachecol cor de rosa
A atriz paulista Grace Gianoukas traz a Belo Horizonte o espetáculo "Grace em revista" (foto: Annelize Tozetto/Divulgação)

Uma das criadoras do projeto Terça Insana, que renovou a cena do humor na capital paulista, a partir de 2001, e reverberou em outros estados do país, a atriz, autora e diretora Grace Gianoukas traz a Belo Horizonte nesta segunda-feira (15/11) o espetáculo “Grace em revista”, que marca seus 40 anos de carreira. 

Sozinha no palco, ela desfila algumas das muitas personagens que já criou, além de conversar com o público sobre suas inspirações. Por meio desse desfile, pretende transformar o palco num espaço de questionamento, de combate ao preconceito e de voz às minorias, sem abandonar seu característico humor ácido.

Grace estima ter criado aproximadamente 130 personagens, com centenas de textos para cada uma. Foi no período da pandemia, em isolamento social, revirando as gavetas de casa que ela pôde, conforme diz, olhar para trás e rever sua história com um distanciamento crítico em relação ao que já fez. A partir daí selecionou as personagens que encarna em “Grace em revista”.

A atriz conta que a apresentação – que ela prefere chamar de show – está dividida em três blocos. No primeiro, concentrou as criações que fizeram mais sucesso entre o público e que são comumente mais lembradas. Depois, Grace seguiu para as personagens femininas, que, como diz, marcaram profundamente sua vida como autora. 

“São as que dão voz aos excluídos, aos inadequados. Tenho muitas dessas personagens, que vêm ao palco expor seu ponto de vista sobre o mundo”, afirma, destacando a Mulher Moderna, a PQP e a Adolescente Girassol, entre outras.

O terceiro bloco abraça uma esfera mais transcendental, com personagens que falam da relação do humano com o divino, como a Santa Paciência e a Advogada do Diabo. “Concluo o espetáculo com uma personagem que criei há muitos anos, em 1984 ou 1985, que é uma migrante rural, expulsa pelo agronegócio, que vem parar numa cidade grande, onde começa a fazer bicos, vender cerveja na porta das boates; ela vai pegando aspectos do movimento das casas em que trabalha. Então ela é rural, mas usa acessórios punk. É uma personagem antropofágica, uma homenagem adiantada à Semana de Arte Moderna, que completa 100 anos em 2022”, aponta.

"O que ofereci para as pessoas foram minhas impressões criadas a partir de vivências que tive, de um estilo, de um ponto de vista, achando que a comédia precisava traduzir nossa sociedade, e que a gente precisava fazer um humor adulto, não esse humor infantil que ri do outro. Era uma questão de dar voz àqueles que não tinham voz, que eram motivo de piada, e de oferecer diversidade de assuntos e de conteúdo"

Grace Gianoukas, atriz



HUMOR ADULTO 


Desde a criação do Terça Insana – e mesmo antes –, os textos de Grace têm muito de crônica do cotidiano e de crítica social. Ela acredita que, com o passar dos anos, isso contribuiu para ampliar os horizontes do humor que se faz no Brasil.

“O que ofereci para as pessoas foram minhas impressões criadas a partir de vivências que tive, de um estilo, de um ponto de vista, achando que a comédia precisava traduzir nossa sociedade, e que a gente precisava fazer um humor adulto, não esse humor infantil que ri do outro. Era uma questão de dar voz àqueles que não tinham voz, que eram motivo de piada, e de oferecer diversidade de assuntos e de conteúdo”, aponta.

Ela considera que seu legado se reflete em trabalhos como o do Porta dos Fundos ou de Marcelo Adnet. “O meu saldo é que fui muito bem-sucedida no meu desejo, na minha vontade, eu não estava errada. Abri esse espaço para toda uma geração. A gente provou que era possível fazer um humor mais adulto, mais crítico, contemporâneo e incisivo, e que isso podia ser um meio de sobrevivência”, diz.

As possibilidades de expressão são maiores no campo da comédia, segundo Grace, porque os formatos de outrora seguem existindo, mas novas maneiras de se pensar o humor surgiram e se consolidaram, firmando seu espaço. Ela considera que hoje há oferta para todos os gostos, todas as personalidades e para “toda a diversidade de pensamento que existe na espécie humana”.

“Goethe fala que o caráter de uma pessoa se mede pelas coisas que ela acha engraçadas. Gosto muito disso. Hoje você pode procurar o humor que te faz rir. Não rio de um tombo, não rio de uma pessoa sendo humilhada, não rio de uma loira sendo chamada de burra. Não me interessa, me interessam outras coisas. Hoje a gente tem humor para todos os gostos, para todos os caráteres”, diz.

LIMITES 


É justamente ao seu próprio caráter que ela recorre para dizer que, sim, o humor tem limites e não dá para fazer piada de tudo. “É uma coisa que tem a ver comigo, eu tenho meus limites. Fazer humor com morte, só se for a minha própria, porque eu não sei da dor dos outros; da minha eu posso rir, da dos outros não. Jamais faria uma piada ridicularizando as 600 mil vítimas pela COVID-19, as milhões de pessoas com sequelas e as outras tantas milhões que estão sofrendo por isso. Agora, piada de pandemia falando do quanto ficamos loucos ou o quanto percebemos nossas loucuras trancados em quarentena, disso com certeza dá para fazer”, diz.

