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Estado de Minas MÚSICA

Sandra Pêra dedica disco a Belchior e explica lenda sobre 'Medo de avião'

Cantora e atriz é apontada como a moça do hit, cujas mãos o músico segurou durante um voo. Aos 66 anos, ela se diverte com essa história


16/06/2021 04:00 - atualizado 16/06/2021 07:21

(foto: Jorge Bispo/divulgação)
(foto: Jorge Bispo/divulgação)

"Ney (Matogrosso) é uma escolha óbvia pela nossa história. Moramos juntos no auge das Frenéticas"

Sandra Pêra, cantora e atriz


Belchior e Sandra Pêra tiveram poucos encontros, mas o suficiente para criar uma das maiores lendas da música popular brasileira. Afinal, “Medo de avião” foi composta pelo cearense para a atriz carioca? Muitos dizem que sim, enquanto outros, como a homenageada, se divertem com essa história.

Certa vez, durante um voo, a atriz sentou-se ao lado do cantor. Percebendo o medo de Sandra durante as turbulências, Belchior segurou as mãos dela para tranquilizá-la. E disse que sua canção, faixa-título de seu famoso álbum de 1979, fora feita para ela. “Imagina! A música já existia”, diverte-se a “musa”, comentando que o gesto dele naquela viagem foi “bonitinho”.

MINEIRO 
Anos mais tarde, a atriz ouviu de um mineiro a mesma história. Acompanhada por Maurício Cangussu e Ílvio Amaral, Sandra estava no Recife com a turnê da peça “Acredite, um espírito baixou em mim”. Durante o jantar com o jornalista Fernando Rocha, ele garantiu que Belchior, por duas vezes, lhe afirmara que compôs “Medo de avião” para ela. A primeira, após um show. Dez anos depois, durante uma entrevista.

“Quando um jornalista diz, é porque é verdade, falou Fernando naquela época”, recorda a bem-humorada Sandra, irmã de Marilia Pêra e integrante do grupo vocal As Frenéticas, que fez sucesso nos anos 1970.

Tempos depois dessas histórias, a atriz e cantora estava no estúdio para produzir o segundo disco de sua carreira, “Sandra Pêra em Belchior”. Um pouquinho antes de iniciar a gravação de “Medo de avião”, Amora, filha dela e diretora musical do álbum com José Milton, aconselhou: “Receba a música como se ela tivesse sido feita para você. Cante como sua”. Sandra, que nunca levou essa história a sério, agora vai levar. Mas sua volta aos estúdios nada tem a ver com esse hit.

A cantora conta que durante um jantar na casa de Kati Almeida Braga, proprietária da gravadora Biscoito Fino, “com mais duas pessoas, todas testadas negativas para a COVID”, tocou “Mucuripe”, parceria de Belchior e Fagner. Ao elogiar a música, Sandra recebeu, na lata, o convite de Kati para gravar o repertório do cearense.

“Já cheguei em casa ouvindo, ouvindo e ouvindo. Ouvi tanto que no dia seguinte já tinha a lista pronta do que eu queria”, revela. E do que não queria também. No caso, “Como nossos pais”, que, segundo ela, “é muito Elis (Regina)”, e “Coração selvagem”, “gravação bem-sucedida na voz de Ana Carolina”.

Como o cancioneiro de Belchior é muito rico, não houve problema para formar o repertório e montar a relação de convidados especiais do disco. Ney Matogrosso está em “Velha roupa colorida”; Zeca Baleiro em “Na hora do almoço”; o grupo Chicas no arranjo vocal de “Pequeno mapa do tempo” e nos vocais de “Todo sujo de batom”; e Juliana Linhares em “Galos, noites e quintais”.

A seleção levou em conta não só o talento dos convidados, mas sobretudo a relação de Sandra com eles. “Ney é uma escolha óbvia pela nossa história. Moramos juntos no auge das Frenéticas. Éramos muito próximos”, relembra. É a segunda vez que os dois cantam juntos. A primeira, há três anos, foi em um show beneficente para a filha de Dolores Duran.

Além de gostar muito da voz de Zeca Baleiro, a admiração de Sandra Pêra por ele cresceu durante “Mãe gentil”, projeto do coreógrafo Ivaldo Bertazzo com crianças da periferia de São Paulo e da Favela da Maré, no Rio de Janeiro.

