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Estado de Minas ERUDITO

Fundação Clóvis Salgado aposta no fortalecimento da ópera contemporânea

Temporada de Ópera On-line 2021 busca uma nova tradição no gênero e investe na formação de criações de libretos


17/10/2021 04:00 - atualizado 16/10/2021 20:50

Apresentação do concerto de ópera Stabat Mater, no Palácio das Artes. Um piano está no centro e músicos estão em volta. O cenário é escuro
Temporada de Ópera On-line 2021 tem ações formativas e de difusão, além de apresentações como o concerto "Stabat Mater", que ocorreu em agosto (foto: Paulo Lacerda / Divulgação)

Criar uma nova tradição operística genuinamente brasileira e conectada com a contemporaneidade. É para cumprir este objetivo que a Fundação Clóvis Salgado aposta na Temporada de Ópera On-line 2021, que tem se desdobrado em diversas ações formativas e de difusão. O ponto central é o Ateliê de Criação: Dramaturgia e Processos Criativos, um curso de formação gratuita e inédita no Brasil sobre dramaturgia voltada para ópera e criação de libretos – como são chamados os textos da ópera – composta por aulas, debates e entrevistas, que vai culminar com a montagem de um espetáculo inédito no final do ano.“Em 2020, começamos a pensar em como trazer esse tema da produção dramatúrgica para ópera de maneira a fortalecer essa expressão como uma linguagem contemporânea, que está viva, que dialoga com outras linguagens artísticas e com várias gerações”, diz Eliane Parreiras, presidente da Fundação Clóvis Salgado. Ela aponta que na primeira Temporada de Ópera On-line, no ano passado, várias questões foram levantadas por meio de seminários que envolveram artistas de todo o Brasil.

Entre essas questões, destaca-se a necessidade da valorização da produção brasileira, especialmente a atual. “Iniciamos a temporada deste ano com estas espinhas dorsais: a questão da linguagem, de demonstrá-la como algo contemporâneo; e a necessidade do fomento à cadeia produtiva nacional. Isso amarrou essa série de ações em 2021”, detalha Eliane. 

Coordenador do Ateliê de Criação, o libretista, letrista, poeta, roteirista e tradutor Geraldo Carneiro considera que se trata de uma iniciativa sem precedentes no Brasil. “É o novo mundo das Américas sonhando com a construção de uma nova tradição operística livre das amarras do passado e desejando algo para o futuro”, celebra.

Idealizadora e curadora do Ateliê de Criação, juntamente com o maestro Gabriel Rhein-Schirato, a encenadora de ópera Livia Sabag corrobora a percepção de Carneiro. “O que está sendo fundado no Brasil é o espaço de especialização nessa área, a reflexão em torno da dramaturgia para óperas e da criação de libretos. Imagino que a formação de libretistas talvez seja mesmo algo inédito no país”, aponta.

Participam do Ateliê de Criação profissionais e estudantes interessados no teatro de ópera e em seus processos criativos, como escritores, cantores, regentes, diretores de cena, compositores, gestores, produtores, jornalistas, educadores, pianistas e intérpretes em geral. 

Cinco deles foram selecionados para escrever os libretos que serão encenados no fim do ano, no Grande Teatro do Palácio das Artes. O Ateliê também conta com as participações de renomados artistas, pesquisadores e jornalistas brasileiros e estrangeiros, como André Mehmari, Antonio Ribeiro, Denise Garcia, Mauricio De Bonis, Thais Montanari e Peter Sellars, um dos maiores encenadores de ópera do mundo na atualidade.

Além do Ateliê de Criação, a Temporada de Ópera 2021 abarca a série de cinco episódios de “Ópera! O podcast da música lírica” – que estreou no final de setembro e segue até 25 de novembro, com concepção e direção do jornalista e crítico musical João Luiz Sampaio e de Nelson Rubens Kunze, fundador, diretor e editor da “Revista Concerto” – e a Mostra de cinema e ópera, que, com curadoria da diretora cênica Julianna Santos, teve início no último dia 5 e segue até o próximo dia 25, com programação híbrida e gratuita, realizada no Cine Humberto Mauro.

Presidente da Fundação Clóvis Salgado, Eliane Parreiras. Ela está sorrindo e veste roupa preta
Presidente da Fundação Clóvis Salgado, Eliane Parreiras defende valorização da produção brasileira e a busca por uma linguagem contemporânea (foto: Gil Leonardi / Divulgação)

Ocupar as lacunas 

Ligada ao prestigiado Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, em Lisboa, Livia Sabag diz que a ideia do Ateliê de Criação surgiu justamente da percepção de uma lacuna, referente à produção de textos voltados para a ópera no Brasil. “É uma iniciativa que partiu de muitas inquietações nossas e reflexões sobre o campo da ópera e sobre nossa prática nos dias de hoje”, conta.

