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Estado de Minas NA PANDEMIA

FliAraxá aposta em programação virtual 24 horas

Festival literário realiza sua edição 2020 desta quarta (28) até domingo (1), com número recorde de convidados estrangeiros


28/10/2020 04:00 - atualizado 28/10/2020 08:47

O moçambicano Mia Couto na edição 2017 do FliAraxá, em que foi homenageado. Neste ano, ele conversa com Ailton Krenak sobre %u201CO futuro das almas e do planeta%u201D, no dia do encerramento do festival(foto: Frankli CAldeira/Divulgação)
O moçambicano Mia Couto na edição 2017 do FliAraxá, em que foi homenageado. Neste ano, ele conversa com Ailton Krenak sobre %u201CO futuro das almas e do planeta%u201D, no dia do encerramento do festival (foto: Frankli CAldeira/Divulgação)
Cinco meses após a data prevista, o Fliaraxá – Festival Literário de Araxá dá início nesta quarta-feira (28) à sua nona edição e o faz no “modelo pandemia”, ou seja, em ambiente digital. Até domingo (1º), o evento vai apresentar, seja em transmissões ao vivo ou em encontros pré-gravados, cerca de uma centena de autores, não só brasileiros e portugueses, como de praxe, mas também de Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique.

“Nunca conseguiria reunir (presencialmente) este volume de autores internacionais, quase 40, de todos os países de língua portuguesa. Há meses procuro um tema (para o evento) e, ao encontrar uma frase do Saramago – "Não há uma língua portuguesa, há línguas em português"– extraída do documentário Língua – Vidas em português (2003), de Victor Lopes, descobri o gancho.

Diferentemente das outras, a língua portuguesa é a que mais reflete as contradições de seus países. Cada país que fala a língua tem uma característica social própria”, afirma Afonso Borges, idealizador e curador do evento.

Dessa maneira, além de autores internacionais que já estiveram no Fliaraxá – o moçambicano Mia Couto, os portugueses Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares, o angolano José Eduardo Agualusa, um dos homenageados desta edição – outros nomes internacionais se juntam ao time, como o romancista timorense Luís Cardoso e o cabo-verdiano Germano Almeida.

Do time brasileiro, destacam-se grandes nomes, como os acadêmicos Nélida Piñon e Ignácio de Loyola Brandão, Conceição Evaristo (outra homenageada do festival), Milton Hatoum, Marina Colasanti, bem como autores mais jovens, como Raphael Montes e Joca Terron. Há ainda um elenco diverso, que vai da filósofa Djamila Ribeiro, hoje um dos nomes mais relevantes no combate ao racismo, a Ailton Krenak e Monja Coen.

Os dois patronos desta edição são Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, ambos autores da terceira geração de modernistas, cujo centenário está sendo celebrado em 2020. E também como nas versões anteriores do festival, há uma ampla programação para crianças e outra com autores araxaenses.  

A promessa é de um festival com programação 24 horas. E diretamente de Araxá, diga-se de passagem. “É uma equipe de malucos. Se as pessoas pensam que fazer um festival virtual é só sentar atrás de um computador, estão completamente enganadas. A mecânica é alucinada e de difícil execução”, diz Borges, que está no Grande Hotel de Araxá com uma equipe de 30 pessoas para realizar as transmissões. Muitas delas serão realizadas diretamente do Teatro Tiradentes, no Grande Hotel de Araxá. Sem público, obviamente.

9º FLIARAXÁ – FESTIVAL LITERÁRIO DE ARAXÁ

Desta quarta (28) a domingo (1º) pelo www.youtube.com/fliaraxá, facebook.com/fliaraxa e no site www.fliaraxa.com.br

Caricatura de Nélida Piñon feita por Aroeira. Escritora conversa com Marina Colasanti no sábado sobre a obra de Clarice Lispector, de quem ambas foram amigas
Caricatura de Nélida Piñon feita por Aroeira. Escritora conversa com Marina Colasanti no sábado sobre a obra de Clarice Lispector, de quem ambas foram amigas

“A glória bafeja um de 
cada vez”, diz Nélida Piñon

Das grandes amigas de Clarice Lispector (1920-1977), somente três estão vivas: a artista Maria Bonomi, de 85 anos, e as escritoras Nélida Piñon e Marina Colasanti, ambas com 83. “Sendo que eu tive a tristeza imensa de acompanhá-la nos seus últimos 40 dias no hospital, até na hora da despedida”, diz Nélida. No próximo sábado (31), Nélida e Marina se reúnem para celebrar a literatura e a amizade com Clarice em uma conversa que será transmitida às 17h pelos canais do Fliaraxá. 

Em O livro das horas (2012), a senhora escreveu sobre como doía falar em Clarice. Ainda dói? 
Muito menos. É engraçado, durante anos, muita gente começou a falar em Clarice, gente que não a conheceu. Eu me refugiei na dor e na reserva, pois não quis fazer de Clarice um pretexto de ascensão literária. Quase não falava, nem em entrevistas, não pude dar entrevista nem para o Benjamin (Moser, autor de Clarice, uma biografia, de 2009). Agora já posso falar, claro, guardando reservas e preservando a intimidade. É como se, de repente, a própria imortalidade dela suavizasse a minha dor.

