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Nelson Freire volta a tocar em BH peças de seu primeiro recital, aos 9

Na semana em que completa 75 anos de idade e 70 de carreira, pianista faz três concertos na capital mineira, com programa quase idêntico ao de sua primeira apresentação, no Instituto de Educação


postado em 15/10/2019 04:00 / atualizado em 14/10/2019 22:58

Nascido em Boa Esperança, Nelson Freire começou a tocar piano aos 3 e foi identificado como prodígio no instrumento. A família foi aconselhada a buscar professores que pudessem ajudá-lo a se tornar um virtuose(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A.Press)
Nascido em Boa Esperança, Nelson Freire começou a tocar piano aos 3 e foi identificado como prodígio no instrumento. A família foi aconselhada a buscar professores que pudessem ajudá-lo a se tornar um virtuose (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A.Press)
"Nelson Freire constitui uma promessa pianística das mais nítidas... Surpreendeu pela desproporção do tamanho do garoto e a eficiência de sua atuação ao piano", escreveu Eurico Nogueira França, em 25 de dezembro de 1953, no diário carioca Correio da manhã.
 
O pianista não passava de um garoto de nove anos quando o crítico e musicólogo carioca o viu executar um prelúdio de Rachmaninoff e uma valsa de Chopin. O comentário de França foi impresso no programa do recital que o menino de Boa Esperança apresentou em 11 de julho de 1954,  no auditório do Instituto de Educação, em Belo Horizonte.

A foto do garoto de calças curtas e lenço amarrado no pescoço ilustrava o programa do recital diurno, que incluiu temas de Schumann (Cenas infantis, conjunto de 13 andamentos para piano solo), Chopin (Polonaise em dó sustenido menor, op.26 nº1) e Villa-Lobos (Lenda do caboclo e Polichinelo).

Passados 65 anos, Freire repete esse programa, na semana em que completa 75 anos – seu aniversário será nesta sexta (18) – e apresenta três recitais em Belo Horizonte. Desta terça (15) a quinta (17), Freire toca no Centro Cultural Minas Tênis Clube.
 

''u o conheci quando era adolescente e ele já tinha todas as virtudes, os dons do músico extraordinário que é. Nelson é um dos grandes pianistas de todos os tempos, um mestre. Ouvi-lo é sempre uma alegria''

Berenice Menegale, pianista

 
Hoje, ele encerra a temporada 2019 da série de Concertos Supergasbras; na quarta, faz uma apresentação fechada para convidados; e na quinta, outra em benefício da Associação Mineira de Reabilitação (AMR). Não há mais ingressos disponíveis.

Na primeira parte do programa desta semana, Freire vai executar Mozart (Sonata em lá maior K331) e Beethoven (Sonata op. 27 nº2, a Sonata ao luar). Encerrando as apresentações, ainda haverá Liszt, com a Morte de amor de Isolda, da ópera Tristão e Isolda, de Wagner. O repertório foi definido pelo pianista em conversas com a também pianista e professora Celina Szrvinsk, coordenadora da série de concertos no Minas.

"Comecei a trazer Nelson a Belo Horizonte em 2002. Naquela época, havia um tempo que ele não vinha à cidade para recitais. Ele é um dos artistas mais cotados do cenário internacional, está nas maiores salas, com os grandes regentes. Todos querem o Nelson, e nós também. Sempre que há um espaço na agenda, ele vem", comenta Celina.
 
O pianista chega a BH vindo de uma turnê europeia, iniciada no fim de agosto. No teatro do Minas, é a quinta vez em que ele se apresenta, desde a inauguração do espaço cultural, em 2013. Os ingressos sempre se esgotam com antecedência.
 

''Morávamos perto um do outro em Viena, então nos encontrávamos, um tocava para o outro. Chegamos a tocar a quatro mãos, e ele já parecia o que é hoje. Tocava um concerto de meia hora de cabo a rabo sem ter estudado. Era inacreditável, pois ele tocava uma peça que nunca tinha visto como se a conhecesse. Ele tem as mãos adaptadas para o instrumento, um relaxamento natural, toca sem crispação, com facilidade''

Eduardo Hazan, pianista

 
Além dos 75 anos de vida, Nelson comemora em 2019 os 70 de carreira – a estreia nos palcos foi aos cinco, em 1949, no Teatro Municipal de São João del-Rei. “Lúcia Branco e sua assistente, a pianista Nise Obino, às quais está confiada sua educação artística, nele depositam as maiores esperanças.” Essa frase, cunhada também no programa do recital de 1954, cita dois nomes essenciais na formação do menino prodígio.