Um dos principais espaços em aberto é a criação dos libretos, que são feitos no Brasil hoje por pessoas que não têm formação na escrita desse tipo de linguagem. “Sentíamos falta de uma especialização em dramaturgia musical. No campo da ópera no Brasil, se montam muitas obras do repertório canônico, mas sempre sentimos falta de novas obras, novos temas, peças feitas agora, por nós, pelos artistas de hoje, com questões de hoje também”, destaca a encenadora.

Livia observa que mesmo o que é produzido em termos de dramaturgia operística hoje no Brasil não reverbera. “Temos alguns compositores que fazem os próprios libretos, o Leonardo Martinelli, a Jocy de Oliveira, o João Guilherme Ripper, mas são coisas pontuais, não é significativo. Se olhar nos últimos anos ou décadas, o que surgiu de produção nova, brasileira, é muito pouco. E sim, algumas coisas foram criadas, mas circularam pouco, quase ninguém viu. Isso é muito significativo, porque não é só uma questão de criação de obras, mas de espaços”, aponta.

Democratização da ópera 

Na avaliação de Geraldo Carneiro, a experiência do Ateliê de Criação reforça a percepção de que existe uma grande afluência de compositores e de profissionais de outras áreas desejando escrever ópera, além de uma democratização dos espaços operísticos, que durante muito tempo eram reservados à elite dos países europeus. 

“Temos pessoas realmente interessadas em se tornar libretistas. O libreto é uma matéria cujo valor histórico oscila de maneira especial. No princípio, eles eram muito considerados, mas essa arte ficou confinada às necessidades dramatúrgicas do século 19, com uma narrativa naturalista que mobilizasse paixões. O desafio nosso é descobrir onde estarão os libretos da contemporaneidade, é encontrar os bárbaros do século 21. Temos perseguido isso nos encontros no Ateliê, que são muito agradáveis, as pessoas são muito talentosas”, aponta.

Ele considera que essa oscilação é fruto de uma descontinuidade, que poderia ser mitigada se houvesse interesse por parte do poder público e da iniciativa privada. “O Carlos Gomes (1836-1896) é uma figura isolada, tinha patrocínio de dom Pedro II e fez carreira na Itália, que era o grande centro da produção operística da época. Depois houve relâmpagos breves, com alguns encontros sobre a prática de escrever libretos. Mas isso naufraga diante do desinteresse do Estado e da iniciativa privada. Essa continuidade é fundamental, então é necessário que haja vontade de ajudar a construir esse modelo de musical brasileiro, que é tão interessante”, pondera.

Processos colaborativos 

Uma das cinco selecionadas para escrever os libretos que vão compor o espetáculo que será encenado no fim do ano, a poeta e compositora mineira Bruna Tameirão revela que seu interesse pelo hibridismo de linguagens que marca as produções operísticas surgiu em 2017, no programa de arte e educação Valores de Minas. “Foi quando comecei a pensar a música junto com as artes cênicas e com outras linguagens. Quando vi a chamada para o Ateliê no site da Fundação Clóvis Salgado, me inscrevi, falando dos meus interesses. A ópera é o lugar onde isso tudo se mistura de maneira muito potente”, diz.

Ela atesta a importância da interdisciplinaridade na formação dos libretistas que compõem o Ateliê de Criação. “Foi um processo completamente colaborativo, com muita gente envolvida, gente de áreas distintas. Enquanto eu ia desenvolvendo meu texto, as referências dos outros selecionados iam continuamente agregando. No processo de escrita, ao mesmo tempo em que seguíamos as orientações do Geraldo Carneiro, que é uma pessoa incrível, tivemos a possibilidade de conversar com nichos bem distintos, então ficou muito rico o processo”, aponta.

Ações presenciais 

Eliane Parreiras aponta que, além da Mostra de cinema e ópera e do Podcast da música lírica, outras ações orbitam a Temporada de Ópera On-line 2021, como o concerto “Stabat Mater”, que marcou o retorno presencial da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais em agosto deste ano, quando ocupou o palco do Grande Teatro do Palácio das Artes. “Não foi uma encenação operística, mas se prestou a trazer para a experiência presencial um pouco do diálogo com a música lírica e barroca”, aponta.



Nessa mesma linha, o Grande Teatro recebe, no próximo sábado (23/10), às 20h30, a ópera barroca italiana “Tolomeo e Alessandro”, com música de Domenico Scarlatti e libreto de Giuseppe Capece, que ganha a sua primeira montagem nos palcos brasileiros. Com direção musical e artística de Robson Bessa, direção vocal de Sérgio Anders e direção cênica de Francisco Mayrink, a estreia também se dá no âmbito da Temporada de Ópera On-line 2021. “A ideia é apresentar esse universo da ópera barroca, que envolve menos artistas na produção, o que não perde em nada na qualidade, mas garante uma segurança sanitária maior”, diz Eliane.


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