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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Mais do que acesso ao conhecimento, ler é cuidar da saúde mental

Observatório do Livro fará jornada da biblioterapia de 26 a 29 de abril, às 19h, 100% gratuita


11/04/2021 04:00 - atualizado 11/04/2021 10:59

A biblioterapia, ao contrário do que muitos pensam, não precisa ser aplicada somente com pessoas que já são boas leitoras e pode ser on-line(foto: Annie Spratt/Unsplash)
A biblioterapia, ao contrário do que muitos pensam, não precisa ser aplicada somente com pessoas que já são boas leitoras e pode ser on-line (foto: Annie Spratt/Unsplash)


Livros são remédios sem contraindicações. Sem qualquer restrição, a leitura é prescrita a todos. Um ramo da literatura a serviço da saúde mental é a biblioterapia. Conhece? A ferramenta é a sistematização de práticas de leitura literária orientadas para fins terapêuticos. O método da terapia pelos livros oferece ferramentas que auxiliam no processo de reelaboração de questões internas e de como o sujeito se relaciona socialmente.

“Trata-se daqueles potenciais de conhecimento associados à empatia e à catarse tradicionalmente identificados na experiência poética. A biblioterapia é uma abordagem transversal, que coordena repertórios de diferentes campos do conhecimento – como letras, biblioteconomia, pedagogia, psicologia e serviço social – no que têm em comum ao uso da literatura como instrumento de cuidado pessoal e coletivo”, explica Galeno Amorim, presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, jornalista, escritor e liderando projeto de biblioterapia desde a década de 1990 no Brasil.

Em tempos de pandemia e de isolamento social, as terapias, de modo geral, têm importância primordial na vida das pessoas. Não é diferente com a terapia pelos livros, especialmente quando se leva em conta as restrições de circulação que, corretamente, obrigam as pessoas a ficar em casa e, decerto, também parecem ter mais tempo disponível para ler livros.

No caso da biblioterapia, o terapeuta é o próprio livro, que, através do narrador e seus personagens, pode trazer à tona certas situações e levar o leitor a liberar emoções, passo fundamental para catarses e insights, por exemplo.

Galeno Amorim, presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, diz que na biblioterapia o terapeuta é o próprio livro, que, por meio do narrador e seus personagens, pode levar o leitor a liberar emoções, passo fundamental para catarses e insights(foto: Lídia Muradas/Divulgação)
Galeno Amorim, presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, diz que na biblioterapia o terapeuta é o próprio livro, que, por meio do narrador e seus personagens, pode levar o leitor a liberar emoções, passo fundamental para catarses e insights (foto: Lídia Muradas/Divulgação)
“A qualquer tempo – e, particularmente, em situações como a que o mundo vive atualmente, com o novo coronavírus – o livro pode ser de uma serventia fabulosa para a saúde mental. À medida que liberamos tensões, medos, angústias, ansiedades e incertezas quanto ao presente e o futuro, entre outras coisas, tornamo-nos pessoas emocionalmente mais saudáveis, e isso também se reflete no corpo físico”, destaca Galeno Amorim.
 
Antes da pandemia, o Observatório do Livro iniciou a implantação de 100 clubes de leitura em 17 cidades do estado de São Paulo somente com idosos, que liam um livro por mês e os membros se reuniam uma vez por semana para conversar sobre a leitura realizada, tendo como metodologia a biblioterapia.

Galeno Amorim conta que, com o início do isolamento social, esses clubes passaram a se encontrar virtualmente, e toda semana cada um deles reúne seus membros para comentar, em lives, o e-book que acabaram de ler, a partir de uma biblioteca digital com mais de 20 mil títulos.

“Quando falam das tramas e das personagens da obra, as pessoas estão falando da própria vida, de seus sonhos, de suas dificuldades e de seus medos. Desabafam, se sentem acolhidas e estimuladas tanto a compartilhar suas experiências pessoais quanto a ouvir e se colocar no lugar do outro. Isso é tremendamente terapêutico. Além disso, os biblioterapeutas têm feito consultas individuais on-line.”


