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Estado de Minas MÚSICA CLÁSSICA

Ópera ''Cartas portuguesas'' estreia nesta quinta na Sala Minas Gerais

Inspirada na trágica história de amor da freira portuguesa Mariana Alcoforado, partitura de J.G. Ripper é encenada com a Orquestra Filarmônica


10/06/2021 04:00 - atualizado 10/06/2021 07:01


Em fevereiro do ano passado, o compositor e regente carioca João Guilherme Ripper entregou a partitura de “Cartas portuguesas”, ópera feita sob encomenda para a Osesp e a Fundação Gulbenkian, de Portugal. Um mês depois foi declarada a pandemia da COVID-19. A obra, que já teve duas montagens – em agosto, em São Paulo, e em novembro, em Lisboa –, tem narrativa ambientada no século 17. Ganhou atualidade por causa de seu tema, o isolamento e a solidão.
 
Com a terceira montagem estreando nesta quinta-feira (10/06), na Sala Minas Gerais, com a Orquestra Filarmônica, solistas e regente convidado, “Cartas portuguesas” acompanha a trágica história da freira portuguesa Mariana Alcoforado (1640-1723). A apresentação, sem plateia, será transmitida pelo YouTube.
 
Obrigada pela família, ainda na infância, a abraçar a vida religiosa, Mariana, sem vocação, fechou-se no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, no Alentejo. Quando ela tinha cerca de 20 anos, um regimento francês chegou à cidade. Nele estava o oficial Noël Bouton de Chamilly (1636-1715).
 

A soprano Camila Titinger durante ensaio com a Filarmônica na quarta (09/06). Ópera acompanha a trágica história da freira portuguesa Mariana Alcoforado, que não foi correspondida no amor (foto: Flora Silberschneider/Divulgação)
A soprano Camila Titinger durante ensaio com a Filarmônica na quarta (09/06). Ópera acompanha a trágica história da freira portuguesa Mariana Alcoforado, que não foi correspondida no amor (foto: Flora Silberschneider/Divulgação)
 
A religiosa teria caído de amores. Quando a relação foi descoberta, Bouton deixou Portugal e prometeu a Mariana buscá-la um dia. Em vão. O resultado desta longa espera foram cinco cartas nunca respondidas. Em 1669, as missivas foram publicadas em Paris (sem autorização da autora) com o nome de “Cartas portuguesas”. Nunca se comprovou se a freira, que morreu aos 83 anos, no mesmo convento, foi a autora das cartas, que se tornaram um clássico da literatura.
 
Ripper está em Belo Horizonte acompanhando a montagem, que tem direção de cena de Jorge Takla e a soprano Camila Titinger no papel principal. O concerto cênico será regido pelo maestro Roberto Tibiriçá e contará com a participação das sopranos Érica Muniz, Deborah Bulgarelli e Nívea Freitas. Na mesma noite, será executada a “Sinfonia nº 8”, de Beethoven.

EMOÇÕES ENCLAUSURADAS

 
O compositor conheceu a história mais profundamente em 2016 quando, apresentando a ópera “Onheama”, no Festival Terras Sem Sombra, no Alentejo, visitou o convento em Beja. “Fiquei encantado, vi que a história daria um monodrama (ópera ou peça teatral interpretada por um só cantor ou ator). Como já tinha feito “Domitila” (ópera de 2000 baseada nas cartas trocadas entre D. Pedro I e Domitila de Castro do Canto e Melo, a marquesa de Santos), vi que daria para fazer no mesmo modelo. Quando recebi o convite do Arthur Nestrovski (diretor artístico da Osesp) para fazer uma ópera sob encomenda, pensei em ‘Cartas portuguesas’”, conta.
 
Takla também dirigiu as duas montagens anteriores. Atuando pela primeira vez na Sala Minas Gerais, o diretor cênico criou um pequeno palco que vai até as quatro primeiras filas da plateia. É esse espaço que vai comportar as solistas. “Este proscênio não foi feito em lugar nenhum. A sala é extraordinária e estamos explorando aqui uma nova geografia”, diz ele.
 
Sobre a diferença entre ópera e concerto sinfônico, Takla explica, didaticamente, que a grande diferença é que, no segundo caso, a orquestra não está no fosso. “O cenário fica na frente da orquestra, tudo integrado, mas sem aglomeração.” Para ele, “Cartas portuguesas” mexe com o público por causa da mistura de emoções. “São frustrações, esperanças, amor, medo, tudo junto no enclausuramento. Para a orquestra, é uma obra deslumbrante, e para a cantora, muito difícil, emocionalmente desgastante, pois é uma peça muito física.”

 
PALCO VIVO

 
Compositor e diretor cênico têm opiniões complementares sobre apresentar a montagem para uma sala sem público – somente as duas apresentações em Lisboa tiveram plateia, mas reduzida pela metade.
 
“Acho extraordinário montar uma ópera durante a pandemia, ainda que seja um pouco frustrante não sentir as palmas, a acolhida do público. Mas assistir a tanta gente trabalhando para apresentar uma obra de arte é muito lindo”, diz Takla. 
 
Ripper acrescenta: “Como também estou do outro lado do balcão (ele dirige a tradicional Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro), encaro tudo como um processo natural do momento em que estamos vivendo. Sempre tento ser otimista. Que bom que estamos conseguindo produzir e lutando para manter o palco vivo.”




ORQUESTRA FILARMÔNICA DE MINAS GERAIS
Com o concerto sinfônico “Cartas portuguesas”, 
de J.G. Ripper, e a “Sinfonia nº 8”, de Beethoven. 
Nesta quinta (10/06), às 20h30, no canal do YouTube da Filarmônica


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