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Estado de Minas

Filho de Portinari comenta o lado 'poeta menor' do gigante das artes

João Candido Portinari vem a BH nesta terça (10) para falar sobre a reedição de Poemas de Portinari e o legado 'humanista, ético, pela paz, contra a injustiça social e pelo respeito à vida' da obra do pai


postado em 10/09/2019 04:00 / atualizado em 09/09/2019 22:21

João Candido Portinari (foto: Fernando Rabelo/divulgação)
João Candido Portinari (foto: Fernando Rabelo/divulgação)

Na primeira vez em que João Candido Portinari esteve em Belo Horizonte ele tinha apenas 5 anos. Era 1944 e o garoto estava acompanhando o pai, o pintor Candido Portinari (1903-1962), nas obras da Igrejinha da Pampulha.
 
“Lembro-me bem da minha mãe (a uruguaia Maria Martinelli) me dizendo: 'Não põe os pés nessa lagoa, não, que tem um caramujo aí que faz mal pra gente...'", conta ele. Ao longo dos anos, João voltou à capital mineira para cumprir muitos compromissos ligados a Portinari, como o que terá nesta terça-feira (10), na sala Juvenal Dias do Palácio das Artes. Como convidado do Projeto Sempre um Papo, João Candido Portinari falará sobre um lado não muito conhecido do pai: o de poeta.

“Poucas pessoas conhecem essa faceta dele, mesmo quem é da área. E muitos ficam surpreendidos. Portinari passou a se dedicar aos poemas mais no fim da vida. Estava num momento de muita melancolia. A forma de arte que ele vinha praticando estava sendo questionada e então ele usou a escrita como um modo de exprimir seus sentimentos. Mas ele nunca teve a intenção de divulgar nada”, afirma.

O escritor e jornalista Antonio Callado foi quem insistiu no lançamento de um livro com os textos de Portinari e chegou a fazer a seleção de poemas. Em 1964, dois anos após a morte do pintor, a José Olympio Editora publicou Poemas de Portinari. João Candido conta que a primeira edição, que se esgotou rapidamente, saiu apenas com textos, sem nenhuma ilustração.
 
Neste ano, com o apoio da Funarte e com organização de Letícia Ferro, Patrícia Porto e Suely Avellar, a obra ganhou uma reedição que preserva a seleção de poemas de Callado e Manoel Bandeira e também os textos introdutórios.

''Quando ele morreu, eu tinha 23 e estava na França. Já tinha um tempo que não tínhamos mais a convivência diária. No Dia dos Pais de quando completei 40 anos, escrevi uma carta-póstuma a ele e foi como um reencontro. Foi bem emocionante''

João Candido Portinari, matemático e fundador do Projeto Portinari

A apresentação de Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi escrita especialmente para essa nova edição. “A gente sempre quis fazer uma versão ilustrada, até porque a obra poética dele é um reflexo de sua obra plástica.
 
Quando você lê os versos, é como se estivesse assistindo a um filme da sua produção nas artes plásticas. Os temas, os personagens, tudo está na poesia, por isso era importante ter ilustrações de algumas de suas telas, desenhos”, observa.

O filho único do artista nascido em Brodowski, no interior paulista, diz que o pai não permitiu que a primeira edição fosse ilustrada para que sua poesia não se beneficiasse de sua fama de pintor. Ela costumava dizer: “Quanta coisa eu contaria se pudesse/ E soubesse ao menos a língua como a cor...”

“Ele se considerava um poeta menor. Mas o próprio texto de abertura do Callado mostra o contrário e afirma que 'menor como é o poeta em relação ao pintor, o gênio de Portinari era tanto que não coube numa arte só'”, diz João Candido.

O lançamento de Poemas de Portinari é uma das atividades que celebram os 40 anos do Projeto Portinari, criado por João e que se dedica a preservar e divulgar a produção e o contexto da obra de Portinari. “Decidi criar esse projeto quando vi a seguinte manchete de jornal: 'Portinari, o pintor. Um ilustre desconhecido. Mais de 95% de sua obra é inacessível ao público, já que está guardada em coleções particulares'”, revela.

A exposição Uma carta aos brasileiros: 40 anos do Projeto Portinari, que está em cartaz até dezembro na PUC-Rio, além de uma parceria com a Google Arts & Culture (plataforma que disponibiliza acervo de grandes museus e artistas do mundo), também marcam a efeméride.

Com essa iniciativa, ficam à disposição do público cerca de 5 mil obras e 15 mil documentos do artista. As obras já estavam no catálogo raisonée de Portinari, cuja versão impressa foi lançada em 2004, e no site do Projeto, mas agora ganham novos tratamentos, como exposições virtuais e ferramentas do Google, como a ArtCamera, que consegue registrar em gigapixel (mais de 1 bilhão de pixels) e o Street View – filmagem que mostra em 360º a casa onde ele viveu em Brodowski.
 
“Ele é o primeiro artista brasileiro a ganhar uma exposição virtual do Google. Isso é muito importante, não só para a divulgação de seu trabalho, mas das artes e da cultura do Brasil de uma maneira geral”, avalia João.
 