A atriz destaca que concebeu “Grace em revista” para ser apresentado em diferentes espaços, a fim de atender aos pedidos de fãs de todo o Brasil, pessoas que acompanham sua carreira desde o início, novas gerações, que só a conhecem pelos DVDs do Terça Insana ou pelos vídeos postados na internet, e novíssimos fãs, que tomaram contato com seu trabalho mais recentemente por meio de suas personagens marcantes em novelas da Rede Globo – Teodora Abdala em “Haja coração” (2016), Petúlia em “Orgulho e paixão” (2018) ou Ermelinda em “Salve-se quem puder” (2020).

A ideia de um show para ser apresentado em qualquer lugar também é uma forma de realizar um arco contrário em sua trajetória e voltar ao início dos anos 1980, quando, após se mudar de Porto Alegre para São Paulo, despontou apresentando em bares e casas noturnas esquetes que escrevia e interpretava.

“Isso se mantém. Eu estou em qualquer lugar, tendo um palco para eu subir e uma pessoa na plateia, já é apresentação teatral – ou um show, como prefiro nesse caso do ‘Grace em revista’, porque não tem uma dramaturgia. Ele foi concebido para ser apresentado em vários espaços mesmo. Estamos começando a nos levantar de um momento muito difícil para o setor cultural. Vamos ter muitos anos de crise ainda pela frente. É importante que estejamos preparados para não trabalhar com ingresso caro, para podermos ter a flexibilidade de apresentar os shows em vários lugares”, observa.

UNDERGROUND 

Mesmo a bordo do sucesso e da visibilidade propiciada pela participação em novelas globais, Grace diz que continua underground, como no início da carreira. “Minha alma é underground, não é porque estou fazendo novelas na Globo que isso me torna uma pessoa melhor do que as outras, continuo aqui me identificando profundamente com o morador de rua e com o movimento indígena. Não sou establishment. Posso ser até mais conhecida, mas isso não me transforma em celebridade; sou o que sou, continuo uma pessoa muito simples”, diz.

Ela ressalta que essa disposição de espírito tem a ver com o gosto pelo que não é óbvio e com o interesse pelo que é genuíno. “Uma coisa que acho muito interessante e fascinante é ver como se comportam as pessoas fora dos padrões, dos esquemas. Quando você pega um ônibus lotado, com aquela gente indo para o trabalho, você entende que o brasileiro é essa pessoa, e que o tempo no ônibus é o tempo que ela tem para conversar, para paquerar. Isso é o underground que a mídia não traduz.”

Esse posicionamento também se relaciona – ela acrescenta – com as influências de sua geração, o ambiente em que se formou. “Um poema da Patty Smith ou uma letra do Renato Russo, da Rita Lee, têm mais a ver comigo do que Shakespeare. Não que não respeite, goste ou admire Shakespeare, mas minhas influências são bem mais urbanas, mais pop. Estou iniciando as comemorações de meus 40 anos de carreira, mas não sou Cláudia Raia – por quem tenho grande admiração, diga-se –, não tem plumas nem paetês no meu espetáculo, tem é muito texto”, comenta.

“Grace em revista”

Show de humor com Grace Gianoukas. Nesta segunda-feira (15/11), às 19h, no Cine Theatro Brasil Vallourec (Rua dos Carijós, 258, Centro). Ingressos para plateia 1 a R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia) e para plateia 2 a R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia). Venda no site Eventim e na bilheteria (Av. Amazonas 315, Centro, (31) 3201.5211) Funcionamento: de segunda a sábado, de 12h às 21h, e domingos e feriados, de 15h às 20h. 

PERSONAGEM “SUPER DE DIREITA”


Grace Gianoukas diz que seu reencontro presencial com o público, depois do longo período afastada dos palcos devido à pandemia, foi como um turbilhão. “Quando abriu para poder fazer teatro, tive em dois meses quatro estreias de coisas diferentes, com viagens, palcos no interior de São Paulo. O ‘Grace em revista’ foi minha segunda experiência na retomada”, diz. A primeira foi o espetáculo “O L perdido”, que segue em cartaz em São Paulo.

Parceria entre ela e a também atriz e autora Agnes Zuliani, com quem trabalha há muitos anos, a montagem, que Grace classifica como experimental, deriva de uma cena escrita há tempos pelas duas, originalmente intitulada “Leila e Laila”, sobre duas amigas de infância que se reencontram após muitos anos, e uma transforma a vida da outra num inferno.

“Estávamos de bobeira durante a pandemia, cada uma na sua casa, pensando em coisas para inscrever em editais. Propus para a Agnes de a gente desenvolver uma dramaturgia a partir disso. Começamos a escrever a quatro mãos, por meio de chamadas de WhatsApp”, conta.

A estreia foi “devagarinho, com plateia reduzida”, ela diz. “O nome ficou sendo ‘O L perdido’, de Leila e Laila. A gente trata dessa coisa de todo mundo querer ter razão e do quanto as fake news separaram famílias, amigos, pessoas, tudo com muito sarcasmo. Minha personagem é super de direita. É um excelente exercício, uma forma de colocar no palco nossa rebeldia e nossa revolta contra tudo o que está acontecendo”, afirma. Em 2022, “O L perdido” também deve circular pelo país.


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