A senhora ia muito com Clarice ver a cartomante Nadir (que inspirou Madame Carlota, personagem de A hora da estrela), não?
Muito, até que chegou o momento em que não fui mais. Chegamos a ir a uma cerimônia de umbanda e levamos duas amigas, uma delas a famosa Carmen Balcells, a grande agente literária. A Clarice tinha um lado maravilhosamente astuto. No hospital (Nélida a acompanhou até a hora da morte, em 9 de dezembro de 1977, em decorrência de câncer), ela me disse: ‘Engraçado, Nélida, a Nadir não previu o que está acontecendo?’. Ela queria saber sobre o estado dela. Eu disse: ‘Clarice, ela só lhe diria se fosse uma coisa muito grave’. Ela ficou contente, jogou aquilo para ver se eu confirmava a suspeita dela.

Nos anos 1960, no início de sua carreira, houve quem a comparasse a Clarice, então uma escritora já consagrada.
Houve por parte de um crítico que foi de uma grosseria imensa comigo, o Esdras do Nascimento. Teve o Léo Gilson Ribeiro, foram vários. Em compensação, outros me consagraram muito cedo. Uma mulher jovem que estreava na literatura era sempre relacionada com outra madura, nunca com um homem. A mulher estava marginalizada nas avaliações estéticas. É uma coisa terrível e que, ainda hoje, de certo modo, persiste. Ainda há um espaço maior reservado para o homem do que para a mulher. Há uma condescendência em relação à produção literária masculina e maior severidade com a mulher. 

É impressionante como Clarice se tornou um fenômeno na internet e alcançou gerações muito jovens. A senhora acompanha esse movimento?
Eu previ isso porque a glória vai se depurando com o tempo. As pessoas vão se dando conta da importância de um escritor mais ou menos depois de sua morte. Se é que ele não cai num certo desterro. É muito impressionante o jogo de avaliação literária, oscila muito. Outra coisa que percebo, pelo menos no Brasil, mas acho que é um fenômeno geral, a glória bafeja um de cada vez enquanto vivo. Aquele morre e um outro vai substituí-lo. É como se um país não abraçasse dois ou três grandes nomes. Agora, tenho a impressão de que há frases que vejo citadas e não me parecem de Clarice. A Clarice não era piegas, e há frases absolutamente piegas atualmente na internet atribuídas a ela. 

MARCADOR DE LEITURA
Confira os destaques da programação do festival

Nesta quarta (28)
» 18h: Arte e cultura no Brasil em tempos de pandemia (Danilo Miranda e Afonso Borges)
» 19h: Paciência – um dia de cada vez (Monja Coen)
» 20h: Antônio Fagundes e Valter Hugo Mãe

Quinta(29)
» 16h: A língua para contar: histórias de um povo e de um lugar (Bruno Vieira Amaral, Paulo Scott e Luiz Ruffato)
» 17h: Literatura e história (Lira Neto e Ignácio de Loyola Brandão)
» 18h: Que gênero é: conto e crônica (Sérgio Rodrigues, Rodrigo Lacerda e Gonçalo Tavares)
» 19h: Literatura, identidade e pertencimento (Elisa Lucinda, Olinda Beja e Abdulai Sila)
» 20h: Gripe espanhola e pandemia hoje (Heloisa Starling e Lilia Schwarcz)

Sexta (30)
» 16h: Que gênero é: poesia (João Luís Barreto Guimarães, Adriana Lisboa e Mbate Pedro)
» 17h: Escrever em língua portuguesa (Milton Hatoum, Teolinda Gersão e Ronaldo Correia de Brito)
» 18h: Ficção hoje (Noemi Jaffe, José Luís Peixoto e Joca Terron)
» 19h: Filosofia e literatura (Onésimo Teotónio de Almeida e Sérgio Abranches)
» 20h: Cultura, crença e preconceito (Djamila Ribeiro e Afonso Borges)

Sábado (31)
» 16h: Literatura e crítica social (Germano Almeida e Jeferson Tenório)
» 17h: Patrona Clarice Lispector (Nélida Piñon e Marina Colasanti)
» 18h: Patrono João Cabral Melo Neto (Antonio Carlos Secchin e Schneider Carpeggiani)
» 19h: Autor homenageado: José Eduardo Agualusa
» 20h: Autora homenageada: Conceição Evaristo (foto)
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press )
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press )


Domingo (1º/11)
» 16h: Romance policial (Santiago Nazarian, Raphael Montes e Eliana Alves Cruz)
» 17h: Entrelinhas da violência: escrever e denunciar (Ungulani Ba Ka Khosa e Itamar Vieira Júnior)
» 18h: O futuro das almas e do planeta (Mia Couto e Ailton Krenak)
» 19h: Que gênero é: romance (Afonso Cruz, Ondjaki e Lucrecia Zappi)
» 20h: A mesma língua, novos registros: gênero e identidade (Tânia Ganho e Yara Monteiro)


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