A biblioterapia não é só para quem sabe ler


É importante destacar, lembra Galeno Amorim, que a biblioterapia, ao contrário do que muitos pensam, não precisa ser aplicada somente com pessoas que já são boas leitoras. “Em nossos clubes de leitura com idosos, por exemplo, parte dos clubes ocorre em instituições de longa permanência, onde muitos são analfabetos, absolutos ou funcionais, têm baixa visão ou mesmo pouca ou nenhuma tradição leitora. Nesses casos, o biblioterapeuta leva, a cada encontro, livros curtos, crônicas ou poemas que são lidos na hora, em voz alta, e, em seguida, discutidos pelos presentes, inclusive a distância, no modo on-line. Muitos optam também por participar dos clubes do audiolivro.”

A qualquer tempo e, particularmente, com a pandemia, o livro pode ser de uma serventia fabulosa para a saúde mental. À medida que liberamos tensões, medos, angústias, ansiedades e incertezas quanto ao presente e o futuro, tornamo-nos pessoas emocionalmente mais saudáveis

Galeno Amorim, presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, jornalista, escritor

Galeno Amorim conta que o perfil do leitor brasileiro vem mudando nos últimos anos. Até duas décadas atrás, era um leitor de classe média, principalmente média alta, com recursos para adquirir os próprios livros. Segundo ele, nos últimos 20 anos, graças aos programas sociais do livro gratuito – escolares e não escolares –, a ampliação de bibliotecas e outros espaços de leitura e uma lenta, porém contínua, melhoria da educação, dezenas de milhões de pessoas foram incluídas ao grupo de leitores.

Foi uma das principais causas do aumento dos índices de livros lidos (1,8 por habitante em 2001 para entre quatro e cinco nas últimas edições da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil/Ibope). Com maior acesso aos livros, da educação infantil à educação de jovens e adultos (EJA), alargou-se a base de leitores.

“Isso acabaria por compensar a queda de leitores e de livros lidos entre aqueles que trocaram o tempo dedicado à leitura por mais tempo com entretenimento na internet. Os e-books e as bibliotecas digitais, agora, têm a chance de gerar um novo salto no acesso aos livros e, assim, à leitura no Brasil e em outros países com igual ou pior situação de desigualdade social.”

O Observatório fará  a sexta jornada da biblioterapia de 26 a 29 de abril, às 19h, 100% gratuita. É possível assistir no Facebook e Youtube fazendo a inscrição no link: https://observatoriodolivro.org.br/jornada-biblioterapia
 


Direito elementar 


Com tanto poder, será que não importa o que se lê, mas sim ler? Para Galeno Amorim, que foi presidente da Biblioteca Nacional, uma das nove mais importantes do mundo e responsável pela criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), sempre dependerá do objetivo e das necessidades de cada leitor.

“Alguém que precisa passar de ano na escola ou entrar na faculdade, lerá por puro pragmatismo, e o mesmo fará quem quer se aprimorar profissionalmente ou se inteirar mais, digamos, da religião. E haverá sempre quem vai ler por prazer e gosto, e enraizará esse hábito ou prática em sua vida.”

E que livros esse último grupo deve ler? Esse leitor será fisgado por algo de que goste, com o qual se identifique, onde faça descobertas e se encante. Esse leitor vai se qualificar a cada nova leitura feita e o que hoje é bom, amanhã poderá ser insuficiente, pois ele estará melhor e mais exigente.

“Por isso, o leitor deve ser respeitado a cada passo nessa trajetória, a começar pelo direito de não terminar o livro que começou. Não pode ser obrigado a ler, mas precisa ter respeitado o que Antônio Cândido, nosso grande mestre, dizia ser o acesso à literatura como um direito humano elementar. Mas se o objetivo da leitura é terapêutico, esse livro tem, sim, que ser escolhido a dedo”.

Lista de um expert


Galeno Amorim, presidente da Fundação Observatório do Livro e da Leitura, compartilha os livros que leu, releu durante esta pandemia do novo coronavírus. Para você se inspirar.