Naqueles anos, a família Freire já havia deixado Boa Esperança rumo ao Rio de Janeiro para aprimorar a educação do filho caçula, que havia descoberto o piano aos três anos e se revelara um talento incomum, embora fosse uma criança de saúde fraca.

AMOR SOBRETUDO 

No documentário Nelson Freire (2003), de João Moreira Salles, o próprio pianista dá os devidos créditos a Nise Obino. Diz, em um dos poucos momentos em que abre o verbo para a câmera, que, passados dois anos no Rio, os pais, Augusta e José Freire, já pensavam em retornar ao interior de Minas, pois “o prodígio estava acabando e depois de ter passado por vários professores no Rio, nunca deu certo”.

A virada se deu, segundo ele relatou no documentário, com a chegada de Nise. “Eu era muito tímido mas ela, não; era uma pessoa exuberante, bonita”. Da varanda do apartamento carioca o menino a viu pela primeira vez, “descendo de um táxi preto, fumando, desquitada, chegou em casa falando de política, escandalizando a família mineira em todos os sentidos”. “Fiquei fascinado, não foi só uma relação de aluno e professor, foi uma relação de amor, sobretudo”, ele contou.
Foto de Nelson Freire no programa do concerto que fez aos 9 anos, na capital mineira(foto: Reprodução)
Foto de Nelson Freire no programa do concerto que fez aos 9 anos, na capital mineira (foto: Reprodução)

O encontro foi definitivo para sua carreira, que, a partir de então, decolou. Um marco da primeira fase foi o Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro, em 1957. Nelson, aos 12, tocou o imponente Concerto nº 5 – Imperador, de Beethoven. Não venceu a premiação (o primeiro lugar foi para o austríaco Alexander Jenner), mas a performance lhe valeu uma bolsa dada pelo então presidente Juscelino Kubitschek para estudar em Viena.
 
Era um dos mais jovens pianistas brasileiros a estudar na Áustria no final dos anos 1950. E havia algo de diferente nele, notam pianistas que o conheceram naquela época, em Viena. “Eu o conheci quando era adolescente e ele já tinha todas as virtudes, os dons do músico extraordinário que é”, comenta a pianista e professora Berenice Menegale, de 85. Ela considera Nelson “um dos grandes pianistas de todos os tempos, um mestre” e diz que ouvi-lo é “sempre uma alegria”, ainda mais quando é ao vivo.
 

''São muitos os públicos que o Nelson tem. Há aqueles que o conhecem desde criança; há os que querem conhecê-lo e há o público jovem, principalmente de músicos. Como ele não consegue se apresentar no Brasil inteiro, vários alunos de escolas do interior vão se deslocar até aqui. E, se você ouvir o mesmo repertório, com ele nunca é a mesma coisa''

Celina Szrvinsk, pianista


 
Já Eduardo Hazan, de 82, lembra-se de um encontro dos dois, quando Nelson tinha não mais do que 14 anos. “Morávamos perto um do outro em Viena, então nos encontrávamos, um tocava para o outro. Chegamos a tocar a quatro mãos, e ele já parecia o que é hoje. Tocava um concerto de meia hora de cabo a rabo sem ter estudado. Era inacreditável, pois ele tocava uma peça que nunca tinha visto como se a conhecesse. Ele tem as mãos adaptadas para o instrumento, um relaxamento natural, toca sem crispação, com facilidade.”

Os prêmios, as colaborações com as maiores orquestras e regentes do mundo, as sucessivas gravações, foram se somando ao longo dessa trajetória de sete décadas. E mesmo com o avanço da idade, ele continua.
 
"São muitos os públicos que o Nelson tem. Há aqueles que o conhecem desde criança; há os que querem conhecê-lo e há o público jovem, principalmente de músicos. Como ele não consegue se apresentar no Brasil inteiro, vários alunos de escolas do interior vão se deslocar até aqui. E, se você ouvir o mesmo repertório, com ele nunca é a mesma coisa", diz Celina.
 
NELSON FREIRE
O pianista encerra a série Concertos Supergasbras nesta terça (15), às 20h30, no teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube, Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Ingressos esgotados.
 

MARIA JOÃO TOCA EM BH

Uma das maiores pianistas da atualidade, a portuguesa Maria João Pires tem a mesma idade de Nelson Freire e, assim como ele, atingiu os 70 anos de carreira. Ela é o destaque da Série Virtuosi – no próximo dia 26, às 20h30, se apresenta no Palácio das Artes. No repertório, peças de Chopin e Beethoven. Os ingressos custam de R$ 100 a R$ 300 e já estão à venda. Mais informações podem ser obtidas no site da Fundação Clóvis Salgado (www.fcs.mg.gov.br). 


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