Juliana Linhares, do grupo Pietá, foi sugestão de Amora Pêra. “Convidei As Chicas porque sou mãe delas todas”, brinca Sandra Pêra. Amora, filha da atriz com Gonzaguinha, faz parte do trio ao lado de Paula Leal e Isadora Medella.

Em casa e seguindo o protocolo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Sandra Pêra diz que está “calma”, ao comentar o impacto do novo coronavírus sobre sua vida. “Vou obedecer ao que acredito”, comenta. Leitura, música e séries fazem parte da rotina do confinamento. “De vez em quando, sempre de máscara, pego a bicicleta para uma volta. No meio da pandemia fiz o disco”, lembra.

Fotos 
Durante a pré-produção do novo álbum, Sandra começou a postar no Instagram (@sandracristinapera) histórias de fotos de sua família – na verdade, um rico painel da cultura do Brasil. Além de irmã de Marília Pêra, uma das maiores atrizes brasileiras, os pais dela, Dinorah Marzullo e Manoel Pêra, a avó, Antonia Marzullo, e o tio, Abel Pêra, fazem parte da história do teatro brasileiro. Ainda menina, Sandra circulava entre nomes emblemáticos da arte.

A primeira foto que ela postou é da festa de 5 anos de Tina, filha de Bibi Ferreira. “Eu sentada no chão, bem ao lado da Bibi, a Tina na frente, atrás a Dulcina de Moraes e umas crianças”, comenta. O barato dessa história são as coincidências: Bibi usa o colar que Tina deu a Kati (Almeida Braga), que esteve ao lado dela quando Bibi morreu. Tempos depois, a mesma foto trouxe outra surpresa: amiga de Sandra, Lídia Duarte, filha de Ilka Soares e Anselmo Duarte, se descobriu naquele retrato. “Foi uma comoção quando nós a descobrimos ali”, conta.

Nessas incursões on-line, Sandra tem as ideias e cabe a Beto Feitosa, amigo dela, adaptá-las para as redes sociais. Outra foto mostra a atriz como dama de honra no casamento de Marília Pêra. “Lembro-me da minha mãe me pegando pelo braço, me dando um beliscão e pedindo para olhar para a câmera. Minha cara é de quem está levando um beliscão no braço”, diverte-se.

Ao comentar a relação com a irmã, Sandra diz que pensa em fazer uma exposição sobre a trajetória de Marília Pêra, “senão a memória morre”. Parte desse acervo está com Ricardo Graça Mello, primogênito da atriz, no Sul do país. A caçula Nina está em Portugal, onde atuou numa peça. E Esperança, que trabalha em produção, mora em Madri, onde faz cursos de interpretação e espanhol.

As sobrinhas, portanto, estão longe do Brasil, que Sandra compara a um hospício dominado por um louco. “Me dá muito ódio desse diretor do hospício. Ele fala qualquer coisa e tem pessoas que acreditam. Somos um país de quinta categoria, proibido de entrar no mundo, uma chacota”, desabafa, lamentando também a situação do Rio de Janeiro, onde mora. “A cidade está um horror, uma carnificina.”

BRASIL 
O futuro do Brasil preocupa a atriz e cantora, de 66 anos. “Não sei como sairemos disso. Como fazer para mudar comportamentos? É uma questão de mau comportamento que começa lá em cima. Ele é agressivo, não é elegante, é burro, é mau. Um bando de gente ali decidiu que o país é deles”, critica.

Porém, Sandra Pêra recomenda sabedoria neste momento. “Não podemos fazer do jeito deles, que criticamos. Não podemos sair cancelando as pessoas porque gostam do Bolsonaro. Conheço boas pessoas que gostam e acreditam nele. A gente pode conversar. Se não der, a gente fica quieta”, pondera. “Havia uma discussão em torno do PT, mas agora a gente fala dos riscos à democracia. E este perigo é mais grave”, conclui.


“SANDRA PÊRA EM BELCHIOR”
.Disco de Sandra Pêra
.12 faixas
.Biscoito Fino
.Disponível nas plataformas digitais

FAIXAS
.“Sujeito de sorte”
.“Na hora do almoço”
.“Paralelas”
.“Todo sujo de batom”
.“Galos, noites e quintais”
.“Divina comédia humana”
.“Velha roupa colorida”
.“A palo seco”
.“Pequeno mapa do tempo”
.“Mucuripe”
.“Medo de avião”
.“Sujeito de sorte” (vinheta)




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