  • “A Peste”, de Albert Camus
  • “Fogo, Cerrado”, de Marcos Wilson Spyer (“Livro de estreia do ótimo Marcos Wilson Spyer, com um mineirês que me fez lembrar João Guimarães Rosa”, destaca)
  • “No seu pescoço” e “Sejamos todos feministas”, de Chimamanda Ngozi Adichie
  • “Ostra feliz não faz pérola” e “Se eu pudesse viver minha vida novamente”, de Rubem Alves
  •  “Chatô rei do Brasil” e “Cem quilos de ouro”, de Fernando Morais
  • “Cem anos de solidão”, “A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada”, “Textos caribenhos e crônicas caribenhas”, de Gabriel Garcia Márquez
  • “Confesso que vivi”, de Pablo Neruda
  • “Os dias lindos e 70 historinhas”, de Carlos Drummond de Andrade
  •  “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector
  •  “Sangue nas veias”, de Tom Wolfe


Saiba mais

 
Observatório do livro

O Observatório do Livro é uma fundação que, atuando com fomento à leitura desde 1999, já impactou a vida de mais de 500 mil pessoas. Em 2021, o projeto Clube de Leitura 6.0, só para idosos, já beneficiou mais de 1.100 pessoas acima de 60 anos com leitura de ebooks em tablets, computadores e celulares. Nos próximos meses, a instituição vai iniciar mais três projetos nessa linha, sendo um deles com jovens e crianças vulneráveis e outro com idosos em tratamento contra o câncer e a leucemia. O projeto Clube de Leitura Palavra Mágica, que já atendeu quase 10 mil presidiários em 17 penitenciárias, já vai completar 13 anos. E entidade promove ainda curso de formação de mediadores de leitura para professores e bibliotecários, entre outros, que formaram mais de 70 mil pessoas no ano passado, em plena pandemia.

Interesse pela leitura aumenta no Brasil


Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), destaca que o brasileiro está lendo mais na pandemia(foto: Divulgação/SNEL)
Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), destaca que o brasileiro está lendo mais na pandemia (foto: Divulgação/SNEL)


A leitura tem papel transformador e quem se deixa conquistar pelos livros nunca ficará sozinho na vida, terá sempre uma companhia. Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel)), destaca que o brasileiro está lendo mais na pandemia, o que é uma ótima notícia, e essa tendência se manteve no início de 2021. “Os números da Nielsen mostram uma leitura diversificada, com destaque para os clássicos e livros de autoajuda e empreendedorismo.”

O segundo Painel do Varejo e Livros no Brasil, pesquisa feita pela Nielsen e divulgada em março pelo SNEL, mostra que o interesse pela leitura tem aumentado durante a pandemia. Uma das principais novidades do segundo período de 2021 é o aumento de 12,59% na quantidade de números de ISBNs comercializados, o que indica maior variedade de títulos vendidos, em relação ao mesmo período em 2020.

Os dados mostram ainda crescimento de 18,69% no volume de exemplares vendidos e o aumento de 6,29% no faturamento. Em números reais, foi registrada a venda de 3,77 milhões de livros, com uma receita de R$ 172,14 milhões nesse segundo período de 2021 se comparado ao ano passado.

Os dados do acumulado anual sugerem que o consumidor está buscando nos livros uma relevante opção de entretenimento neste momento de avanço da pandemia no país e de novas medidas de isolamento social em várias cidades.

As vendas de obras de ficção cresceram 34,5% em valor e 41% em volume, com acréscimo de mais de 600 mil exemplares em relação a 2020. Já a pesquisa feita pela Nielsen Book e coordenada pelo Snel e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), de 2019, revela que o setor produziu 395 milhões de exemplares, sendo 80% deles reimpressão e 20% novos títulos.

Neste crescimento, surge um novo modelo de negócio que veio para ficar: a venda on-line. Outra mudança no hábito de leitura do brasileiro está no formato do livro. Marcos da Veiga Pereira destaca que a venda de e-books cresceu 50% para muitas editoras na pandemia, alcançando uma participação de 10% nas vendas totais dessas empresas. 

Independentemente do formato, fato é que o brasileiro ainda lê muito pouco. Alguns dados da pesquisa Retratos da Leitura, feita pelo Instituto Pró-Livro, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) criada em 2006 e mantida pelas entidades do livro Abrelivros, CBL e Snel, mostra que o brasileiro lê somente dois livros por ano.

Apenas 56% leram pelo menos um livro inteiro. E cerca de 30% dos brasileiros jamais compraram um livro. Quanto ao mercado livreiro do estado, Marcos da Veiga Pereira destaca que Minas sempre teve um número importante de editoras independentes.




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