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Estado de Minas MÚSICA

Felipe dos Santos lança disco com título inusitado e orgulho de ser 'brega'

Letras do mineiro falam de política, família e preconceito. O álbum dele se chama 'Meu amigo tilelê diz que sou brega mas eu acho isso um pouco problemático'


15/05/2021 04:00 - atualizado 15/05/2021 11:46

Letras de Felipe dos Santos falam de queimadas na Amazônia, da morte de crianças pela polícia e também homenageiam a avó dele (foto: Fábio Xavier/divulgação)
Letras de Felipe dos Santos falam de queimadas na Amazônia, da morte de crianças pela polícia e também homenageiam a avó dele (foto: Fábio Xavier/divulgação)

O baixista mineiro Felipe dos Santos lança o primeiro álbum prometendo romper padrões elitistas que, segundo ele, vigoram na música de Belo Horizonte. O título do disco é quilométrico: “Meu amigo tilelê diz que sou brega mas eu acho isso um pouco problemático”.

Política, diversidade, ecologia, família, preconceito e Beatles estão presentes nas letras de Felipe, de 30 anos, que se autointitula “operário da música” e dividiu seu álbum de estreia em quatro compactos.

“Até o tamanho do título é pouco usual hoje em dia. Isso me permitiu explorar várias facetas e temas, o que acabou influenciando arranjos e as letras. Achei o processo bem rico, gostei muito de fazer o álbum. É uma experiência linda pra mim”, afirma, ao comentar o caráter experimental de seu trabalho.

''Até o tamanho do título é pouco usual hoje em dia. Isso me permitiu explorar várias facetas e temas, o que acabou influenciando arranjos e as letras''

Felipe dos Santos, músico


BARZINHO

Ainda adolescente, Felipe formou sua primeira banda, coisa de garotos. O belo-horizontino fez apresentações voz e violão em barzinhos, deu aulas particulares de violão para crianças e começou a compor as faixas de “Meu amigo tilelê...” em 2011.

Em 2017, quando sua outra banda, a Sindiskato, acabou após cinco anos de atividades, ele decidiu iniciar a carreira solo voltada para o trabalho autoral. “Até aquele momento, minha função era de operário. Eu era alguém que tocava o repertório de outros artistas”, explica.

Desengavetar as canções compostas desde a adolescência tem sido “maravilhoso”, diz, revelando que escreve letras desde criança. “Minha mãe ainda guarda poemas que fiz quando tinha 9, 10 anos. Era muito fofinho”, brinca.

A motivação para assumir o lado autoral veio de uma conversa com o amigo, o cantor e compositor Sidarta Riani. Foi esse papo, aliás, que inspirou o longo título de seu álbum de estreia.

“Quando apresentei algumas composições ao Sidarta, ele fez o comentário de que eu tinha uma pegada brega. Na época, achei o comentário problemático. Ele queria dizer que a composição era cafona, e esse tipo de percepção sempre está ligado à música popular, do povão, visão que tende a ser um pouco elitista”, afirma Felipe.

O baixista e compositor deixa claro que o comentário de Sidarta não foi em tom de crítica, pelo contrário. Mesmo assim, defende a necessidade de um outro olhar a respeito do gosto popular.

Felipe dividiu o repertório do novo álbum em quatro compactos, que abordam temas distintos e se juntam para formar o nome do álbum. De acordo com ele, essa opção remete à sua trajetória artística diversificada, lembrando que já se apresentou em igrejas, bares e festas universitárias, foi professor de violão e cantou com bandas sertanejas.

Os dois primeiros compactos formam o Lado A, explica o baixista. “Meu amigo tilelê...” remete às amizades e à família. Na faixa “Choveu”, por exemplo, Felipe faz um tributo à avó.

“Diz que sou brega” se refere ao cancioneiro popular, criticando a pecha de brega aplicada a certas representações culturais, como é o caso da onda beatlemaníaca, nos anos 1960, com suas versões em português para hits dos Beatles.

O Lado B é político. O compacto “Mas eu acho isso” se refere a questões sociais que impactaram Felipe. Aqui, ele aborda o caso da menina Ágatha, de 8 anos, morta pela polícia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, quando voltava para casa com a mãe. O compositor fala também sobre o céu de BH em 2018, coberto por cinzas vindas de queimadas na Amazônia.

A quarta parte do projeto, “Um pouco problemático”, só será lançada no segundo semestre. Felipe dos Santos antecipa que ela trará relatos confessionais.
(foto: Fábio Xavier/divulgação)
(foto: Fábio Xavier/divulgação)

“MEU AMIGO TILELÊ DIZ QUE 
SOU BREGA MAS EU ACHO ISSO 
UM POUCO PROBLEMÁTICO”
• Disco de Felipe dos Santos
• Dez faixas
• Disponível nas plataformas digitais


Saiba mais

O QUE É TILELÊ

De acordo com dicionário informal na internet, tilelê é uma espécie de hippie contemporâneo, geralmente universitário, adepto de culturas alternativas, ligado à música produzida por artistas independentes e fã dos tambores e ritmos de matriz africana. Em BH, o termo é muito utilizado para jovens ligados à cultura do tambor disseminada por blocos de carnaval e atividades comandadas por Maurício Tizumba, percussionista, ator e compositor à frente da associação cultural Tambor Mineiro. De acordo com Tizumba, o termo tilelê remete a refrões onamotopaicos de canções do congado.

* Estagiário sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria


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