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Estado de Minas ARTES CÊNICAS

'Ficções sônicas 02', o filme-peça de Grace Passô, estreia no YouTube

Filmado no Municipal de São Paulo, projeto se volta para a palavra falada. Ele faz parte da trilogia que tem experimento radiofônico e instalação na Bienal


09/11/2021 04:00 - atualizado 09/11/2021 07:34

Grace Passô dirige ator no palco do Theatro Municipal de São Paulo durante a filmegem de 'Ficções sônicas 02'
Grace Passô dirige 'Ficções sônicas 02', que faz parte da trilogia que tem peça radiofônica e experimento em cartaz na Bienal de SP (foto: Rafael Salvador / Divulgação)
A plataforma Brasil Cena Aberta estreia, nesta terça-feira (9/11), o projeto “Daqui, para onde vamos?”, que apresenta a produção cênica brasileira tanto ao público quanto a programadores e curadores internacionais interessados em experiências teatrais em novos meios e formatos desenvolvidas no país.

“Ficções sônicas 02”, que abre a programação e será exibida até 18 de novembro, tem direção e dramaturgia assinadas pela premiada Grace Passô. O projeto inclui ciclo de debates, oficinas técnicas e espetáculos criados especialmente por artistas convidados, que vão cumprir temporadas on-line.

EXPANSÃO 

A partir da chegada da pandemia, o Brasil Cena Aberta inaugurou o ciclo Cenas Abertas ao Insólito, em julho de 2020, propondo reflexões sobre a expansão do teatro para o universo virtual. Paralelamente, organizou a edição on-line de seu encontro internacional de artes cênicas, que ocorreu em dezembro de 2020.

Entre os convidados estavam artistas com os quais a idealizadora e diretora-geral do Brasil Cena Aberta, a mineira Andrea Caruso – ex- integrante do grupo Armatrux –, vinha estabelecendo diálogos e trocas: Grace Passô, com quem desenvolve projetos há mais de 20 anos, desde quando as duas moravam em Belo Horizonte, e a companhia canadense Porte Parole, a partir da qual se desenvolveu “A assembleia São Paulo”, que cumpre temporada virtual a partir de 19 de novembro.

“Ficções sônicas 02” é desdobramento do projeto que Grace desenvolve desde o ano passado e gerou outros dois produtos culturais. O primeiro – “Ficção sônica 0” – é uma peça radiofônica criada a convite do festival de arte sonora Novas Frequências. O segundo, uma instalação sonora para a 34ª Bienal de São Paulo, em cartaz até dezembro.

Grace chama “Ficções sônicas 02” de filme-peça. “Desde ‘Vaga carne’, espetáculo com que rodo desde 2016, tenho pesquisado a dimensão sonora da palavra, da fala na cena. De alguma forma, as coisas de ‘Ficções sônicas’ são resultado de um repertório da minha vida, de outros trabalhos anteriores, de desejos que já estavam em outros projetos”, conta a artista.

A dimensão sonora da palavra falada é um pilar da peça. O outro são as questões relacionadas à sociedade brasileira no que diz respeito à negritude. “Quis reunir isso como um projeto só. Na instalação sonora da Bienal de São Paulo, tem coisas que atravessam esse filme-peça que estreia agora. Há um caminho de pensamento que perpassa as obras”, destaca.

“Ficções sônicas 02” foi filmada no Theatro Municipal de São Paulo, sob direção de Andrea Caruso. Reúne artistas que trabalham ativamente em circuitos e linguagens distintos: a soprano Marly Montoni, a bailarina de danças urbanas Silvia Kamyla, o ator e artista multimídia Lucas Andrade, o músico e performer Novíssimo Edgar e o músico Barulhista. A peça ainda conta com o percussionista Mauricio Badé e o Coral Paulistano, sob a regência de Maíra Ferreira.

Grace explica que três pessoas de sua equipe já são velhas conhecidas de produções em Belo Horizonte: Barulhista, criador da trilha sonora, também está morando em São Paulo; Silvia Kamyla, que ela conheceu assistindo à Fusion Cia. de Danças Urbanas; e Aline Vila Real, assistente de direção e dramaturgia, com quem já trabalhou no grupo Espanca!.

“O Lucas Andrade é ator aqui de São Paulo, a Marly Montoni é uma cantora lírica, a Silvia Kamyla é dançarina também imersa no mundo musical. Novíssimo Edgar é performer, cantor e também poeta. São pessoas que se relacionam de modos diferentes com o som e com a palavra em seus repertórios. Eu queria essas diferentes texturas, diferentes modos de abordagem para expandir as possibilidades de pensar numa ficção sonora”, aponta Grace.

