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Estado de Minas EFEITOS DA PANDEMIA

COVID-19: confinamento deixa marcas no corpo e na alma

Com o foco em evitar o contágio pelo vírus, cuidado e atenção à saúde mental foram deixados de lado


19/09/2021 06:00 - atualizado 21/09/2021 18:12

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(foto: Anthony Tran/Unsplash )
O confinamento forçado devido à COVID-19 deixou marcas no corpo físico e na esfera psicológica. Pouco gasto calórico e muita angústia, muito tempo de teletrabalho em cadeiras projetadas para refeições rápidas, declínio das atividades incidentais (aquelas do movimento diário, como se vestir ou descer escadas), exercícios físicos em ambiente despreparado e sem acompanhamento profissional, câmera frontal em reuniões, o tempo todo, revelando coisas que nem pareciam estar ali. Com a pandemia, a sensação é de que as pessoas envelheceram uma década em pouco mais de um ano. Esse é um tema que está na crista da onda dentro da análise de especialistas e já é motivo de estudos.

Do início da disseminação do coronavírus até aqui, a jornalista e atriz Suellen Ogando, de 36 anos, desenvolveu uma série de problemas de saúde. Para ela, o impacto foi significativo. Gastrite e labirintite foram desequilíbrios que surgiram relacionados a um grave transtorno de ansiedade, problemas que Suellen já havia experimentado em situações de estresse ou decepção. Desta vez, ela relata que o quadro de ansiedade se manifestou de uma maneira muito mais intensa. "Todas essas questões de saúde de uma certa forma me acompanham. Mas essa crise agora foi pior. Me faltou ar, achei que ia morrer, foi bem duro", diz.

Ela atribui a piora da condição física e psicológica mesmo à pandemia, à necessidade do isolamento, e, no momento mais atual, ao receio de contaminação pela variante Delta, um novo fator de preocupação, principalmente, como diz Suellen, em relação ao filho, de 1 ano e 9 meses. "Meu marido teve COVID, meu sogro também, e minha sogra tem Alzheimer. Meu marido não quer que nosso filho vá para a escola, e isso tem sido bem difícil também. Gostaria que ele pudesse conviver com outras crianças, mas por enquanto isso é um impasse. Estando com meu filho em casa, chega uma hora em que as possibilidades de fazer atividades com ele se esgotam", diz.

Para Suellen, criar um filho em plena pandemia é um grande desafio. "Muitas mães devem ficar aflitas como eu. E ainda tem as demandas domésticas. Tudo isso torna a vida de uma mãe dramática com a pandemia. Organizar isso tudo é muito complicado. Fico muito sobrecarregada", conta.

Suellen estava morando em São Paulo, onde as atividades profissionais vinham bem, mas as oportunidades de trabalho também ficaram limitadas com o início da pandemia, forçando uma estada mais demorada de volta a Belo Horizonte. A questão é que os compromissos financeiros não esperam.

VÁLVULA DE ESCAPE 

Para levar a vida, ela diz que conta com a criatividade, e sua experiência diária com a arte tem sido uma válvula de escape para tudo o que está acontecendo. "Mesmo quando estou muito ruim, uso esse artifício da arte, da música, do teatro, para tentar me salvar e levar um pouco de alegria para as pessoas. Existem as dores do dia a dia, e o tempo todo é preciso se reinventar. Procuro a arte para me curar, e curar quem está ao redor. Tenho que saber administrar minhas emoções, mas não é tão fácil assim."

Mais um motivo de aflição é a dificuldade em conseguir atendimento médico com psiquiatra e neurologista pelo plano de saúde que possui. "Ainda estou procurando um médico para ser atendida. Tenho certeza de que vou precisar de algum tipo de auxílio de medicamento. E isso fica mais complicado, já que quase não sobra tempo para cuidar de mim."

Tudo o que vem contribuindo para os desequilíbrios que a jornalista vivencia. Entre os problemas, também o ganho de peso, que não está sendo solucionado mesmo com a reeducação alimentar e a ginástica. Aumentou ainda o volume de fios grisalhos, ao mesmo tempo em que o cabelo vem caindo rapidamente.