 
Candido Portinari teve uma relação intensa com Minas e os mineiros. De Juscelino Kubitschek recebeu o convite para criar os famosos azulejos da Igrejinha da Pampulha, que viria a ser o principal cartão-postal de BH. Carlos Drummond de Andrade o homenageou com o poema A mão (Entre o cafezal e o sonho/o garoto pinta uma estrela dourada/na parede da capela, e nada mais resiste à mão pintora).
 
Foram seus amigos Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Aníbal Machado e Alberto Guignard, que teve a carreira consolidada nas Gerais. “Portinari sempre teve uma ligação forte com Minas, com grandes amigos mineiros. E eu também acabei mantendo esses laços, porque minha mulher é de Muriaé (na Zona da Mata), tem parentes em BH. Então,  vira e mexe, estou aí”, diz João.

Portinari recebe Guignard e seus amigos durante as obras da Igreja da Pampulha, em 1944(foto: Projeto Portinari/Divulgação)
Portinari recebe Guignard e seus amigos durante as obras da Igreja da Pampulha, em 1944 (foto: Projeto Portinari/Divulgação)
Apesar de hoje cuidar do legado e da divulgação do trabalho do pai, João Candido dedicou metade de sua vida à matemática. Ele é um dos fundadores do Departamento de Matemática da PUC-Rio. Conviveu diariamente com o pai até completar 18 anos, quando foi estudar em Paris.
 
“Quando ele morreu, eu tinha 23 e estava na França. Já tinha um tempo que não tínhamos mais a convivência diária. No Dia dos Pais de quando completei 40 anos, escrevi uma carta-póstuma a ele e foi como um reencontro. Foi bem emocionante.”

João confidencia que, em sua infância e adolescência, pesou o fato de ser filho de Portinari. E como não teve irmãos, não tinha com quem dividir essa responsabilidade. “Era uma sombra que pairava sobre mim. Em qualquer lugar que eu ia, na escola, na festinha com os amigos, era assim: 'Esse é Pedro, essa é Maria e aquele (no caso eu) era o filho do Portinari'”, conta ele, que nunca tentou seguir os passos do pai nas artes plásticas. “Seria muita pretensão. Só desenho alguma coisa no guardanapo e depois de algumas caipirinhas”, brinca.

Aos 80 anos, João Candido diz que tem “metade da vida dedicada à matemática e metade a Portinari. O Projeto surgiu num momento em que o país se encontrava no porão, fim da ditadura, anistia. Levar adiante essa empreitada é uma busca também com o próprio Brasil que estava na obra dele. Não só a forma estética, mas os pensamentos que ele expressou nas suas cartas, nos seus textos. Portinari não nos deixou apenas um legado pictórico, mas um legado humanista, ético, pela paz, contra a injustiça social e pelo respeito à vida”.
 
JOÃO CANDIDO PORTINARI NO SEMPRE UM PAPO
Terça (10), às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Entrada franca. Informa,ções: (31) 3261-1501.
 


Poemas de Portinari
• Candido Portinari
• Organização de Letícia Ferro, Patrícia Porto e Suely Avellar
• Edições Funarte (192 págs.)
• Preço de capa: R$ 75 no local do evento (R$ 50 no site da Funarte – www.funarte.gov.br)

TRECHO DE POEMAS DE PORTINARI
 
Faltam-me as pernas.
Tenho um braço e meus
Olhos são fracos. O coração palpitando
Sempre.

Vim da terra vermelha e do
Cafezal.

As almas penadas, os brejos e as matas virgens
Acompanham-me como o espantalho,
Que é meu autorretrato.

Todas as coisas
Frágeis e pobres
Se parecem comigo
 
 
Candido Portinari trabalha no mural 'Guerra e paz'(foto: O Cruzeiro - 1955)
Candido Portinari trabalha no mural 'Guerra e paz' (foto: O Cruzeiro - 1955)
GUERRA E PAZ
A Organização das Nações Unidas vai disponibilizar novamente ao Projeto Portinari a obra Guerra e Paz. Os dois painéis produzidos por Candido Portinari entre 1952 e 1956 foram oferecidos pelo governo brasileiro como presente para a sede da ONU, em Nova York. Entre 2013 e 2015, os dois quadros foram expostos em algumas cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte. “Em abril de 2021, eles vão nos emprestar para levarmos para a Sala delle Cariatidi, um dos espaços expositivos mais belos do mundo, em Milão. A exposição vai ocorrer simultaneamente à grande Feira do Móvel de Milão, que recebe milhares de visitantes. A intenção é, após esse evento, trazermos de novo ao Brasil, mas para lugares onde nunca levamos Guerra e paz, como o Nordeste”, diz João Candido Portinari, que quer aproveitar a oportunidade e cobrar de Milton Nascimento a melodia da música Guerra e Paz, uma parceria de Bituca com Fernando Brant (1946-2015). “A letra é linda e muito inspirada, como tudo o que Fernando nos legou e tenho certeza de que a melodia também será”, diz.



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