Cinco atores sentados em volta de uma mesa olham para a câmera. Eles participam da peça 'A assembleia São Paulo'
'A assembleia São Paulo', parceria brasileira com o grupo canadense Porte Parole, estreia em 19 de novembro (foto: Larissa Paz/divulgação)

METRÓPOLE

Andrea destaca que um dos motes para a criação de “Ficções sônicas 02” veio da observação do centro da metrópole esvaziado por causa da pandemia e, ao mesmo tempo, povoado pelos que não pararam de circular por ali e moradores das ruas.

Grace observa que não só o vazio da cidade, mas também dos teatros, serviu de mote para sua peça-filme. A história foca artistas e performers que, em meio à paralisação dos equipamentos culturais e do próprio fazer artístico presencial, resolvem ir para o teatro e ensaiar mesmo assim.

“Ir para o Theatro Municipal passa a ter outros significados, é uma forma que os artistas encontram para acessar algo que parece perdido. O ir para o teatro é um ir em direção à vitalidade, ao movimento”, diz.

A ausência do público acaba por fazer do próprio Municipal uma espécie de personagem. “A história se passa com artistas e performers se relacionando com esse edifício, tentando refletir e criar outros valores para o espaço sem plateia. Nosso cenário é o teatro no Centro de São Paulo, na Praça da República, que, durante a pandemia, tem dinâmica diferente. A gente tenta deslocar o olhar do espectador para dentro do teatro, mas numa perspectiva que permita ver também o lado de fora”, salienta.

Por sua vez, “A assembleia São Paulo” nasceu de um experimento desenvolvido pela companhia canadense Porte Parole, que teve início em 2017, em várias cidades, como projeto itinerante documental de longo prazo.

Em cada cidade, a equipe criativa da Porte Parole montava e registrava jantares em que quatro pessoas que não se conheciam –  e tinham posições ideológicas diferentes – se enfrentavam e se confrontavam francamente a partir de temas surgidos naquele encontro.

O roteiro de perguntas de cada jantar era criado pela companhia. A partir da gravação do longo encontro, gerava-se um texto mais curto. No palco, atores interpretam os quatro personagens da vida real.

“Assisti e me tocou muito. Era uma espécie de documentário que trazia em cena o debate de ideias antagônicas numa estrutura teatral muito interessante. No Brasil, já em 2018, havia a dificuldade de sentar para conversar, a dificuldade de diálogo. Achei aquele projeto do Porte Parole genial por isso, as coisas estão cada vez mais antagônicas no mundo, e eles trouxeram isso para uma forma teatral”, diz Andrea Caruso.

PARCERIA

Ela convidou o grupo, que já havia passado por Alemanha, Lituânia e Estados Unidos, para desenvolver a experiência também no Brasil. “Eles viriam estabelecendo parceria com os artistas daqui”, diz, acrescentando que se juntaram à empreitada Beatriz Sayad e Juliana Jardim, que ficaram a cargo da curadoria, da mediação e da direção da linguagem que ela chama de teatro expandido.

“Em 2019, fiz o primeiro encontro do Brasil Cena Aberta. Eles vieram, apresentaram o projeto e as instituições se entusiasmaram. Veio a pandemia, tivemos que adaptar e fazer a coisa com a cabeça no on-line. O projeto foi trabalhado durante um ano e meio, com muitas trocas com a Porte Parole, até o momento de a gente fazer o jantar de forma virtual”, aponta.

O primeiro ato de “A assembleia São Paulo”, em sua versão on-line, repõe o jantar, agora em composição dramatúrgica, com duas atrizes mediadoras que participaram também da experiência real. São elas que convidam o público, no segundo ato, a dar prosseguimento à discussão em uma plataforma de encontro.

Tanto Andrea quanto Grace acreditam que o próximo passo tanto do “Daqui, para onde vamos?” quanto do “Ficções sônicas” é levar as produções para o formato presencial.

“O projeto começa com uma peça radiofônica, tem uma instalação e agora um filme-peça. Então, o próximo passo será um espetáculo presencial, que já será outra coisa. As possibilidades são inúmeras”, aponta Grace Passô.

“FICÇÕES SÔNICAS O2”

Primeira parte: 60min. Segunda parte: 18min. Estreia nesta terça (9/11), com sessões às 20h (primeira parte) e 21h (segunda parte), seguidas de bate-papo ao vivo com Grace Passô e equipe. Temporada de 10 a 12 de novembro, às 20h (primeira parte) e 21h (segunda parte); 13 e 14 de novembro, às 16h (primeira parte) e 17h (segunda parte); 15 a 18 de novembro, às 20h (primeira parte) e 21h (segunda parte). Gratuito. Transmissão no canal do Brasil Cena Aberta no YouTube


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