"Não usava óculos, de repente comecei a ver estrelinhas, além de um zumbido no ouvido. Então, comecei a usar e estou verificando se pode ser glaucoma. A minha menstruação está com o ciclo e a intensidade de cólicas alterados, inclusive originando uma certa anemia, porque tenho perdido muito sangue. Provavelmente é um problema no ovário, e vou ter que investigar", conta.

Para Suellen, a pandemia veio para ser mais um motor para o estresse e, na sua opinião, para destruir, para desestabilizar. Ela exemplifica com o aumento das brigas entre famílias, ou com o perigoso número de casos de suicídio, muitas vezes entre os jovens. "Ou a pandemia levou, ou a pessoa tirou sua própria vida", lamenta. A jornalista brinca que quem sobrevive ao coronavírus, ou por superar a doença em si, ou por não enlouquecer, é comparável às baratas que passam incólumes a explosões atômicas, em meio ao caos.

"São vários fatores que afetaram a minha saúde, principalmente pelo aspecto emocional. Tudo isso faz com que eu fique muito preocupada, muito estressada, pensando quando tudo vai voltar ao normal. Enfim, nessa pandemia, parabéns para quem saiu ileso", diz.

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(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)


"Muitas mães devem ficar aflitas como eu. E ainda tem as demandas domésticas. Tudo isso torna a vida de uma mãe dramática com a pandemia. Organizar isso tudo é muito complicado. Fico muito sobrecarregada"

Suellen Ogando , de 36 anos, jornalista e atriz

IMPACTOS 

A reação emocional difere de pessoa para pessoa e também conforme as fases da vida, ensina a psiquiatra Jaqueline Bifano. Levando em conta que a pandemia já se estende há mais de um ano, a profissional salienta que não se pode falar em reações emocionais de forma generalizada e simplificada. "Passamos por momentos de incerteza e indefinição, a presença de mortes no dia a dia. É um contexto complexo e o impacto na saúde mental dos indivíduos também não é simples de identificar ou descrever", pontua.

"Passamos por momentos de incerteza e indefinição, a presença de mortes no dia a dia. É um contexto complexo e o impacto na saúde mental dos indivíduos também não é simples de identificar ou descrever" - Jaqueline Bifano, psiquiatra (foto: Leca Novo/Divulgação)

A impressão inicial era de que a situação não se estenderia por muito tempo, portanto, os impactos na saúde mental ainda não eram tão perceptíveis no princípio da pandemia, lembra Jaqueline. Porém, com o prolongamento do problema, continua, prevaleceu uma expectativa, misturada a uma sensação de incerteza com relação ao futuro, diante de tantas restrições.

"Uniram-se a isso o desemprego e, para quem conseguiu manter o trabalho, a ameaça de uma demissão iminente, para todos a limitação de convívio com a família e os amigos. Tudo isso gerou um crescimento acentuado de sentimentos de ansiedade, medo, tédio e solidão. Na vida profissional, por exemplo, com as videochamadas praticamente diárias e o trabalho dentro do lar, também percebemos no consultório o aumento de casos da síndrome de burnout", cita a médica.
Para Jaqueline, o agravante é que, com o foco em combater o vírus e evitar o contágio, o que realmente precisava ser prioridade foi deixado de lado – o cuidado e atenção à saúde mental. "Com tantas mudanças ao nosso redor e com todos esses sentimentos negativos, seria essencial que estivéssemos cuidando da nossa mente, o que, para a maioria das pessoas, não foi possível", pondera.

Como resultado de tanta desarmonia, além do aumento de casos de burnout, Jaqueline enumera quadros mais severos de doenças mentais em geral, com pacientes com depressão leve evoluindo para situações pioradas, ansiedade, ataques de pânico, fobias, entre outros, além de indivíduos que desenvolveram essas doenças, antes não identificadas. Muito relacionado ao convívio direto com a morte, e todo esse contexto de instabilidade, ela explicita.

"Em relação à saúde mental das crianças, por sua vez, o isolamento favoreceu o surgimento e o agravamento de dificuldades cognitivas e problemas de socialização. Crianças que já tinham algum tipo de doença mental também estão sofrendo, sem falar no aumento de casos de violência doméstica, que, em sua maioria, são identificados no ambiente escolar pelos professores. A tendência é de que tenhamos uma geração com mais dificuldade de socializar, com maior sentimento de insegurança e ansiedade", lamenta a psiquiatra.


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